Quem manda em você? (Perfeccionismo: o que é e como lidar com ele? — parte 3)

Espero que, se você é adulto, a resposta tenha sido um sonoro “eu”. Mas a minha intenção com esta pergunta é entender que parte de você mais influencia as decisões que você toma, e, em especial, a maneira como você trata a si mesmo. Quando alguém é dominado pelo perfeccionismo, normalmente a parte de si que mais tem autoridade sobre a pessoa é o crítico interno.
Sabe aquela vozinha dentro da gente que está sempre duvidando que vamos conseguir? Aquela que nos xinga quando erramos? Aquela que nos faz acreditar que somos fracos, idiotas, fraudes, pequenos, e o que mais couber? Essa é a voz do nosso controlador. É a parte da gente que está ali para garantir que não haja erros.
Ela nasce muito mais cedo na nossa vida do que você imagina ou lembra. Ela aparece pela primeira vez quando somos crianças — por volta dos 7 anos de idade — e precisamos aprender a obedecer às importantes regras da sociedade sem os nossos pais estarem do nosso lado o tempo todo. A voz que nos controla é útil e saudável nessa idade, porque sem ela não aprenderíamos a nos virar sozinhos.
Mas uma criança nem sempre sabe medir a força que é realmente necessária para impor esse controle. O que acontece é que muitas vezes o nosso crítico interno continua tão sem noção quanto quando éramos crianças. E assim passamos a vida falando com nós mesmos com força excessiva e agressividade, exigindo uma perfeição da gente mesmo que não pediríamos de nenhuma outra pessoa, e nos tratando de uma maneira que jamais trataríamos qualquer um (muito menos uma pessoa amada).
A grande dificuldade em lidar com esse nosso lado é que ele realmente acredita que se não errarmos, não vamos sofrer rejeições, não vamos sentir dor, e não vamos sofrer o que quer que seja que temos mais medo de sofrer. Está aí a grande razão que permitimos que essa parte de nós seja tão dominadora: nós também acreditamos nisso. Acreditamos que se não houvesse “alguém” para nos atormentar, seríamos tão fracos, bobos e perdidos quanto quando tínhamos 7 anos de idade. E assim continuamos aturando de nós mesmos todos os dias o que não aturaríamos de ninguém.
Se dando conta disso, o que a maioria das pessoas me pergunta é: Como eu me livro dessa peste? Eu quero falar melhor disso na semana que vem, mas por enquanto vou te deixar com essa reflexão: se a sua mão está doendo, a primeira coisa que você faz é arrancar ela fora? Imagino que não! Lidar com o nosso crítico interno é parecido. Ele precisa de limites, sem dúvidas, mas também de cuidado. Ele é, afinal de contas, uma parte de você — e todas as nossas partes merecem amor.
(Se você perdeu as outras partes desta série, você pode encontrá-las aqui: Parte 1 — Perfeccionismo: o que é e como lidar, onde começamos a conversa falando sobre o que de fato significa o perfeito; Parte 2 — Você é uma pessoa Boa ou Boazinha?, uma reflexão sobre o poder da opinião dos outros na sua vida; e Parte 4 — Como se tratar com mais gentileza, onde eu dou dicas para como lidar com tudo isso.)
