Ilha de Marajó, Pará, Brasil.

Pequenas embarcações no porto de Soure (PA), onde o rio encontra o Atlântico. (Foto: Raquel Lasalvia)

De 17 de janeiro a 9 de fevereiro de 2014, percorri nove municípios da Ilha de Marajó, no Pará, numa agência-barco da Caixa Econômica Federal destinada a atender comunidades ribeirinhas. Viajei a serviço da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), onde trabalhava como assessora de comunicação. A SPM seguiu ao Marajó a fim de realizar um diagnóstico sobre mulheres em situação de violência doméstica que vivem na Ilha. Este diário traz algumas impressões em texto, fotos e vídeos da experiência.

21 de janeiro de 2014 — De Ponta de Pedras a Soure

A viagem de Ponta de Pedras até Soure foi turbulenta. Pessoas com as quais conversávamos nos diziam que a travessia da Baía do Marajó poderia ser incômoda, mas não tínhamos ideia do que isso realmente significava. O balançar da embarcação e os solavancos ocasionados pela maresia nos assustavam. Navegávamos contra o vento e a maré. A sensação era de se estar numa montanha-russa de parque de diversões, com menos velocidade obviamente.

Agência-barco atracada em Ponta de Pedras, antes da turbulenta travessia da Baía. (Foto: Raquel Lasalvia)

Boa parte da tripulação não conseguiu dormir nesta noite. O enjoo e o barulho da água que atingia a parte inferior do barco nos tiravam o sono. O Comandante Álvaro nos dizia que isso era normal, no entanto notávamos que a agência-barco se esforçava para cortar as águas do Marajó.

Aconselhadas pelos mais experientes, seguimos para o pavimento térreo do barco, pois ali sentíamos menos a oscilação. No meio da madrugada soa a buzina do motor: devido à alta temperatura, a corrente não resistiu e rebentou. Prontamente marinheiros e mecânicos correram a sala de máquinas para trocá-la. Por cerca de vinte minutos, a embarcação ficou à deriva das águas e do vento.

Resolvido o problema mecânico, prosseguimos a viagem. Sonolentos e estafados, decidimos voltar aos camarotes. Era necessário dormir para dar conta das atividades do dia seguinte.

Apenas a poucos quilômetros do porto de Soure, a embarcação deixou de oscilar. O sol já havia nascido quando adentramos o Rio Paraucari, que banha o município. Havíamos deixado Ponta de Pedras à meia-noite. Atracávamos na “capital do Marajó”, como Soure é conhecida, por volta das 8h da manhã. Tudo estava bem. Apesar das águas revoltas da Baía, Soure nos apresentou uma bela paisagem. O início da manhã na localidade alumiou a noite turbulenta pela qual passamos.

População aguarda atendimento da agência-barco em Soure. (Foto: Raquel Lasalvia)

22 de janeiro de 2014 — Os dias em Salvaterra

Aportamos no trapiche de Soure na manhã de quarta-feira, 22 de janeiro. Embora a agência-barco ficasse atracada neste município, a equipe da SPM seguiu em um pequeno bote para Salvaterra. As cidades são próximas, separadas apenas pelas águas do rio Paracauari. É costume realizar a travessia diária por meio de bote, rabeta ou balsa. Uma cidade encontra a outra no horizonte.

A paisagem da travessia era exuberante. Enquanto o pequeno barco cortava a água, gaivotas e guarás acompanhavam o trajeto. Próximos às margens, os búfalos — uma das grandes atrações do Marajó — se banhavam nas águas do rio. Salvaterra nos recebeu com o céu azul e aberto. Daríamos início à agenda na região.

Rabeta, como chama-se o pequeno barco a motor, segue até Salvaterra. (Foto: Raquel Lasalvia)

Visita à Comunidade Quilombola do Caldeirão

Em Caldeirão, conhecemos a benzedeira e parteira dona Maria Amélia, mais conhecida como Dona Florzinha, e fomos apresentadas à família de Dona Conceição. Conversamos durante toda a manhã com suas filhas Maria Auxiliadora, Maria de Fátima, Marli e Marcy, e as netas Nilma e Rayane.

A comunidade remanescente de quilombo Caldeirão possui aproximadamente 1.800 habitantes. A maioria da população vive da pesca e da agricultura. Segundo Hilário, líder do quilombo, a horticultura é a principal atividade agrícola. Planta-se coentro, alface, couve e mandioca.

Pescador no quilombo Caldeirão. (Foto: Raquel Lasalvia)

Ao falar sobre a origem do quilombo, Maria Auxiliadora, filha de Dona Conceição, contou que Caldeirão remonta da época do império, quando da Revolta da Cabanagem, ocorrida na então província do Grão-Pará, entre 1835 e 1840. Segundo Auxiliadora, o território serviu de refúgio para escravos negros durante o conflito. Já o nome da comunidade faz alusão a um fenômeno fluvial, em que as águas do rio se movem tal qual um redemoinho, ou um caldeirão, e que se apresenta nas águas do Paracauari, rio que banha a comunidade.

Dona Florzinha, a parteira da região

Dona Florzinha na cadeira de balanço, no terraço de sua casa. (Foto: Raquel Lasalvia)

Dona Florzinha é apelido que a irmã lhe colocou. Seu nome verdadeiro é Maria Amélia, igual ao de sua avó. O primeiro parto que realizou foi de um garoto há 25 anos. Mas há dois anos largou da atividade. “Depois que meu marido morreu, eu dei por encerramento. Hoje em dia eu puxo, ajeito todinho e mando pro hospital. Tá torto, eu ajeito ali”, contou Amélia.

Quando começou, Dona Florzinha “tinha muito medo de fazer parto”. Mas, de acordo com ela, todos os que fez “saiu bem”. De benzer, nunca deixou. “Eu benzo quebranto, febre que dá nas crianças, dá vômito”, disse. “Todo dia tem gente aqui pra eu benzer”, acrescentou. Aposentada, Florzinha conta que trabalhou bastante na pesca e que, agora, recebe pensão por invalidez: “Recebo minha pensão devido à coluna. Tenho dor, muita dor, na coluna”.

Dona Florzinha nasceu, se criou e, segundo ela, irá morrer em Caldeirão. Casou aos 18 anos com Antônio Ramos. Não teve filhos, mas criou três meninos, dos quais um faleceu. Hoje vive sozinha na casa que beira o rio Paracauari, onde a visitamos. Lá o vento entra na varanda sem pedir licença.

23 de janeiro de 2014 — A Vila do Pesqueiro em Soure

Praia da Vila do Pesqueiro. (Foto: Raquel Lasalvia)

A Vila do Pesqueiro é uma Reserva Extrativista Marinha de Soure. A vila compreende o encontro do rio com o Oceano Atlântico. A areia branca da praia é cortada pela água doce, que deságua em mar aberto, para além dos bancos de areia – visíveis durante a maré baixa.

Quem nos recebeu na vila foi Patrícia Ribeiro. Ela integra a Associação de Mulheres da Vila do Pesqueiro (Asmupesq), que reúne 25 mulheres, todo mês, em discussões acerca de seus direitos, trabalho e geração de renda. As mulheres se organizam em torno da pesca, do artesanato e da gastronomia.

Patrícia nos recebeu na sede da Asmupesq. (Foto: Raquel Lasalvia)

O que começou como um “clube de mães”, no âmbito das atividades da Pastoral da Criança, tornou-se uma associação, com dez anos de atuação, que envolve mulheres na pesca de camarão, realização de eventos gastronômicos e comércio de artesanato, elaborado a partir de sementes da região.

Por do sol em Soure. (Foto: Raquel Lasalvia)

24 de janeiro de 2014 — Conhecendo a Comunidade do Caju-una

Casetas de Caju-una. (Foto: Raquel Lasalvia)

Na comunidade de Caju-una, em Soure, as mulheres costumam pescar tainha, bagre, bacu, corvina, pescada branca e amarela. Como afirmou Ivone, “tudo que bater na rede é peixe”. Na vila de pescadores, a equipe da SPM se reuniu com cerca de cinquenta mulheres e homens, na escola de ensino fundamental da comunidade. Sr. Vazinho, presidente da Associação de Pescadores e Pescadoras do local, convocou moradores e moradoras para o encontro, que discutiu a Lei Maria da Penha e o contexto de violência doméstica na região.

Moradores de Caju-una que participaram de reunião com equipe da SPM. (Foto: Raquel Lasalvia)

27 de janeiro de 2014 — Dias de chuva em Muaná

Muaná figura entre os municípios de pior Índice de Desenvolvimento Humano do Estado do Pará. A forma como a cidade se estrutura reflete essa condição: ausência de saneamento básico na área urbana e vilas ribeirinhas, ruas sem pavimento e casas de madeira construídas sobre palafitas.

Vista de Muaná durante chegada da agência-barco. (Foto: Raquel Lasalvia)

Sr. Quincas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Muaná, fala sobre o abandono do município. “O grande problema é que ninguém assume a responsabilidade pelo município: nem o estado, nem a prefeitura, nem a justiça”, opina.

O sindicalista explica que a principal atividade econômica da população é a colheita do açaí. Para a subsistência, planta-se banana e mandioca, que serve para fabricação de farinha. Sr. Quincas explica que o tráfico de drogas é um entrave para a região. “Um dos nossos piores problemas é a insegurança. Tem muita droga, assalto e acerto de contas”, diz.

A canoa ou rabeta é o principal meio de transporte dos moradores que residem no Marajó. (Foto: Raquel Lasalvia)

Conhecendo a Associação de Mulheres Muanenses

Numa casa de madeira construída entre as palafitas de Muaná, está a Associação de Mulheres Muanenses. Presidida pela pedagoga Marisa Vale, a associação organiza cursos de corte e costura, customização, material reciclado e manicure para a população feminina local. Cerca de 30 mulheres reúnem-se mensalmente.

Residências entre palafitas. Moradores vivem em meio ao lixo e à falta de saneamento básico. (Foto: Raquel Lasalvia)

Fomos apresentadas ao espaço por Marisa e Rosilene, conselheira tutelar e integrante da associação. A partir de seu trabalho no Conselho Tutelar, Rosilene tem conhecimento de casos de violência doméstica. “Como o Conselho Tutelar é o órgão que atua no município, onde as pessoas chegam, elas denunciam muito pra gente, as mulheres vítimas de violência doméstica. Geralmente eu dou como referência o 180”, afirmou.

Associação das Mulheres de Muaná. (Foto: Raquel Lasalvia)

28 de janeiro de 2014 — São Sebastião da Boa Vista

São Sebastião da Boa Vista, município com 24 mil habitantes, compreende dezoito ilhas, divididas entre a área central e vilas ribeirinhas. A população é basicamente extrativista: a coleta de açaí e a pesca do camarão são as principais atividades econômicas. O município conta, ainda, com duas fábricas de palmito, as quais, segundo o prefeito, não contribuem na oferta de empregos na região. A renda das famílias é complementada pelos recursos do Programa Bolsa-Família, no qual estão cadastradas cerca de 5 mil pessoas do município.

Porto de São Sebastião da Boa Vista. (Foto: Raquel Lasalvia)

A zona rural de São Sebastião é formada por diversas comunidades ou vilas ribeirinhas. Há aquelas que distam apenas uma hora, em voadeira, do centro do município. Mas há outras que estão a mais de 24 horas, na pequena embarcação a motor, da área urbana.

Marituba e Urucuzal, nomes emprestados às vilas pelos rios que as cortam, estão a menos de duas horas da zona central. Suas paisagens são semelhantes: casas de madeira construídas sobre palafitas, em áreas de várzea. Para imprimir cor ao local, algumas famílias pintam suas residências, e até canoas e rabetas, carregando de adornos as portas e janelas.

Embarcação aporta em São Sebastião da Boa Vista. (Foto: Raquel Lasalvia)
Morador na Vila Marituba. (Foto: Raquel Lasalvia)

Os açaizeiros permeiam todo o caminho das casas. Além da ausência de saneamento, grande parte das vilas ribeirinhas não possui energia elétrica. Os moradores se utilizam de geradores de energia, que funcionam por algumas horas e garantem luz e uso de eletrodomésticos.

Em cada uma das vilas que visitamos, foi construída uma escola e uma unidade básica de saúde. Em Urucuzal, cerca de 400 alunos estudam na Escola de Ensino Infantil e Fundamental Pedro Nogueira, que recebeu a visita da SPM.

Escola em Urucuzal. (Foto: Raquel Lasalvia)
Por do sol em São Sebastião da Boa Vista. (Foto: Raquel Lasalvia)

4 de fevereiro de 2014 — Melgaço

Melgaço tornou-se conhecido em todo o Brasil ao ser classificado como município de pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País. A pobreza das vilas contrasta com a beleza do local: as águas esverdeadas e a vegetação típica margeiam casebres de madeira, que se sustentam sobre palafitas, sem nenhuma estrutura de saneamento ou água encanada. As residências, normalmente, são compostas de vãos livres, com no máximo dois cômodos.

O caminho até a prefeitura do município. (Foto: Raquel Lasalvia)

Cruzamos este cenário enquanto seguíamos para a Prefeitura do município. A agência-barco Ilha do Marajó aportou em um trapiche localizado a 2,5 quilômetros da área central. No caminho até a zona urbana, pudemos ver as crianças espalhadas pelos alpendres improvisados ou correndo pela estrada de areia, cortada pelas motocicletas e pedestres.

No centro do município, as pequenas embarcações se aglomeram em um trapiche improvisado. (Foto: Raquel Lasalvia)

5 de fevereiro de 2014 — Finalizando a jornada em Portel

Portel foi o último município a ser atendido pela Agência-barco Ilha do Marajó em sua viagem inaugural. A mais populosa das localidades visitadas – com aproximadamente 55 mil habitantes – compreende uma área de 25 mil quilômetros quadrados. A comunidade rural mais distante está a 12 horas, de voadeira, da área central.

Mais um trapiche na lista de chegadas. (Foto: Raquel Lasalvia)

Além do contingente empregado pelo Poder Público municipal e pelo comércio na área urbana, boa parte das famílias, em Portel, vive do cultivo de mandioca, cupuaçu, bacuri e açaí e de recursos dos programas sociais.

Mensalmente a Secretaria de Assistência Social cruza os rios e percorre comunidades rurais do município, levando serviços médicos, socioassistenciais e de cidadania. “Nós fazemos um trabalho ribeirinho. Ficamos dez dias embarcados, aportamos em diferentes localidades e atendemos a uma demanda de 300 pessoas por dia, nos serviços médicos e socioassistenciais”, explica Carline Araújo, secretária de Assistência Social de Portel.

Pequenas embarcações estão sempre chegando ao trapiche da cidade. (Foto: Raquel Lasalvia)

Carline conta que uma equipe multidisciplinar, formada por psicóloga, assistente social, pedagoga e outros profissionais, realiza as visitas mensais. “É nesse trabalho que a gente consegue chegar na comunidade ribeirinha”, diz.

A área central de comércio em Portel. (Foto: Raquel Lasalvia)

6 de fevereiro de 2014 — Um dia de volta até Belém

Sem solavancos. Apenas uma linda paisagem se mostra no momento de dizer “até logo” à tripulação. O barco não navega sozinho, e solidariedade faz toda a diferença quando se está na imensidão dos rios amazônicos.

Parte da tripulação: entre bancários, marinheiros, cozinheiros, comandante. Todos marujos, afinal.

(Foto: Raquel Lasalvia)

Sobre o peixe pescado para a refeição diária.

(Foto: Raquel Lasalvia)

Um último por do sol.

Foto: Raquel Lasalvia
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