Psicologia e o Mágico de Oz — Reflexões sobre Validação

Este mês eu li o “O Mágico de Oz”, do L. Frank Baum (1900), pela primeira vez. Como a maioria das pessoas, eu assisti ao filme quando era pequena (o filme é de 1939), e me lembrava da história com bastante clareza e carinho. Você deve lembrar também, certo? A Dorothy é uma menina fofa e corajosa que, ao tentar salvar o seu cachorrinho Totó, acaba sendo pega por um tornado que leva a sua casa para uma terra distante e maravilhosa — o mundo mágico de Oz. Eu nunca vou me esquecer da Dorothy abrindo a porta descolorida da sua casa para um mundo vivo, brilhante e cheio de tons! Ela caiu em cima de uma bruxa, matando ela, libertando os Munchkins, e herdando um sapato mágico (que no livro é feito de prata, não de rubi!). Mas o que ela quer mesmo é voltar para casa. Então ela vai atrás do maior mágico daquela terra, Oz, e no caminho encontra um espantalho que quer um cérebro, um homem de lata que quer um coração, e um leão que quer coragem. Tudo é lindo e colorido e divertido; a bruxa é derrotada e o mágico — mesmo sem poderes — acaba dando tudo que todos querem; e a bruxa boa do Norte finalmente diz para Dorothy como ir para casa usando os seus sapatinhos de rubi. Era assim que você lembrava?

Quando eu comecei a ler o livro eu achava que sabia as reflexões que eu iria tirar dele “Não há lugar melhor do que a nossa casa” é uma mensagem bem clara. Mas eu me surpreendi com outras mensagens profundas e importantes que eu não peguei (ou que não estavam) no filme. A primeira e mais clara para mim tem a ver com VALIDAÇÃO. Para quem não sabe bem o que eu quero dizer com isso, validação é o termo que explica o ato de validar, de dar legitimidade e o devido valor a algo ou alguém. Eu me lembrava o quanto amava o Espantalho e o Homem de Lata e o Leão, mas no livro fica muito mais claro quem eles são de verdade. As inúmeras aventuras que não puderam ser incluídas no filme revelam o real valor de cada personagem.

O Espantalho é mesmo um pouco paspalhão, não prestando atenção por onde anda com a sua cabeça de vento. Mas na verdade ele é a cabeça do grupo, tendo todas as boas ideias que tiram a Dorothy e seus amigos de enrascadas. Já o Homem de Lata conta uma triste história de como perdeu seu coração (e seu corpo humano) de tanto trabalhar — se afastando da mulher que amava. Ele queria seu coração de volta, porque valorizava o emocional mais do que tudo. Mas na verdade era o mais sensível dos quatro, se emocionando constantemente — a ponto de sempre ter que levar uma lata de óleo com ele, pois ele se enferrujava com as próprias lágrimas. Achei muito significativo isso — o quanto na verdade ele tinha tanta dificuldade em lidar com a sua sensibilidade que acabava se enferrujando, se engessando, ficando paralisado e duro como lata. (Isso acontece mais do que se imagina na vida real.) De maneira similar o Leão, que tinha muita vergonha da sua falta de coragem, era sempre aquele que se oferecia para enfrentar os maiores perigos. Na hora do “vamos ver”, ele era sempre o grande herói.

O Mágico de Oz, que foi revelado como um grande farsante e que na verdade revela não possuir mágica alguma, tenta dizer a eles que não precisam dele para terem o que procuram. Os amigos já têm inteligência, afeto e coragem de sobra. Mas eles só ficam contentes quando o Mágico, que é aquele que sempre consideraram todo poderoso durante suas vidas, lhes dá símbolos do que procuram. Ao Espantalho ele dá um cérebro “afiado”, feito de alfinetes; para o Homem de Lata ele faz um coração da mais delicada seda, para que ele o sinta dentro de si ao se mexer; e ao Leão ele dá uma poção de coragem, explicando que ela não vai retirar o seu medo — porque a verdadeira coragem não é a ausência do medo, mas sim a percepção de que algo é mais importante do que ele. No meu papel de psicóloga, muitas vezes eu sou o Mágico de Oz — aquela que está ali para apontar as coisas mais importantes e bonitas que os meus clientes sempre tiveram dentro de si. É muito normal precisarmos de validação externa quando crianças, mas um dos mais importantes aprendizados que precisamos fazer enquanto adultos é aprender a dar valor a nós mesmos.

Mas à Dorothy o Mágico não consegue ajudar, mesmo tentando. Ela também tinha exatamente o que precisava para ir para casa desde o início (os sapatos mágicos), mas a minha teoria é que, para ela aprender a enxergar o seu mundo com mais cor, precisava encontrar o seu caminho sozinha. Nós somos assim também, às vezes. Mesmo quando nos dizem repetidamente o nosso valor, ele só vai ser real quando percebermos por nós mesmos — quando agirmos na prática de uma maneira que tenha valor para a gente. Precisamos matar nossas próprias bruxas, desmascarar nossos próprios feiticeiros, seguir o nosso Totó interno por aí (a nossa curiosidade e vontade). Precisamos descobrir muitos mundos antes de voltar para casa com os nossos próprios pés.

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