As Gerações e Suas Literaturas (Inédito em Livro)

Por pouco que se o seja, sempre se é um contemporâneo. Ser de uma juventude, de uma nova geração, contribui apreciavelmente para acalmar as incertezas deste tempo de puerilidade. O destino de todos nós, na verdade, é prefixado pela data do nosso nascimento, e dessa predestinação só se logra escapar pela única outra que é certa: a morte. Vivos, permanecemos prisioneiros da dialética histórica, que sempre opõe os filhos aos pais. Por que se não ver aí uma lei geral da história? Essa lei deverá manifestar, sobretudo, nos movimentos da literatura, a mais consciente expressão da sociedade, cujas regenerações periódicas se processam pelo murchar dos velhos e pela ascensão das novas gerações. Todo esse barulho de cafés e de pequenas revistas, todas essas revoltas dos jovens, constituem a verdadeira história da literatura. Aqui há a vida: o demais é “literatura”.

Mas a “História da Literatura” só se importa com a “literatura” e ignora os “movimentos dos jovens”; a crítica literária, ao contrário, vive deles. Quando um crítico escreve uma história da literatura vê sempre juventudes. Albert Thibaudet, o grande crítico, baseou a sua História da Literatura Francesa de 1789 aos Nossos Dias sobre a sucessão das cinco gerações que a constituíram. Era só uma experiência, mas já precedida de ampla discressão, cujas peripécias nos guiarão, através da literatura e da história, até as portas do mistério. Antes de tudo trata-se de salvar a história, de lhe restituir o seu sentido.

O positivismo na história deixou um deserto. Uma confusão de materialismo; alma se evadiu desse cadáver do passado. Restam as biografias justapostas e as bibliografias intermináveis e sempre inexatas. Mas a história da literatura não é a história dos livros e sim das idéias, dos homens e das obras que os seguem; ela é: História. Tentou-se restituir-lhe o seu sentido pelo fio de Ariana de leis históricas. Mas uma reação antipositivista não imitará as leis da física, cujas fórmulas exprimem o que se repete sempre. São necessárias leis que exprimam as singularidades do espírito e dos seus movimentos, “o único” e irreversibilidades; são precisas leis específicas do espírito. A sombra de Hegel volta.

Com efeito, os métodos modernos da história literária estão embebidos do espírito hegeliano. O “teorema das gerações”, com a sua dialética, com o seu trinômio de avós, pais e filhos, é duplamente hegeliano.

No entanto o teorema é de origem positivista, fato este que tem importância. Antoine-Augustin Cournot era o inimigo mortal do “acaso” na história; perseguia-o até nos termos artificiais da cronologia que mede a vida segundo as badaladas do relógio. Na história não há séculos, nem decênios, nem lustros: só há a vida. O “século”, divisão artificial do tempo, essa unidade de cem anos em nada se relaciona com a realidade histórica; é um “acaso”, artificialmente criado pelos historiadores. Cournot propõe substituí-lo pela realidade muito viva, por ser biológica, das gerações.

Ao mesmo tempo, por volta de 1870, o positivista alemão Gustav Rümelin aí aplica a estatística; ele determina a duração média de uma geração, 28 a 38 anos. Na Ciência Histórica de Ottokar Lorenz o “século” desapareceu, cada século está substituído por três gerações. Para dizer a verdade essa geração de trinta anos, esse século de três gerações, tornaram-se vulgares. Mas a aplicação à história literária é outra coisa.

A noção “geração” entra na crítica literária através do romantismo. Após Sainte-Beuve a expressão “geração romântica” tornou-se quase popular; no sentido também que a crítica jamais pensou em sistematizar essa noção em um teorema, até Albert Thibaudet. Faltava o espírito alemão de sistematização e o teorema das gerações nasce onde o romantismo e o espírito alemão se encontram.

O romantismo é o problema crucial da história literária, e o romantismo alemão sobretudo. O romantismo alemão é revolucionário, panteísta, irônico; é conservador, católico e místico ao mesmo tempo; escapa à definição. A figura soberana do tempo é Goethe, chefe do pré-romantismo de 1770; depois classicista e anti-romântica, mas sempre reclamada pelo movimento. Goethe também é indefinível: provêm do puro rococó; sobrevive ao romantismo, para preparar o realismo, cuja ascensão, por 1830, coincide com a sua morte. Goethe é o contemporâneo de Alfieri e Chénier; é do século XVIII, que com ele morre. Portanto, o século XIX da literatura alemã começa por 1830, e o romantismo seria tão só o fim atrasado do século precedente, acabamento do pré-romantismo rousseauniano, revolucionário, sentimental, não crente. Muito bem, mas o romantismo também descobriu a catedral e o folclore poético, reviveu o passado; criou o “sentido histórico”, que é a essência do pensamento do século XIX. Consequentemente o século XIX da literatura alemã começa por 1770, e o romantismo seria uma parte, a própria parte essencial desse século. Problema irresolúvel, complicado pelos artifícios cronológicos “século XVIII”, “século XIX”. Wilhelm Dilthey e Rudolf Haym cortam o nó górdio: não há um romantismo único, há duas gerações românticas, entre 1770 e 1830, de trinta anos cada uma. A primeira geração, os irmãos Schlegel, os Tieck, revolucionários e irônicos; a segunda, os Arnim, os Brentano, conservadores, católicos. Novalis, o místico, teria sido o chefe da segunda geração se a morte não o houvesse surpreendido. O problema está resolvido: sob a condição de inverter, por motivos puramente exteriores, as denominações políticas, a solução se aplica às duas gerações do romantismo inglês, aos Wordsworth e Coleridge, e aos Byron e Shelley.

A geração, nessa concepção, não é um fenômeno biológico, uma classe de recém nascidos. Esta observação, muito necessária, gera novos problemas. O tipo romântico seria, pois, o tipo de uma nova juventude; mas esse tipo se manifesta em qualidades que em absoluto não correspondem à idéia que se faz geralmente de uma juventude. O tipo romântico parece patológico; os românticos estão predispostos a doenças corporais e mentais, muitos deles morrem muito moços, ou se suicidam; é-se tentado a dizer decadência. Seria a juventude? Mas a psicologia acode em socorro. Karl Jaspers estabelece um “tipo romântico”, caracterizado pelo afastamento da realidade, acompanhado do mais vivo desejo dessa realidade; o romântico confunde sempre a realidade e o sonho. É um tipo eterno entre os homens; porque não haverá, de tempos a tempos, juventudes românticas? E Edmund Spranger, o grande pedagogo, acrescenta: até agora definiu-se mal a juventude; juventude não é sinônimo de alegria e de saúde; juventude é transição dolorosa entre duas idades, quem diz juventude diz nostalgia, diz inquietação, diz hiperestesia estética e religiosa. Os românticos, diz Spranger: são jovens e permanecem, durante toda a vida, sendo crianças, ou morrem prematuramente; a morte precoce não é o estigma de uma decadência, mas a conseqüência funesta dessa hiperestesia de que são capazes todos os jovens, e todos os poetas. Na juventude e no sonho somos todos nós poetas. Então, sabemos o que é o romantismo, e compreendemos porque as gerações românticas reaparecem sempre, de tempos em tempos. Mas se a juventude e o romantismo são quase que a mesma coisa, porque não são românticas todas as gerações? Ou elas o são? Diabo, a lógica é coisa difícil.

Evidentemente é preciso limitar o alcance da noção “geradora”; para explicar as gerações não-românticas torna-se necessário introduzir uma contra-força que modifique ou até sufoque o romantismo inato em toda juventude. Julius Petersen incumbe-se disso: ele introduz a contra-força dialética “Espírito do Tempo”. Os jovens sempre estão predestinados ao romantismo, mesmo sob disfarce classicista ou naturalista. O espírito dominante do tempo reforça essa disposição, ou a modifica ou a suprime. No primeiro caso uma geração de românticos nasce, um romantismo vence. No segundo caso, ao romantismo autêntico sobrevive um romantismo epígono, a sombra parnasiana. No terceiro caso, em que o espírito do tempo suprime as disposições românticas, só há precursores solitários: Nietzsche, precursor do neo-romantismo num tempo naturalista.

Mas esse “espírito dominante do tempo” é uma força misteriosa. Que será? Simplesmente um leitmotiv da filosofia hegeliana. O espírito do tempo é a incarnação histórica do espírito absoluto. Eis-nos em pleno hegelismo; mas é esse espiritualismo que o espírito do nosso tempo não mais suporta. O caminho que conduziu de Hegel a Marx é exemplar: forçado a se servir das idéias hegelianas, subistitue-se o espírito pela sociedade; procuram-se bases sociológicas. É a tarefa de Karl Mannheim, no seu ensaio O Problema das Gerações (Kölner Vierteljahrshefte für Soziologie, 1928).

Mannheim distingue três formas sociais sob as quais uma nova geração se manifesta: situação, conexão, unidades. A situação de uma geração é a comunidade de tempo e de vida de todos os jovens num espaço social limitado, num país, numa classe; isso cria disposições comuns, porém nada mais. A conexão de uma geração é o destino comum a todos os jovens da mesma idade; eles se encontram diante dos mesmos problemas. No meio dessa “comunidade de conexão” há diferentes “situações” nacionais ou sociais que se manifestam por diferentes reações aos mesmos problemas. Assim, no seio de uma só geração, várias unidades se formam, várias sub-gerações cujas diferenças duplicam a luta dialética com a luta social. Duas juventudes nasceram do caso Dreyfus, e, no dizer de Waldeck-Rousseau, “elas crescem sem se conhecer, elas se expõem a não mais se compreender”.

Mas a psicologia e a sociologia não se compreendem melhor, uma à outra. Uma nova juventude tem nova palavra a dizer; exprimindo-se, parte as cadeias da situação social. Por outro lado, a situação social é independente da mudança biológica das pessoas; ela deverá quebrar o transporte de toda a juventude. A “geração” fica determinada pela psico-biologia; o “espírito do tempo” fica determinado pela sociologia hegeliana. A matemática elementar já proíbe somar maçãs com peras. As contradições intrínsecas do “teorema das gerações” permanecem irreconciliáveis.

Admiremos a tenacidade dos pensadores que não se deixam desanimar. A discussão continua. Como conciliar irreconciliáveis? Dois caminhos se abrem: ou eliminar todos os restos biológicos da “geração”, ou eliminar todos os restos cronológicos do “tempo”. Tentou-se tanto um como o outro caminho.

Parece que Edward Wechssler, “desbiologizando” a “geração”, fracassou por completo. Para afastar a biologia ele não mais sublinha as datas de nascimento, porém as datas dos começos. Mas a tentativa de Wechssler de sobre isso construir uma história da literatura francesa se esgotou em edificações forçadas e foi unanimemente rejeitada pelos romancistas. De toda essa obra respeitável quase nada resta, excetuadas as idéias que Thibaudet trouxe de duas viagens alemãs, para elaborar o seu primeiro esboço, por demais rápido (N. R. F., março de 1921).

Por outro lado, o Problema das Gerações na História das Artes Européias (1926) de Wilhelm Pinder, é uma tentativa verdadeiramente importante para resolver o problema por uma nova concepção do tempo.

Pinder é historiador das belas-artes. Ele pensa em formas plásticas. Como eliminar os restos cronológicos da noção “tempo”? Pensamos o tempo ainda cronologicamente, enquanto o pensamos linear. Mas o tempo não é linear, é um ser plástico, de três dimensões. Ao mesmo tempo há sempre três gerações, os avós, os pais e os filhos; três espírito, três estilos. Todos os três juntos definem o momento: o tempo é uma polifonia de três vozes; seja, um cubo de três dimensões. Este “cubo do tempo” deve ser um cubo regular, porque através de todas as gerações, é sempre um cubo. Mas essa regularidade do “cubo do tempo” não se conservaria se as gerações se sucedessem irregularmente. A regularidade matemática se conserva porque as gerações são as jogadas de dados da Natureza, que jamais se engana: as gerações se sucedem mui regularmente. Um intervalo de 13 a 22 anos cria um novo estilo, e as datas de nascimento confirmam a tese. O classicismo italiano é preparado pela primavera de 1430: Verrocchio (nascido em 1435), Bellini (1428). A maturidade é atingida pelos Bramante (1444), Botticelli (1446), Leonardo (1452). Em seguida os clássicos: Michelangelo (1475) e Giorgione (1478). Os germens do barroco aparecem em Rafael (1483) e Correggio (1494), cujo nascimento tardio corresponde ao seu afastamento regionalista. Mas Palladio e Tintoretto, os “classicistas do barroco”, nasceram no mesmo ano de 1518. Haverá sempre algo a precisar bem; mas deve-se notar que esses intervalos se repetem, por exemplo: Chassérian (1819), Courbet (1819); Manet (1832), Maurice Denis (1855). Os intervalos são assas curtos para provar a simultaneidade de três estilos, as várias dimensões do tempo; e, com isso, o perigoso “espírito do tempo” é eliminado, substituído pelo espírito da juventude vitoriosa. Resta provar que este espírito domina verdadeiramente o tempo e todas as suas expressões. Então Pinder ousa comparações arriscadas: Cervantes e El Greco nasceram todos os dois em 1547; Blake e Goya em 1757 e 1746; Holdërlin e Beethoven em 1770. A sincronia compreende tudo: Vermeer van Delft e Spinoza nasceram em 1632, Watteau e Berkeley em 1684, Monet e Wundt em 1832. Os exemplo se multiplicam. Toda a história do espírito é determinada por esses sincronismos que se sucedem em ritmos dialéticos, por essa predestinação da data do nascimento: força misteriosa que rege a vida e a obra do artista, como as conjunturas planetárias dos astrólogos.

Essa irrupção do mistério no mundo dos fatos não é querida, com toda a certeza, pelo positivismo: pela lei biológica da duração limitada da vida, o positivismo queria compreender vias e destinos humanos como quantidades matemáticas, quantificar a vida. O historismo hegeliano se apodera da concepção: a lei das gerações deve substituir o tempo quantitativo por um tempo de vida. Mas a equação não se resolve sem deixar resto: este resto é o “único” em toda obra e em toda vida. Eis-nos às portas do mistério.

Eu me explico. A geração é a nova unidade do tempo, a qual se divide nas vidas individuais. Mas as vidas humanas não são quantidades aditivas. A morte prematura de um Chénier, de um Novalis engana sobre as suas posições. Por outro lado um Goethe pertence a várias gerações e a vários estilos, e o seu último estilo, o da sua velhice, é de nenhuma geração. Com efeito, há um “estilo de velhice”, ainda pouco estudado; o seu estudo é a mais séria objeção contra o teorema das gerações.

Há um estilo de velhice. Nas obras dos artistas muito velhos a luz exterior do mundo se reflete de modo singular. A atmosfera se torna sombria, a expressão obscura, às vezes pouco compreensível. Nada da suposta loquacidade senil; pelo contrário, uma inclinação pela concisão exagerada, muitas vezes pelas alusões encobertas, pelo orgulho gongórico. O público não mais compreende, a crítica pretende haver enfraquecimento senil. Nada disso. Esses julgamentos provam apenas que o velho mestre não mais leva em conta os efeitos da sua arte: escreve para leitores imaginários, para si próprio, para ninguém. Os sonetos obscuros do velho Michelangelo são disso exemplo sublime. O velho artista omite tudo quanto era outrora essencial e que agora se lhe afigura aparência; não mais teme a rude deformação da realidade, como Rembrandt nas máscaras dos seus últimos auto-retratos. A essência só ela importa. Os contornos exteriores se fundem numa luz misteriosa, mais trevas que luz. O instrumento é desprezado; o velho Tintoretto substitui o pincel pela espátula; as últimas fugas de Bach sacrificam a harmonia; os últimos versos livres de Holdërlin infringem tanto a métrica quanto a gramática. O traçado se torna brusco nos últimos quadros de Ticiano, de Goya. Às vezes os contornos do mundo real são substituídos pelo formalismo abstrato do velho Bach, do velho Goethe. O velho mestre compõe o seu mundo à parte, onde se sente a presença do infinito, como nos últimos quartetos de Beethoven, onde não há matéria e tudo é símbolo. “Todo o perecível é tão só um símbolo”: eis a última sabedoria de Goethe.

Então o mistério bate às nossas portas. Essa mudança de estilo não está de todo ligada à velhice. Hodërlin irá aos 73 anos; mas as últimas odes datam dos seus trinta e cinco anos, precedem a morte na loucura. A Tempestade de Shakespeare, as Elegias de Duíno de Rilke têm todos os traços do estilo da velhice; essas obras de densidade metafísica foram escritas por homens de cinqüenta anos, mas pouco antes da morte. Há o estilo de velhice nos Últimos Jambos de Chénier, com trinta e dois anos e que aguarda a guilhotina; há o mesmo estremecer nas últimas odes de Keats, que a morte assaltava nas últimas linhas de Radiguet, morto subitamente aos vinte anos. O “estilo de velhice” não é determinado pela idade, Corneille diria: “il n’attend pas le nombre des années”. Goethe, aos cinqüenta anos, ainda é moço; Rilke aos cinqüenta anos está arqui-velho. Não são os anos que importam, é o momento providencial em uma vida, regida não pelos números mas pelo destino. A obscuridade, nas “últimas obras”, é a sombra do fim iminente. Não é o estilo da velhice, mas o estilo da iminência da morte.

O teorema das gerações compreende o estilo de uma juventude. Mas o estilo dos “velhos”, muito velhos ou muito moços, escapa a essa lei da vida; só se submete a uma lei superior, acima da vida. O “estilo de velhice” obedece apenas a esta lei, à qual a vida também está submetida, à lei da morte.

A lei das gerações dialéticas compreende o “comum”, o que é comum a uma geração; sempre nos serviremos dela para “situar” os homens e as obras. Mas há uma saída dessa prisão da “situação coletiva”. Acima do ritmo coletivo das vidas há o ritmo pessoal da vida: nele o “único” está compreendido, o único em cada homem e na obra que o segue. A morte também nos é comum, porém somente na aparência. Na verdade que é que há de mais único, para um homem, senão a sua morte? A vida não a vivemos em comum. O caminho em baixo temos de descê-lo sós. Rilke disse-o por uma oração:

“Senhor, dá a cada um a sua própria morte.”

Texto Fonte: CARPEAUX, Otto Maria. As Gerações e Suas Literaturas In Correio da Manhã, Nº 14.400, Ano XLI, Rio de Janeiro, 12 de Outubro de 1941. (Suplemento, págs. 1–2). Editado por: Pedro G. Segato.