A Cinza do Purgatório (1942)

AS VOZES PROFÉTICAS do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação; interpretação que equivale a um julgamento do mundo e de nós mesmos, a um exame de consciência. É só a luz interior que pode iluminar o caminho pelas trevas, para conferir um sentido moral ao purgatório dos nossos dias, para acender, na cinza do que foi, a vacilante luz duma nova esperança. Era o meu caminho também: ainda sinto o travo amargo da cinza do purgatório; já devo agradecer a aurora duma vida nova. Quindi uscimmo a riveder le stelle.
Devo agradecer ao sr. Paulo Bittencourt a generosidade com que me abriu a porta para atividades literárias no Brasil, concedendo-me a mais ampla liberdade e independência.
Devo agradecer aos queridos amigos Álvaro Lins e Augusto Frederico Schmidt a regeneração da perdida fé nos homens, o sentimento duma nova vida e duma nova pátria. Devo agradecer: à magnânima ajuda de Aurélio Buarque de Holanda, sem cujo trabalho infatigável e generoso este livro não teria nunca visto a luz; ao impulso irresistível de José Lins do Rego; à compreensão de Carlos Drummond de Andrade, José de Queiroz Lima e San Tiago Dantas; e a cada palavra de Manuel Bandeira.
Devo agradecer compreensões, simpatias e apoios, que me comoveram e encorajaram, aos srs. Aldemar Bahia, Astrojildo Pereira, Brito Broca, Edmundo da Luz Pinto, Eugênio Gomes, Francisco de Assis Barbosa, Francisco Campos, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José César Borges, Murilo Mendes, Octaviano Tarquínio de Souza, Osório Borba, Sérgio Buarque de Holanda, Vinicius de Moraes; e aos meus jovens amigos estudantes, portadores de esperanças brasileiras que constituem hoje a nossa esperança comum.
Os meus amigos brasileiros. Devo-lhes muito, devo-lhes também que o esforço deste livro não se tenha perdido: fui eu que escrevi, mas foram eles que operaram. Hoje lhes restituo, com gratidão comovida, o que já lhes pertenceu.
Otto Maria Carpeaux — Rio de Janeiro, julho de 1942
Os ensaios reunidos neste volume foram publicados, durante os anos de 1941 e 1942, no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, exceto “Literatura Belga”, publicado na Revista do Brasil (dezembro de 1941). Todos foram aumentados e revistos, com a ajuda de Aurélio Buarque de Holanda.
PRIMEIRA PARTE | PROFECIAS
Jacob Burckhardt: Profeta da Nossa Época (http://migre.me/uIB75)
Presença de Goethe (http://migre.me/uIB5o)
A Lição de uma Santa (http://migre.me/uIB4p)
Vico Vivo (http://migre.me/uIB7X)
As Verdades de Lichtenberg (http://migre.me/uIB3o)
Defesa dos Profetas (http://migre.me/uKWhw)

Texto Fonte: CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios Reunidos 1942-1978, Volume I, De A Cinza do Purgatório até Livros na Mesa. Rio de Janeiro, UniverCidade Editora/Topbooks, 1999. (p. 77–115). Editado por: Pedro G. Segato