Encare as suas emoções: como lidar com a preguiça e a procrastinação (parte 3)

Até agora vimos um pouco sobre o que fazer e não fazer para lidar com a preguiça e a procrastinação — como não confundir cansaço emocional com preguiça e entender as suas prioridades (parte 1), e não deixar a comparação e a preocupação te atrapalharem, e fazer uma limpeza digital (parte 2). Mas hoje eu quero chegar ao coração do problema — as nossas emoções. E vou começar essa conversa com um pouquinho de ciência.

Se tem uma coisa que os especialistas concordam sobre a procrastinação é que ela tem tudo a ver com como o nosso cérebro processa recompensas. Falando de maneira simples, temos duas partes do cérebro que influenciam nesse processo: a amigdala, que é a nossa parte mais instintiva e quer sempre gratificação instantânea; e o córtex pré-frontal, que é mais evoluído e é responsável pelas nossas decisões mais sensatas e alongo prazo. A amigdala faz as coisas automaticamente, sem pensar muito nas consequências, já o córtex pré-frontal precisa de reflexão e atitudes conscientes para estar no comando. Bom, por aí já é possível perceber que parte de nosso cérebro nos controla quando procrastinamos, não é mesmo? A conversa interna é mais ou menos assim:

Cérebro –Você quer fazer aquele negócio super difícil e demorado agora? 
Amigdala –Acho que não, vou ficar numa boa fazendo uma coisa fácil e gostosa, obrigada!

Por a amigdala ser também a responsável por processar muito das nossas emoções principais, ela sabe sem precisarmos pensar que coisas difíceis e demoradas geralmente trazem muitas emoções que queremos evitar. Se eu tenho um projeto importante para apresentar, eu entendo que fazê-lo vai trazer sentimentos de ansiedade, insegurança e frustração. Entendo também que depois que ele estiver pronto, mesmo eu tendo trabalhado pra caramba, ele pode trazer sentimentos de rejeição e incapacidade. E ninguém precisa realmente pensar (ou usar o córtex pré-frontal) para saber disso, pois aprendemos isso com a vida desde pequenos. Talvez se alguém te perguntar se você não começou o tal projeto ainda por medo ou insegurança, a sua resposta será não. Mas essa é uma resposta pensada e consciente, ou seja, uma resposta que não veio da sua amigdala.

A amigdala é também responsável por processar sentimentos que adoramos, como amor e a afeição. Ou seja, ela é responsável por identificar o que gostamos ou não. Então é lógico que ela saiba que gostamos mais de assistir TV do que de estudar textos acadêmicos, por exemplo. Mas as conexões que precisamos para pensar o porque precisamos ler o bendito texto (como que precisamos passar na aula, para depois exercermos uma profissão que amamos) não estão na sua alçada. E isso pode ser um complicador em vários níveis, porque às vezes escolhemos as coisas por pressão social, e não por amor à elas.

Eu proponho, então, um exercício: Pegue a sua lista de prioridades (aquela que você fez quando leu a parte 1 desta conversa) e faça uma segunda lista, com todos os seus medos e incertezas com relação a concluir estas tarefas. “Nada”, neste caso, realmente não é resposta. Procure fundo, porque muitas vezes estas emoções não são o que você imagina. Às vezes elas são simples, como “Vai ser chato”, ou “Vai demorar demais”, ou “Eu vou deixar de fazer aquela coisa que eu estava com vontade”. Outras vezes elas são mais profundas, do tipo “E se ninguém gostar?”, ou “E se não der certo?”, ou “E se eu não for bom o suficiente para me propor a fazer isto?”, ou até “Eu tenho dúvidas se isso é realmente o que eu quero para a minha vida”. A ideia aqui é trazer essas emoções para a superfície em forma de pensamento, para que possamos lidar com elas em um nível menos automático e mais razoável.

A terceira lista que você precisa fazer é referente ao que pode acontecer caso você não complete a tarefa que tem para fazer. Como você vai se sentir? Quais são repercussões que isso vai ter na sua vida? O que você vai perder ou ganhar com isso? Essas são perguntas importantes pois vão de fato te dizer se aquilo que você listou como prioridade é realmente algo importante. Talvez seja só uma pressão social ou algo que você aprendeu que é sua obrigação, mas talvez seja algo que vai te trazer muitos benefícios e aumentar a sua sensação de capacidade e poder pessoal.

Olhando assim, você pode tomar de volta as rédeas das suas ações. Talvez a troca seja seis por meia dúzia, e não valha a pena. Mas talvez alguém esteja te oferecendo a opção de trabalhar 5 minutos por 5 centavos, ou uma hora por 500 reais. No segundo você trabalha mais, se cansa mais, mas também ganha muito mais. Pode parecer simples, mas parar para pensar nessas coisas de fato nos ajuda a fazer não só o que temos que fazer, mas o que é melhor.