Converse, não comente

Ontem a Bruna Marquezine falou nas redes sociais (stories do Instagram) sobre como comentários referentes ao seu corpo já lhe machucaram muito no passado. Viralizou, claro, porque é polêmico e — espero — porque é cheio de verdades. Ela falou sobre como o comentário dos outros sobre o corpo dela gerou um transtorno de imagem e depois uma depressão, e eu queria trazer para vocês uma solução para esta “preocupação” que temos e que gera comentários (muitas vezes bem intencionados), mas que podem prejudicar o outro mesmo assim.

Primeiro, é normal ter vontade de comentar. É humano percebermos coisas sobre outros seres humanos e querermos dividir, nos colocar, nos posicionar. Mas, em geral, isso não é preocupação — é uma necessidade de expor o que está dentro de nós ao mundo. É uma necessidade SUA de dizer o que pensa e (porque não?) talvez fazer diferença na vida de alguém (seja ajudando, seja fazendo uma outra pessoa rir, “brincar”, tanto faz). Mas, independente da intenção, comentários sobre a saúde de alguém dificilmente levam a qualquer mudança por parte da pessoa. Se levassem, todas as pessoas do mundo seriam saudáveis em todos os sentidos, porque uma das coisas que mais gostamos de comentar é sobre a saúde dos outros. Você já viu um “você precisa emagrecer!” de fato ajudar alguém a perder peso? Um “você precisa se levantar da cama e fazer alguma coisa!” de fato tirar alguém da depressão? Um “você precisa se acalmar!” realmente ajudar com a ansiedade de alguém?

Mas vamos dizer que você esteja genuinamente preocupado com alguém. O que fazer?

- Se esta pessoa for alguém com quem você não tem intimidade, presuma que outra pessoa — alguém mais íntimo dela— já falou alguma coisa sobre isso. Então guarde o seu comentário para você, ou procure cultivar uma relação com a pessoa para poder tomar o passo seguinte:

- Se esta pessoa for alguém do seu convívio, que você tem intimidade e uma relação de afeto genuína, aí eu entendo certos comentários às vezes. Já fui essa pessoa, infelizmente, que comentou uma preocupação de qualquer jeito, em um momento de susto, na frente de outras pessoas ou em horas que claramente não conseguiríamos conversar sobre aquilo. E por isso mesmo sei que esse comentário, em geral, só te afasta mais da pessoa com quem você se importa. Estes “simples comentários”, muitas vezes inofensivos nos seus olhos, fazem a pessoa se sentir diminuída, menosprezada, invadida.

Comentários geram isolamento, distância. Já conversas, constroem pontes.

Uma conversa é algo que eu planejo, ou que percebo o momento pelo fato de estarmos em um ambiente propício (sozinhos, sem nada urgente acontecendo, seguro, com tempo para falar). É algo que envolve eu colocar o que sinto, não o que penso. O que você sente é único e importante, o que você pensa, provavelmente, é senso comum.

Conversar com alguém que está precisando de ajuda, em primeiro lugar, é algo que envolve escutar mais do que falar. Se essa pessoa está, por qualquer razão, tendo atitudes preocupantes, é importante entender que não é preguiça, não é burrice, não é sem-vergonhice. Pode ser um transtorno (e nesse caso a sua sugestão deve ser que a pessoa procure um profissional adequado), pode ser uma dificuldade, pode ser uma escolha que você simplesmente ainda não compreendeu.

Lembre-se que uma conversa preocupada não é sobre você, sobre as suas opiniões e os seus valores, é sobre o outro e a saúde dele. E saúde, vale lembrar, não se mede com o olho e com achismos, se mede com exames e profissionais qualificados. Se você está realmente preocupado, falar a mesma coisa 10 vezes não vai ajudar! Procure você mesmo um profissional que possa te ajudar a lidar com isso. Quem sabe as suas atitudes possam inspirar quem você ama, e mudanças em uma parte gerem mudanças no todo?

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