A Gorda Da Casa Rosa

imagem Reinld

Maria chegou ofegante na casa da amiga, se dizendo envergonhada. Pediu um copo de água e se sentou à mesinha que ficava perto da dispensa. A amiga queria saber o que se passava, mas a outra apenas repetia que estava com muita vergonha, ofegava e virava o copo que parecia permanecer com a mesma quantidade de água apesar dos goles desconcertantes.

Maria saiu de casa mais cedo que o normal pra fazer suas vendas, mas não estava muito afim de vender naquele dia, mas ainda sim faria sua rota, além do mais, naquele dia ela queria, além de apenas dar uma caminhada, passar no posto de saúde para marcar uma consulta, e depois no mercado, onde tentaria negociar a notinha pendente com seu Aloísio pra sexta que vem, e por fim iria até a casa da sobrinha recém-casada pra ver a quantas andavam os recentes problemas familiares da menina. E então voltaria pra casa onde arrumaria alguma coisa aqui e acolá até a hora do almoço e depois, finalmente, tiraria a tarde para assistir suas novelas enquanto terminava alguns bordados. Mas antes de chegar no posto passou pela mulher gorda que havia se mudado pra casa rosa da finada dona Laura e que varria a calçada com a dificuldade própria de quem possui os braços curtos e obesos. E foi graças àquele encontro que Maria mudou toda a sua rota e foi parar na casa daquela amiga, que angustiada via a outra perdurar o copo de água, como se o mesmo não tivesse fundo.

Desde a morte de Dona Laura a casa permanecera fechada. E por isso a figura da mulher gorda morando ali intrigava tanto a vizinhança. Talvez seria ela algum parente distante que resolvera ocupar o imóvel. Dona Laura tinha apenas uma filha que se chamava Suely, menina morena, miudinha, olhos negros grandes, longos cabelos de índia, e que se casara com um homem rico e havia se mudado pra Europa ainda no início do namoro. Fora ela havia ainda outros dois parentes que moravam no norte, mas que nunca pisaram por estas bandas. As más línguas diziam por aí que a filha de lá do exterior havia vendido a casa mal o corpo da mãe terminara de esfriar, e que foi até por conta de dissabores tais que a velha havia morrido: a filha seria a principal responsável pelos desgostos da velha. Mas a verdade mesmo ninguém sabia, porque dona Laura não era de muita conversa e Suely não mantinha contanto com ninguém do bairro havia muito tempo, e depois de tudo a casa permanecera do mesmo jeito, e ninguém veio a saber ao certo o que havia acontecido.

Ao ver Maria passar a mulher gorda parou o que estava fazendo e soltando uma das mãos da vassoura esboçou um gesto ligeiro. Maria percebeu tudo de soslaio e sentiu um troço esquisito e preferiu fazer de conta que nada tinha visto. Maria! gritou a mulher gorda. Ela se virou duma vez e antes de sorrir disse um ‘oi, quanto tempo’ e só depois veio o sorriso amarelado. Era, aquela mulher a própria Suely, agora de cabelos curtos, e muito gorda apesar dos mesmos reluzentes olhos grandes.

A amiga escutou Maria com uma das mãos segurando o queixo. E de quando em quando soltava fugidios suspiros enquanto resmungava, reflexiva: Deus do céu... Ela mesma havia cruzado com a mulher gorda umas duas vezes por esses dias e se sentia mal por não ter reconhecido nela a Suely que havia sido sua melhor amiga no colegial. Num pulo se levantou e foi até a cozinha e voltou com uma vasilha com pãezinhos e uma garrafa de café e ofereceu à visita como se, quem sabe, com aquilo conseguisse encontrar uma forma de mudar de assunto.

Suely durante todo o tempo em que conversava com Maria se sentia incomodada. Percebia que Maria não conseguia disfarçar o olhar de constrangimento. Suely perguntou sobre as amigas do passado e Maria respondia evasivamente, e Suely, com a vassoura na mão, esboçava continuar a limpeza da calçada, mas parecia que não era o suficiente como desculpa pra encerrar a conversa, e Maria falava coisas que não faziam sentido pra Suely, como por exemplo a situação do marido da sobrinha e perguntava, vez ou outra, se ela se lembrava da sua sobrinha, aquela menininha de cachinhos que vivia chupando dedo e adorava correr nua pelo quintal, e mesmo Suely dizendo que não Maria dizia que sim que ela conhecia sim e depois insistia em contar os pormenores dos problemas conjugais da então recém-casada sobrinha. Mas a cabeça de Maria processava outras coisas e os olhos ao desviarem os de Suely, e as mãos irrequietas gesticulando de maneira abrupta os dizeres, e por fim os trejeitos do corpo buscando um jeito de validar as histórias que contava deixaram no espírito de Suely um desespero tão grande que ela quase chorou diante de Maria.

Suely terminou de varrer a calçada com pressa e na marra. O corpo parecia mais pesado que o normal. Decidiu que não poria os pés pra fora de casa pelo resto do dia. Se sentou na poltrona da sala e ficou olhando pra televisão desligada. Um café, disse, ensimesmada, e se levantou. Diante do fogão, esperando a água ferver, sentiu um nó na garganta e o coração apertado. Lá fora dois cachorros brincavam com o pano de chão, um deles puxava e rosnava enquanto o outro que também puxava da outra extremidade resolvia soltar o pano e corria de um lado pro outro e logo depois voltava a puxar o pano, provocando o rosnar cada vez mais alto do outro cãozinho. Ela tomou o primeiro gole de café e como que voltando a si foi até os cachorros. Solta vai, solta! ela disse, se esforçando para abaixar até o chão e tirar da boca dos bichinhos o pano, e venham cá, disse ela, vocês vão dormir aqui, eu já falei, porque teimam em ficar na entrada, heim? e sem algazarra ou mamãe vai ter de amarrar os dois! Perros cabrones…

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