O invisível observado

Ele escalava a árvore com os pés descalços, seus chinelos estavam na calçada da rua, cada um em partes diferentes do meio-fio. Sua bermuda, surrada, aparentava ter pertencido a alguém mais robusto, e a camisa a alguém mais novo. Seu irmão estava embaixo, malandramente na sombra, dando as ordens para a captura adequada da fruta. Ele continuava a subida, mas seu rosto indicava a preocupação. Não exatamente dos perigos de uma escalada ao topo da mangueira, mas dos olhares atravessados. Tão novo era e já sabia dos perigos de ser o que nascera: um pobre negro marginalizado. Sua atual infância já revelava o desgosto de ser observado e ignorado ao mesmo tempo. Aprenderá fácil. Eles sempre aprendem. O importante era o que segurava com firmeza entre as mãos encardidas: uma manga madura, meio verde, meio avermelhada. Talvez mais de uma, mas no ângulo de onde eu o observava não podia ter certeza. Ele pula do galho despretensiosamente e cai em frente a uma senhora. Vi seu olhar se habitar em uma face que se tornava outra. O semblante dos dois era de surpresa e medo. Perplexa com o ser possivelmente hostil à sua frente, a senhora agarra com todas as forças a sua bolsa de paetês. Diante dela, um moleque de nove anos, com uma manga na mão e a bermuda caída, pede desculpas. Ele não olha para ela. Sua vergonha é tanta que o chão é a única direção de seus olhos. A senhora o ignora e segue o rumo de sua flanação. O garoto entrega a manga ao irmão e calça os chinelos. O olhar cabisbaixo ergue o pescoço e encontra meia dúzia de olhares observando seus próximos movimentos. O pescoço abaixa de novo e ele volta a andar.

Talvez por um momento ele tenha esquecido, mas seus passos não são livres. Não basta sua pobreza, a falta de espaço público digno dentro da cidade, sua cor que é tão perseguida e confrontada pela sociedade, ele também deve entender que, na rua, ele não pode ficar.

Pouca coisa dói mais do que ser ignorado. Talvez só a dor de ter sua infância roubada, seu direito de andar por onde quiser, de poder olhar e ser olhado sem medo.

Logo o menino voltou ao seu estado natural. De invisível. Esquecido. Marginalizado.

Seu irmão morde a manga com voracidade e oferece ao irmão. Ele não quer. Perdeu a fome. Continuou a andar pelas ruas que não lhe pertencem.

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