Bom Amigo Hesse (Inédito em Livro)

Dois romances de Hermann Hesse, Peter Camenzind e Le Loup des Steppes, fizeram a volta do mundo. Essas duas obras contêm todo Hermann Hesse: o grande poeta, o homem exemplar e o nosso bom amigo.

O esforço do poeta: comunicar-se. Mas o que é muito natural para o homem de vida simples, é, para o poeta, o mais doloroso martírio. O seu mundo interior não é o mundo dos outros. Esses outros não conhecem as montanhas e os abismos do mundo dos poetas, a não ser nos dias já esquecidos da infância e na hora, ainda a chegar, da morte. Por isso, a língua e as palavras do poeta nada têm de comum com a língua e as palavras da vida quotidiana, senão as letras. O sentido é todo outro. E o poeta é só. Todo esforço do poeta é para romper esta muralha que o isola, e a história das incompreensões, das decepções, das loucuras, das vitórias, que ele encontra nesse caminho, é a própria vida do poeta, do poeta Hermann Hesse o homem isolado na escuridão do Universo. Só, Noite: suas palavras preferidas. Pensa-se em Antônio Nobre, este outro grande “narcisista” triste. Mas é apenas uma comparação. Existem, na vida e na poesia de Hesse, muitas crises e transformações. Encontro-lhe os traços característicos dos três maiores poetas do Brasil: o romantismo triste de Manuel Bandeira; a densidade amarga e casta de Carlos Drummond de Andrade; a plenitude abismal e enfim vitoriosa de Augusto Frederico Schmidt. Isso, essas comparações sempre inúteis, pretendem somente dizer: Hesse interpretou todas as nossas angústias. Ele é profundamente humano, realmente um homem extraordinário. No caminho doloroso que o conduzia para o reino eterno, ele encontrou o Pecado e a Virtude; ele venceu a si próprio. Depois, “nil humani a se alienum putat”, nada de humano lhe é estranho. A cada um de nós, ele disse alguma coisa; é nosso bom amigo. E, para mim, uma cara lembrança, consoladora como uma estrela nesta escuridão.

Quando penso em Hermann Hesse, vejo primeiramente um jovem que, estendido na relva, passa suas horas a sonhar, a contemplar as nuvens, “ces douces mélodies de chansons oubliées; ces nuages qui ressemblent à des cavalliers sifflants ou à des ermites tristes; ces fles des blenheureux, ces paraboles de toutes nos nostalgies”. São os devaneios de uma criança grande, para quem o céu terá sempre janelas multicores, mas não esquecerá nunca sua mãe, morta demasiado cedo. Criança atormentada, homem solitário.

Hermann Hesse nunca encontrou identificação com os homens. Amava os animais como seu venerado mestre São Francisco, e a música. Nas noites solitárias, gosta de tocar flauta, como um adolescente amoroso. Mas a amante está longínqua como as nuvens brancas, e é preciso caminhar entre a cerração dessas trevas que nos separam inexoravelmente dos outros, pois nenhum homem conhece o outro, e cada um vive só.

É a noite das noites que o obseca, a noite de caos, do nada. Hesse será o poeta do niilismo. Lembro-me dos seus panfletos febricitantes, seus gestos nervosos, seus gritos de desespero e de loucura. Só entre os outros, na casa de alienados. Demônios enchem o quarto. Um lobo terrível, o lobo das estepes, ataca-o e grita-lhe de chofre seu “só” bestial: “Dites, êtes-vous tous si horriblement seuls? Ou est-ce que moi seul dolt être si seul et furleux et triste? Pourquoi ne terminez-vous pas cette vie de chien? Je ne comprends plus rien. Aux putains à a’alccol, je voulais me rendre. Mais trop de cognac n’est pas sain, et il serait plus noble de se pendre”.

O lobo das estepes é o mais feroz dos animais. É preciso um São Francisco para convertê-lo. Mas não se fala em conversão. Veja o crânio cesariano do velho Hesse, penitente e vencedor, que espera, em silêncio, a morte. Noite sobre o mundo; mas enfim ele está em sua casa. Só. Mas não nos esqueceu. Vós — diz ele — “vous, mes frères, qui traversez toutes les mers des douleurs, marins sans étolle; notre route est la même; je mourus dans la même agonie, pour, avec vous, resurgir”. É um bom amigo.

Hermann Hesse nasceu em 1877, em Calw, pequena cidade de Württemberg, lá onde a velha Alemanha tem torres góticas e casas de pinho, e não se pode ser romântico. Mas, no interior dessas casas pitorescas, não existe mais a atmosfera íntima de antigamente. Hesse sempre silenciou — mas o amigo perdoará, aqui e acolá, algumas indiscrições inéditas — os tormentos da sua alma de criança em face do despotismo ortodoxo pietista de seu pai e de seus antepassados. Toda a ternura da criança concentra-se na mãe que vive apenas num desmaiado retrato a pastel; e toda a vida do homem não será senão uma luta desesperada contra esta prisão fatal. A tradição dos antepassados destina-o aos estudos teológicos. Ele ingressa no famoso seminário protestante de Maulbronn, onde, depois de Hölderlin e Hegel, todos os grandes espíritos da Alemanha estudaram — e se revoltaram. É também uma tradição, esta revolta; a de 1892, da qual Hesse participou, é famosa principalmente porque não produziu mais filósofos nem poetas, mas alguns dos grandes engenheiros e industriais duma nova Alemanha, não mais romântica. O jovem Hesse conserva-se só entre os seus companheiros de classe. Os outros lutam pelo futuro; ele, pelo passado. Sua alma romântica odeia tudo o que é incolor, esbranquiçado; a oratória calvinista, como os muros de usina; contra a época mercantil-utilitária, mecanizada, ele continua fiel ao sentimento, ao romantismo, às cores pálidas de um certo retrato. Ele será desmazelado, desajeitado, mal disposto, impróprio para a sua época. Será um poeta.

É a tristeza dos desajeitados, dos negligentes que a vida implacavelmente trai, a tristeza desse jovem empregado de livraria, quando, nos corredores do teatro municipal da Basileia, segue com os olhos lânguidos as belas raparigas. Melancólico tipo de adolescente, e que o faz se dirigir a querida morta: “Un jour, tu me trouveras. Tu ne m’oubliera pas; finies seront toutes les pelnes, et brisées les chaines”. Todos os seus pensamentos giram em volta da morte. Ele até inventa o poeta Hermann Lauscher, morto muito jovem, do qual edita as poesias póstumas. É a terna flauta de Apolo. Algumas vezes, no entanto, em alguns hinos à morte, os címbalos dionisíacos ressoam. A vida e a obra do poeta passarão entre o lirismo intenso do Camenzind e a voluptuosidade niilista do Loup des Steppes. Mas existem também alguns acordes seráficos; aparece, como sobre o fundo de ouro dos quadros medievais, o padroeiro dos vagabundos e dos animais, São Francisco de Assis. O autógrafo original, inédito de Peter Camenzind foi dedicado ao “Trovador dos Pobres e de Deus”.

Peter Camenzind, o jovem camponês suíço, dotado, porém preguiçoso, ama os animais e toca flauta. Sem dúvida, ele sente-se deslocado na estreiteza laboriosa da aldeia Nimikon; ele ousa mesmo sonhar! Um dia, ele desaparecerá, para seguir o rumo dos ventos e das nuvens em direção ao sul, para se tornar um vagabundo, ou, talvez, um grande homem. É a doença do romantismo. A vida o despedaça; mas o ar saudável da Úmbria, onde a polidez dos mendigos lembra ainda a doçura de São Francisco, cura o doente. Peter volta. Tornou-se um homem gordo e sonhador. Novamente ele passa suas horas estendido sobre a relva, a olhar as nuvens, essas doces melodias de canções esquecidas, esses cavaleiros sibilantes e eremitas tristes, essas ilhas felizes, parábolas de todas as nossas nostalgias. Algumas vezes, aos domingos, ele estará entre os camponeses, e os surpreenderá com as descrições fanfarronas de suas viagens. Possivelmente encontrará em si algumas virtudes burguesas, e será um bom cidadão de Nimikon e, enfim, bom suíço, um hospedeiro agradável. E, para Nimikon, é um grande homem.

É a ironia de um convalescente para com a sua doença. O mundo não nos aguardou: quem se achar dispensável, o venceu. Na verdade, não é nada fácil esta vida cruel.

Peter Camenzind obteve um sucesso surpreendente, mundial. Traduzido em dezoito línguas. Muitas honrarias. Muito dinheiro. Hermann Hesse devia ser um burguês. Desposou uma Bernoulli, da famosa família patrícia da Basileia; retira-se para uma casa suntuosa à beira do lago de Constança. A mulher, dez anos mais velha, muito aristocrata, pertence à sociedade, à etiqueta. Convidados. Banquetes. Insuportável. Um dia, Hesse explode. Grande cena, primeira evasão. Hesse começa uma vida selvagem pelas florestas e prados; interpreta o Camenzind. Grandes excursões noturnas na cerração dessas trevas que nos separam inexoravelmente dos outros; pois nenhum homem conhece o outro, e cada um sente-se só.

Só. O casamento parte-se. Entram em acordo de viver em Berna, onde a vida artística é mais intensa. Apaixonadamente, até o delírio, Hesse mergulha na mais romântica das artes, na música. Os amigos, a vanguarda de então, os Honegger, os Satie, os Stravinsky, descobrem-lhe um gênio musical. Mas esse gênio sente-se um aleijado pela vida; assunto do seu romance emocional Gertrude, o amor infeliz de um jovem músico aleijado por uma jovem que é todo um sonho. As tristezas de Hermann Lauscher voltam. Cada vez mais, as pancadas do címbalo dionisíaco ressoam, ocultando a terna flauta; o ritmo precipita-se, e, de repente, um golpe terrível explode: agosto de 14, a catástrofe.

Hesse, estreitamente ligado aos seus amigos franceses, a Rolland, a Gide, não volta para a Alemanha. Fica na Suíça, e organiza uma grande obra caritativa para os refugiados de guerra. Assim as proclamações humanitárias, e revolta-se asperamente contra as palavras de ordem, orgulhosas e bárbaras. Escreve a novela Wagner, na qual a figura histórica de Wagner, famoso algoz oficial em Württemberg no tempo da juventude de Hesse, confunde-se com a do grande músico alemão, para estabelecer a grave questão: a Alemanha romântica e a Alemanha militarizada, sempre secretamente coexistiram; ou uma seria a resultante da outra? O problema mais pessoal de Hesse, as relações entre a arte e a vida, o pecado e a virtude, surgem. E enquanto, na Alemanha, o injuriam, cospem-lhe o estigma de traidor, ninguém sabe que o poeta está gravemente doente; para dizer a verdade, ele enlouqueceu.

Divórcio. Hesse se encontra em Lucerna, na casa de alienados do doutor Jean Batiste Lang. É um médico curioso: psicanalista convicto e católico fervoroso, ao mesmo tempo. O médico ensina ao doente que o maior vício moral é a absolvição por si próprio; ela torna inútil todos os esforços de evasão. Hesse se confessa. O médico o conduz à sua juventude, à sua infância, e a atenção se fixa, enfim, sobre um pequeno e descolorado retrato em pastel. Todas as evasões dos Hermann Lauscher, dos Peter Camenzind, não eram senão tentativas para encontrar na grande Mãe Natureza, a mãe perdida. É a ortodoxa doutrina freudiana: a fixação na mãe produz o romantismo, a revolta, a tortura. Mas é preciso sair desse abismo para a luz do dia. Lang é bom médico, não se contenta com o diagnóstico. Induz o convalescente a viver. Uma nova vida começa.

Na vida de Hermann Hesse, a catástrofe pessoal e a catástrofe universal coincidiram. 1918 estava, sobre todos os aspectos, em situação crítica. O lirismo romântico à maneira de Eichendorff, de Mörike, do qual Hesse era o último defensor, desaparecia, enfim, para continuar apenas nas ironias cruéis à maneira de Heine. O romantismo estava definitivamente afastado em Le Dernier été de Klingsor, onde o rei-feiticeiro wagneriano se encerra no seu jardim mágico, entre os animais que não são franciscanos, para agarrar a vida que o mágico, o poeta, deixaram escapar.

A nova vida é uma série de libertações: da figura da mãe real, do falso romantismo da mãe Alemanha. Então, é preciso libertar-se dos ideais mentirosos e das ruínas infectas duma mãe Europa que desejava se perder, e que se perdeu, para fazer frente à uma nova juventude. Eis a mensagem do Demian, do Siddhartha e de alguns grandes jornais, que fazem de Hesse, por alguns momentos, chefe dessa juventude. Hesse evoca a sabedoria do velho Oriente, do pacifista Lao Tse, do penitente Siddhartha. Ele trata com dureza o dionisismo niilista de Nietzsche, para adotar, enfim, o cristianismo dionisíaco de Dostoiévski. Ele aprova o caos, o desatino, o pecado; eles conduzem à ordem, à saúde, ao estado de graça. É um pessimismo viril e calmo, que nos convêm, como a consolação do sensato indiano parece escrita para nos consolar: “Paix ou guerre, mon fils, cela peu importe. Car la mort ne touche jamais à l’esprit. Si la paix descend ou si la guerre sévit, jamais la douleur du monde ne diminue”. É a doutrina da sincronia das mil vidas e das mil mortes que identificam. A morte é boa. E a vida é boa.

É o equilíbrio, enfim. Em Montagnolo, na magnífica paisagem de Tessin, Hesse encontrou seu jardim de Klingsor. Como o reino do feiticeiro, ele viveu entre os animais, entre as coleções de deuses zoolatras e de máscaras fantásticas dos primitivos. Mais música, esta sedutora! Nada além de cores puras, de ritmos puros! Começa a pintar, quadros abstratos, como Picasso e Braque, seus amigos, e que o aplaudirão em Paris. Mergulha-se nas ciências ocultas. Tornou-se, ele também, um mágico, e apenas uma lembrança longínqua, o fantástico doutor Lang que ele lembra num conto humorístico, um médico louco que diagnostica loucura aos sãos, o adepto da psicanálise, que é a doença da qual ele julga ser o terapeuta. Humorismo, enfim. Paz de Deus sobre o Tecino.

Hesse crê em Deus. Mas o cristianismo é a religião universal que contém as ordens de três reinos. E Hesse não crê no diabo. Ele não sabe que o tem em seu quarto, em seu coração. Evocou o fantasma do doutor Lang, e não se evocam impunemente fantasmas. Os deuses medonhos e as máscaras fantásticas se animam. Um pandemônio turbilhona. Todos os abismos se abrem. O címbalo dionisíaco ressoa mais depressa e mais alto do que nunca. Fuga do Tecino. Fuga da mãe, da Mãe Natureza que mostra constantemente seu aspecto noturno, Medusa da mais baixa libertinagem, da morte no regato da rua.

Esta fuga é o assunto do Loup des Steppes. Esforço de um homem envelhecido que se destrói ele próprio. Mas este esforço fracassou, e Hesse o confessa. É a mais terrível das confissões e a mais necessária. O doutor Lang não é mais o doido ridículo nem o sedutor demoníaco; é, ao menos, para a imaginação que criou esta figura hoffmanesca, um sensato mestre, no qual o traço do pai esquecido, do penitente indiano e do santo da Úmbria se confundem. Grande e inesquecível lição: ninguém pode se absolver. É preciso confessar-se.

No Loup des Steppes, mais ainda do que nos poemas que o acompanham, Hesse diz toda a verdade: “Jamais je n’étais vraiment delivré. Jamais je n’ai quitté les étroites rues bourgeoises; Et maintenant j’écoute, plein d’angoisse, les voix nocturnes e leur bruit insensé. Et les yeux du jour regardent mes pechés”. Horrível confissão do lobo: “Je trotte e je trotte, e le monde est vide, des neiges autour de moi, et je suis si affamé; mes cheveux sont gris, et je ne puis plus bien voir; ma femme est morte, ah, c’est longtemps; et je rêve e je rêve de femmes et de femmes. Et je trotte et je trotte par la nuit froide, je porte au diable ma pauvre âme”. É também uma marcha entre o nevoeiro. E o lobo hurra: “Dites, êtes-vous tous si horriblement seuls? Ou est-ce que moi seul doit être si seul e furieux et triste? Pourquoi ne terminez-vous cette vie de chien? Je ne comprends plus rien. Aux putains, à l’alcool, je voulais me rendre. Mais trop de cognac n’est pas sain, et il serait plus noble de se pendre.” É a completa decomposição. O poeta o sabe: “Lentement je vais à la rencontre de l’ennemi; etroitement l’angoisse se retrécit. Et le coeur effreyé, battant em remords. Attend, attend, attend la mort”.

A morte encontrará um convertido. A doença da alma, é o feroz animal que São Francisco, somente ele, poderia converter. Mas não se trata de uma conversão. Ele tem o ar terno da Úmbria no último conto — e último trabalho — do poeta, Narcisse et Goldmund, onde as duas almas se encontram em seu peito, para enfim dizer: adeus, para sempre, e boa noite!

A flauta de Apolo e o címbalo dionisíaco estão mortos. O silêncio é a mais profunda das sabedorias. Hesse não escreve mais nada. Numa cláusula de seu testamento, conhecido por seus amigos, ele até proibiu que se anunciasse publicamente a sua morte. Em silêncio, ele a espera. “Un jour, tu me trouveras, Tu ne m’oubliera pas; Finies seront toutes les peines, et brisées jes chaines”.

E agora, amigo Hesse, muito obrigado pelo teu consolo. A noite que a ti, criança atormentou, à noite que tu, homem, evocaste, esta noite cai sobre nós. Mas tu não a temes mais, e nos dá a coragem de não mais receá-la. As trevas que nos separam inexoravelmente, ficaram, e a cerração é ainda mais densa. Mas não estás mais só. Unido aos teus irmãos cujo caminho é o mesmo sobre o mar dos sofrimentos, tu guias um grande cortejo; e talvez, nós não sabemos porque tu o auxiliou, possivelmente, já atingistes teu fim, nosso fim a todos. Constantemente pensei, olhando as noites negras sobre este mar, quando vejo uma estrela, seguir seu caminho: muito só, e no entanto, entre as mãos de Deus. Adeus, bom amigo Hesse; e boa noite!


Texto Fonte: CARPEAUX, Otto Maria. Bom Amigo Hesse In Correio da Manhã, Nº 14.304, Ano XLI, Rio de Janeiro, 22 de Junho de 1941. (Suplemento, págs. 1–2). Editado por: Pedro G. Segato.