Um Grande da Espanha

Quando os espanhóis, dispersados pelo mundo, resolveram publicar uma obra comemorativa para o bicentenário de nascimento de Jovellanos, incumbiram o prof. Francisco Ayala de escrever o capítulo sobre Jovellanos, sociólogo. Ayala esteve entre nós outros, durante um ano, conquistando amizades, permanentes. Todo mundo aqui o conhece como autor de um livro sobre o sociólogo alemão Oppenheimer, esperando-se com impaciência seu tratado completo de sociologia; assim, estava ele credenciado para escrever sobre o autor do famoso Informe en el expediente de la Ley Agraria, obra capital da sociologia da Ilustração espanhola do século XVIII.

Lêem-se, porém, no escrito do professor Ayala, palavras que indicam algo mais do que interesse erudito e competência científica: “La ocasión del segundo centenario de su nacimieto, empujándome a estudiar su obra, ha enriquecido mi experiencia vital en una medida fabulosa, pues ha hecho entablar conocimiento verdadero con hombre de alma excelsa”.

Será que o exilado Ayala teria descoberto afinidades íntimas suas com o reformador liberal do século XVIII que passou 14 anos na prisão e no exílio? O sociólogo Francisco Ayala tampouco é desconhecido na sua qualidade de excelente ensaísta, cujo estilo revela qualidades intensamente poéticas, e quem sabe se na sua vida não se esconde outro destino — o de tornar-se, um dia, poeta de vidas alheias, quer dizer, romancista? Jovellanos, isso está certo, foi poeta.

Ayala, para apoiar suas teses sobre o sociólogo Jovellanos, cita-nos versos nos quais o velho poeta lamenta a tristeza da Espanha,

“… hoy triste, llorosa y abatida
de todos despreciada, 
sin fuerzas casi al empuñar la espada.”

Eis o ponto em que me permito discordar ligeiramente do autor. É indiscutível a sinceridade daquelas lamentações poéticas, mas o estilo das odes de Jovellanos também é significativo: trata-se de frases feitas da poesia barroca e classicista, de exercícios poéticos à maneira de Juvenal, Quevedo e Moratín. A poesia verdadeira de Jovellanos só se encontra — e Ayala não deixou de observar isso — na melancolia pré-romântica de outras poesias suas, na sua emoção em face da Natureza. Creio que Azorin foi o primeiro a chamar a atenção para o pré-romantismo de Jovellanos, poesia que já antecipa sentimentos e sentimentalismos do século XIX; encontram-se até versos quase revolucionários nos quais se lamenta asperamente o destino do trabalhador rural, lavrador sem propriedade, suando “para un ingrato y orgulloso dueño”. Doutro lado, os temas poéticos preferidos de Jovellanos, “Soledad” e “Noche”, também pertencem à tradição barroca.

Jovellanos é sempre assim: antecipando o futuro e ligado ao passado. Escreveu uma tragédia doméstica no estilo de Diderot, El Delincuente Honrado, para combater o abuso do duelo, mas acabou justificando involuntariamente, contra a própria thèse, o velho costume aristocrático; e não será significativo que aquele “drama burguês” esteja construído sobre o motivo da Honra, o motivo de Calderón?

Don Gaspar Melchor de Jovellanos y Ramirez, de nobreza asturiana, foi um legítimo Grande da Espanha; portanto, apesar de suas idéias enciclopedistas, um tradicionalista nato. Aristocrata foi o grande homem, assim como Ayala o descreve: “… la reserva elegante, la dignidad sin soberbia, el decoro que niega quejas a la desventura, la igualdad del ánimo”. Assim o retratou Goya, “sentado ante su mesa de trabajo y apoyada la cabeza sobre la mano, en una actitud de nobilísima serenidad”.

Este aristocrata podia bem escrever o Elogio de Carlos III. Mas Carlos III foi o rei da reforma, o monarca que introduziu na Espanha as idéias da Ilustração francesa. Seu servidor leal, Don Gaspar Melchor de Jovellanos, escreveu “sobre el arreglo de policía de espetáculos”, “sobre o embarque de paños extranjeros para nuestras colonias”, “sobre el libre ejercicio de las artes”, “sobre si debían o no admitir a las señoras en la Sociedad Económica de Madrid”. Fundou o Instituto Asturiano para a divulgação da cultura do povo espanhol. Escreveu, antes de mais nada, aquele célebre Informe en el Expediente de la Ley Agraria, documento capital do liberalismo do século XVIII. Mas repudiou o radicalismo, não admitindo as conclusões revolucionárias das suas próprias teses — fato pelo qual Ayala dá a mais fina e delicada explicação psicológica. Da mesma maneira, esse homem típico do século do racionalismo apreciava as obras de arte barroca e chegou a comover-se na escuridão mística das catedrais góticas da Espanha.

Havia, em Jovellanos, um equilíbrio quase perfeito, “de nobilísima serenidad”, entre a tradição aristocrático-monárquico e o liberalismo filantrópico, até democrático. Assim como a sua poesia apresenta um aspecto tradicionalista e outro aspecto pré-romântico. Aí, Ayala oferece os resultados mais importantes do seu trabalho. O pré-romantismo literário está intimamente ligado ao historicismo; nasceram juntos. O sociólogo Jovellanos é, conforme Ayala, um dos precursores, ou até um dos fundadores do historicismo moderno. Revelou a sensibilidade mais fina pelas características das épocas diferentes; reconheceu-as determinadas pelos ideais sociais predominantes nelas — logo se lembram os “tipo ideais” de Max Weber. O seu próprio “ideal social” foi o “patriotismo” liberal e reformador da Encyclopédie, mas sem radicalismo, excluindo este pela “nobilísima serenidad” do aristocrata. E desta ambigüidade íntima nasceu a nostalgia pré-romântica da sua poesia.

Mas de onde veio ao liberal espanhol do século XVIII aquele senso histórico, próprio do século XIX? Aí, Ayala admite uma filiação interessantíssima: Jovellanos teria sido, espiritualmente, descendente dos erasmianos espanhóis do século XVI. Também explica-se assim o seu jansenismo de católico ortodoxo e no entanto reformista. O erasmismo espanhol constitui, com efeito, o fundamento histórico de todo liberalismo espanhol — Luis Vives já foi chamado de patrono da República Espanhola de 1931. E o erasmismo europeu pode ser considerado como fundamento histórico do liberalismo moderno.

Jovellanos foi um grande liberal, não no sentido de um partido atual, mas no sentido de Croce: como representante de uma diretriz da História. Foi-lhe dado preparar ativamente o liberalismo espanhol do século XIX: partindo de conceitos meio medievalistas, chegou a esboçar a constituição parlamentarista. Mas pagou caro. O ministro da “Gracia y Justicia” do reino foi destituído: passou sete anos na prisão e mais sete anos no exílio, não perdendo porém nunca “el decoro que niega quejas a la desventura, la igualdad del ánimo”. Foi um legítimo Grande da Espanha.

Assim, Goya o pintou: “… sentado ante su mesa de trabajo y apoyada la cabeza sobre la mano en una actitud de nobilísima serenidad”. Como numa visão, parece-se abrir a parede atrás da nobre figura do pensador e poeta: abre-se o panorama da Espanha triste de Jovellanos e Goya, “triste, llorosa y abatida”, a Espanha na qual Jovellanos lamentou “el furor de mandar” e

“A su lado se ve el pálido miedo, 
la encogida pobreza…
y la ignorancia audaz que con el dedo
señala a pocos sabios, 
y con risa brutal cierra sus labios”.

Então assim como a Espanha triste de hoje. Confundem-se os panoramas, e confunde-se com a imagem daquele Grande da Espanha, erasmiano, historicista e poeta, a imagem do historicista e poeta Francisco Ayala, erasmiano exilado — “la dignidad sin soberbia, el decoro que niega quejas a la desventura, la igualdad del ánimo”. Assim como ele encontrou a Don Gaspar Melchor de Jovellanos, assim nós outros encontramos a Don Francisco Ayala, e este encontro nos “ha hecho entablar conocimiento verdadero con un hombre de alma excelsa”.


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Texto Fonte: CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios Reunidos — 1946–1971 — Volume II. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora/Topbooks, 2005. (p. 58–61). Editado por: Pedro G. Segato.