Como se tratar com mais gentileza (Perfeccionismo: o que é e como lidar com ele? — parte 4)

Em geral, quando estamos em um relacionamento abusivo, o mais saudável é se afastar. Mas e quando o relacionamento abusivo em questão é consigo mesmo? Eu já falei sobre o nosso crítico interno, mas gostaria de falar em mais detalhes sobre como lidar com essa parte de nós mesmos que causa tanto sofrimento através do perfeccionismo. A realidade é que quando nos damos conta de que existe uma parte de nós mesmos que é tão maldosa, isso gera muita raiva. Mas como jogar essa parte da gente fora a força é impossível, o que fazer então? Bom, aqui estão algumas noções gerais:

a) Pare de lhe dar tanto ouvidos. O nosso crítico interno normalmente tem uma voz forte e firme; ele sabe se impor, soando como se fosse a parte mais lógica dentro você. Mas quando paramos para analisar com mais atenção, acabamos vendo os furos desta lógica. A maior prova disto é que não tem coerência que, na tentativa de me poupar sofrimento, eu me faça sofrer mais ainda. A realidade é que a lógica do crítico interno raramente leva o que você sente em consideração. E será que algo que me leva a me tratar mal faz realmente tanto sentido?

b) Reveja os seus conceitos. A lógica mais profunda do crítico interno perfeccionista é que não devemos errar, e que de fato existe um certo e um errado que são claros e imutáveis. O que esquecemos é que para podermos aprender e evoluir o erro não é só inevitável, mas é também uma ferramenta importante. Quando levamos em consideração a abundância de cores e nuances em que vivemos as nossas vidas, o preto e branco acaba ficando um pouco obsoleto. Flexibilidade, leveza, e a possibilidade de crescimento são mais importantes do que um conceito rígido de certo ou errado, não é mesmo?

c) Se dê colheres de chá. “Trate as pessoas como você gostaria que elas o tratassem” é uma máxima bem antiga, mas também inesgotável. O que raramente nos perguntamos é se nós nos tratamos da maneira que gostaríamos de ser tratados, ou mesmo da maneira que tratamos aquelas pessoas que mais amamos. É comum relevarmos os erros e imperfeições dos nossos amigos, filhos, amores — afinal de contas, eles são muito mais do que os seus erros. Acreditamos que eles vão fazer melhor da próxima vez, e não vemos necessidade em punir erros que não fizeram mal a ninguém. Mas quando lidamos com os nossos próprios erros não somos tão bondosos. Será que não merecemos tanto amor quanto aqueles que amamos?

Espero que você absorva estas dicas com a intenção com que as ofereço, que é a de lhe permitir mais liberdade, mais gentileza, e um crescimento mais saudável. A ideia é que tudo que te aprisiona, te põe para baixo, te sufoca, pode ser diferente se lidamos com isso de outra forma. O perfeccionismo pode ter uma voz dominante na sua vida neste momento, mas a boa notícia é que temos outras partes de nós — talvez partes mais sensatas e gentis — que podem também ter voz ativa.

Este é o último post desta série sobre Perfeccionismo, e acho que faz sentido que ela termine com uma nota positiva: trate a si mesmo como você trataria a pessoa que mais ama e admira; e não aceite abuso de ninguém, especialmente de si mesmo.

(Se você perdeu as outras partes desta série, você pode encontrá-las aqui: Parte 1 — Perfeccionismo: o que é e como lidar, onde começamos a conversa falando sobre o que de fato significa o perfeito; Parte 2 — Você é uma pessoa Boa ou Boazinha?, uma reflexão sobre o poder da opinião dos outros na sua vida; Parte 3 — Quem manda em você?, uma análise do seu crítico interno.)