Mais um tijolo no muro

Não fui um aluno fácil.

Melhor dizendo, a escola sempre me incomodou.

Nunca fui de desrespeitar professores, pelo contrário. A minha luta para terminar os ensinos fundamental e médio só sucedeu devido à minha precoce capacidade de me relacionar com as pessoas. Leia-se ganhava os professores, coordenadores e afins pela personalidade. Gostavam do Ray ser humano, nem tanto assim do aluno — aquele que era apenas mais um número, “another brick in the wall”.

Mas essas coisas estão separadas? Nunca. Qual seria a função ideal de uma escola senão ensinar você a ser um ser social, que tem de conviver com as pessoas, saber dos padrões, instituições, desafios ao seu redor? Em resumo, uma escola ideal é um reflexo da vida fora de seus muros.

E sabemos, os que já saíram (ainda bem!) da escola, o quão limitadores são os muros do ensino de hoje, que não mudou muito em relação aos dos anos 90. Nem vou falar das universidades, que também são, em sua maioria, castelos isolados de um saber antigo e pouco útil para a vida prática.

Em minha época de maior dificuldade com a escola, dos 15 aos 17, eu era salvo pelas aulas de literatura, história e português, que me apeteciam. Produção de texto e filosofia, quando adentraram o currículo, conseguiram segurar a minha onda até o fim. Dali eu sairia para fazer Ciências Sociais, que cursei por um ano.

Acabei não finalizando, migrei para o teatro, que também me ensinou a ser gente. Formei grupo, trabalhei, e, para conseguir um dinheiro digno, me dedico a produção de conteúdo para internet desde 2012, com sucesso. Estive em ótimos empregos, com pessoas incríveis, em empresas respeitadas e também como autônomo, ganhando bem.

Esse foi o meu caminho — há quem goste da física, da matemática, da química e vai seguir feliz por aí.

É triste ver um governo federal querer cegar, ensurdecer e emudecer aos seus alunos de propósito. Quem não tem contato com o mundo, quem não explora outras realidades (através da literatura) ou não vai fundo na sua própria (com a filosofia e a sociologia) tem grandes chances de se tornar um adulto, um profissional e, em última instância, um ser humano medíocre.

Não quer dizer que só tem saber quem lê os clássicos, quem é superletrado, não. Há saberes e saberes — e acredito muito mais nos mundanos. A filosofia e a sociologia estão no cotidiano, isso é fato.

E no entanto, retirar desses alunos o privilégio que é poder abrir o seu mundo desde cedo é no mínimo maldoso. Sabemos, maquiavélico, na atual conjuntura.

Que nossas crianças e adolescentes não sejam forçados a parar de pensar.

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