Mr. Robot

Primeiramente, não, não farei introdução dizendo o que é Mr. Robot, desculpe, já estou passando a mão na sua bunda, meu amigo imaginário, acredito que é muito bem capaz de ir no Google e descobrir essa série ganhadora de prêmio, mas também não se trata sobre a qualidade da série ou não, se trata sobre mim.

Mas para falar de mim, precisamos passar levemente por cima da minha relação com a série (que acompanho fielmente agora em sua segunda temporada) e com seu protagonista, Elliot Alderson.

Elliot Alderson é um cyberativista, com objetivo de derrubar o sistema que escraviza as pessoas, além de ter alguns problemas (vários por sinal), mas isso também não importa tanto, o que importa, é como Elliot conversa comigo e como eu converso com ele.

Elliot sofre de uma doença em específico que se relaciona comigo diretamente. Ansiedade.

Ansiedade.

Ansiedade talvez seja acima da depressão, o que mais assola a humanidade nesses anos, afinal, nossa mente está sendo obrigada a trabalhar 3x acima do normal, assimilar informação, detalhes, nomes e endereços, números de celular, CEP, CPF, RG, o número da sua casa, senhas de banco, da sua conta no Facebook, a data que estreia o próximo Star Wars, o prazo do seu trabalho, aniversário da sua mãe, isso tudo, contido em um espaço curto, lutando por seu espaço na sua mente, gritando junto com várias informações aleatórias.

Quer um exemplo de como uma mente ansiosa funciona?

Imagine um quarto lotado de pessoas completamente diferentes, com opiniões diferentes, línguas diferentes, modo de falar diferente, posições políticas diferentes, num debate caloroso e preste a estourar uma briga para saber… Qualquer coisa, desde a pior frase do Jair Bolsonaro, político de extrema-direita, à qual a cor do vestido lá de 2015 (é de 2015 mesmo?).

Isso não é saudável. Mas ainda é só numa situação normal da sua vida, isso é um problema que dá pra ser conduzido de forma até boa, uma mente ansiosa significa uma mente trabalhando constantemente em ideias até interessantes, mas, quando nos deparamos com uma situação de crise… Bom, todos estão berrando suas opiniões, formando um decoro quase unânime de…

Fodeu.

Isso é a ansiedade ‘’normal’’, ao meu ver, mas existe também a ansiedade social, que é o problema do Elliot e… Também a minha.

Qualquer situação social aonde tenha, talvez, umas 20 pessoas, já é desconfortável, ao nível aonde você quer fugir, ou precisa se segurar em alguém que considera alguém de confiança para atravessar uma multidão.

Isso começa sendo um problema grande. É um tanto complicado falar dele, me falta palavras, mas talvez uma fórmula matemática funcione.

Ansiedade social + ansiedade normal + pessoas = Afasto de pessoas, hábitos antissociais, pensamentos antissociais, baixa auto-estima e afins.

Basicamente, você não consegue interação social. Existe um muro entre você e as pessoas, dá pra se ouvir vozes, risadas, brincadeiras, parece incrivelmente divertido, mas não é possível para pessoas como nós, atravessar esse muro e se incluir na brincadeira. Não dá.

Isso, é só pra exemplificar como eu e Elliot parecemos ter uma sintonia, em como eu me vejo profundamente preso aos problemas de Elliot, como ele se sente sobre as pessoas e como a solidão vem acompanhado disso.

Em um episódio da segunda temporada, um personagem do convívio de Elliot pede para ele visualizar o futuro que ele deseja. Um futuro. Sonhe com o futuro.

E é isso que vemos.

A shining light…

São todos os personagem que Elliot se importa, juntos, num almoço. O protagonista parece completo, as pessoas estão felizes, Elliot pode finalmente se relacionar com seu amor de infância, ter uma convivência pacífica com seus amigos.

É um futuro radiante, não?

Essa cena me tocou profundamente, porque de certa forma, é um sonho que eu também nutro. Uma vida que valha a pena ser vivida, com as pessoas que eu me importo, podendo ter uma conexão emocional com elas, que esse muro possa desabar e eu consiga me integrar à eles.

Mas aos poucos, me sinto mais distante disso.

O futuro parece cada vez mais nebuloso e cada vez mais me sinto solitário, distante, incapaz de saber os sentimentos alheios e cada vez mais preso aos meus sentimentos.

Aos poucos, me sinto mais deprimido em ter tantas dúvidas e tanta falta de fé que me impede, de por exemplo, ter fé em uma força superior, afinal, a noção de um Deus para mim, sempre soou como uma piada sem graça, o grande amigo imaginário da humanidade, que usa como desculpa para suas atrocidades, seus genocídios, suas manipulações, seu modo de vida restrito e seus totalitarismo travestido de moral.

Sou incapaz de me abrir com meus pais, que sempre tentaram ao máximo ser compreensíveis (e de certa forma, sempre falharam, mas não posso culpa-los por isso), incapaz de me abrir com minha própria ‘’namorada’’ (?) porque temo ela, minhas dúvidas me fazem temê-la e me distanciar emocionalmente dela cada vez que me sinto inseguro e não existe mais ninguém que eu me sinta livre para desabafar, estou restrito à três pessoas, duas das quais não são capazes de entender, uma que quase sempre, noto um distanciamento emocional igual ou superior ao meu, que tenho tanto medo que me sinto paralisado e quase sempre, vigilante.

Que tipo de pessoa estou me tornando? Lentamente me vestindo como um simulacro de pessoa saudável, enquanto por dentro, me encolho em dúvidas, agonia e solidão.

Então, recorro à você, leitor invisível, amigo imaginário não-onipotente/onipresente/onisciente, que talvez esteja sob a mesma situação que eu.

Quem dera eu pudesse lhe dar uma resposta. Talvez, só posso te dar um conselho, só um pequeno conselho.

Continue sonhando, não deixe que esse sonho perca seu brilho, não permita que ele se torne nublado, enquanto ainda tiver esse sonho tão claro quanto o dia, enquanto ainda os rostos sob a mesa ainda tiverem visíveis e enquanto houver esse desejo em seu peito, ele continua possível.

E se possível, me resposta.

Controle é uma ilusão?

Boa sorte, amigo.

Assinado,

Rei dos Contrários.