MUDANÇAS
Eu preciso mudar de endereço. Quero um apartamento maior, paredes mais bonitas, quartos espaçosos, uma varanda com vista limpa do céu. Minha solidão deseja mais espaço.
Um novo corte de cabelo me cairia bem. Realçar os pêlos grisalhos da barba, ou quem sabe disfarçar as olheiras e apagar a tatuagem que fiz pra ti.
É melhor rever os meus hábitos. Chega dos mesmos filmes, das mesmas músicas, chega de tudo que alimenta a ilusão de ver os teus braços abertos à minha espera.
Vou passear por caminhos novos. Praias, o verde dos teus olhos banhando meus pés com a água do mar, o teu cheiro carregado pelo vento até minhas narinas, não são mais para mim.
Vou mudar o número do meu telefone. Também trocarei meu email. Descartarei o hábito besta de atualizar a caixa de entrada a cada cinco minutos esperando uma resposta que nunca virá.
Jogarei fora o coração. Nada de palpitações infantis a cada cabeleira ruiva no ponto do ônibus de mãos dadas com outro alguém. Não desejo mais borboletas no estômago ou ciúmes na cabeça.
Farei descansar o meu corpo. Chega desse cansaço, desse mormaço insistente, dessa sensação de que algo suga minhas forças. Um corpo novo me fará sorrir novamente.
Serei ateu. Não haverá espaço para ilusões na minha nova igreja. Mas neste novo templo, ainda que o meu estado seja laico, haverá algum sacerdote rebelde que rezará por ti.
