Uma caixinha pra chamar de minha

Realy Willey?
Jul 22, 2017 · 3 min read

Para que você me acompanhe neste texto, vou propor um pequeno exercício de imaginação. Vem comigo que vai valer a pena.

Imagine um pomar! Cheio de laranjeiras carregadas, laranjas grandes e coloridas. Você se aproxima de uma laranjeira e colhe uma laranja que lhe interessou. Você aproxima o olhar, percebe algumas pequenas marcas, algumas tentativas frustradas de insetos, uma história daquele fruto carregada em sua casca. Quando você abre a laranja com uma faca, o aroma se espalha pelo ar, e você pode ver as sementes espalhadas sem nenhuma ordem lógica.

Vamos imaginar agora que você não tenha ido a esse pomar. Essa laranja foi colhida junto com muitas outras. Ela passa por uma lavagem, e por esteiras que a cortam, espremem e descartam sua casca. Seu suco se junta ao de muitas outras, adiciona-se químicos conservantes, acidulantes, até que a mistura esteja pronta para ir para a caixinha. Depois do transporte, entrega, um tempo na prateleira do supermercado, a caixinha vai parar na sua mão e no café da manhã você finalmente abre a caixinha, liberando o aroma…
Artificialmente criado, serve em seu copo e toma com pressa pois acordou atrasado.

Talvez pareça uma crítica obvia à industrialização, ou até mesmo o capitalismo e sua transformação constante de produtos, mas neste texto eu quero que você vá além comigo. Eu quero falar das caixinhas pessoais, as caixinhas que escolhemos pra tomar o suco das coisas, e recusamos as coisas que não se encaixam nelas.

Alguns chamam de religião, outros de filosofia, alguns entende apenas como uma perspectiva ou uma forma de organizar a própria vida, mas estamos todos abraçados à nossas caixinhas. Escolhemos a segurança da caixinha, um sistema que possa receber o conteúdo das coisas, e molda-lo segundo a nossa expectativa.

Agarrados em nossa forma de ver as coisas, perdemos a capacidade de experimentar em totalidade, em complexidade. Procurando sempre um alimento pronto para nossas mentes e corações, coisas que correspondam e reforcem a nossa forma de pensar a vida. Um medo do sabor azedo, um medo do amargo que sentimos quando as coisas não são como esperamos. Em nossas caixinhas, encontramos aquilo que esperamos, reforçando cada vez mais o valor que damos a segurança que temos, e logo nos aprisionando e nos privando do novo.

Orgulhosos de nossas caixinhas, começamos a buscar diminuir os outros, sejam aqueles que não tem uma caixinha como a sua, ou que não tem uma. Perde-se o respeito pelo diferente, por acreditarmos tanto que a nossa caixinha é a melhor.

Mas quando eu posso ir no quintal da minha vó, colher uma laranja, descascar, sentir o aroma dela, ver como são caóticas as suas sementes, e seu sabor inesperado, seja azedo, doce ou amargo, eu tenho uma experiência única, completa. Me pergunto o quanto estamos deixando de viver, presos nas nossas crenças de como o mundo deve ser. Se estamos tão certos de que a nossa verdade é a correta, porque tememos o diferente?

Permita-se experimentar! Não é preciso se livrar da sua caixinha para fazê-lo. Mas quando você experimentar algo bom, e ela não se encaixe na caixinha, talvez seja hora de muda-la, repensa-la, ou até mesmo abandona-la. Meu convite à você é experimentar as coisas pelo que elas são, sem medo de sentir o amargo e o azedo. Quanto mais completa a nossa experiência, mais podemos aprender. Talvez você possa fazer do aprendizado a sua segurança, e a sua caixinha seja uma mesa pronta para experimentar o novo.

Ficar pistola e meter o loco!

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