A Reinvenção do Mundo pelos Sons

Criar é um troço muito louco.

Tudo começa com a música e se transforma num monte de coisa. Sinto que se não fosse pela música os demais encontros não seriam possíveis.

Penso em música o tempo todo, e parece que quero criar música por outros meios, com outros materiais, por vias diversas, e vê-la se manifestar ali, onde seria impossível a sua manifestação, e ouví-la quando na verdade a predominância é a de outro sentido. Quase como um fiel que cria as condições para que sua entidade favorita possa surgir, invento altares onde não há igreja, ou a menor possibilidade de haver santuários, e ali escrevo missais sem saber nada de notas musicais e mesmo assim as notas estão ali, em perfeita correspondência com os sons, e aplico aos outros trabalhos, como se houvesse criado o mais seguro dos alicerces para inventar moradas.

Saí do SENAI com 16 anos e arrumei meu primeiro emprego, numa metalúrgica que não dialogava em nada com o que aprendera naquela escola técnica, trabalhei por dois meses e comprei meu primeiro walkman e logo fui demitido. Lembro que era um Aiwa, com controle de graves, fones confortáveis, e econômico em se tratando de pilhas. Dali por diante nunca mais andei sem nada nos ouvidos. E em casa ninguém mais reclamaria do que eu queria ouvir: havia encontrado um meio de reinventar a minha individualidade!

Carregar a música consigo, colocar ela pra acompanhar seus olhos enquanto enxergam, e a sua compreensão enquanto se desdobra, adornar sua solidão, ou potencializar suas alegrias, a música sim é uma operação mágica, que modifica sua relação com tudo, transformando o que pode ser transformado enquanto estiver presente.

Criar é muito louco, penso isso porque a minha vontade de invenção vem dos sons que escuto, e eu queria explicar as coisas pelos sons, pelas peças musicais que estiveram presentes antes durante e depois de algo ter sido inventado. Me perco quando não posso recorrer à música… até este texto mesmo que está sendo escrito é movido pelas músicas que se atropelam numa setlist caótica.

Pra mim há uma mistura, uma miscigenação no fazer artístico, comandada pela música, apontando o rumo a seguir, como um general enlouquecido pela vastidão da Terra e que de tão fiel ao que se perde de vista ele mantém os passos rígidos e alegres enquanto guia todos os outros fazeres artísticos.

Penso muito nessas coisas até que uma ou outra música silencie tudo, e como um narrador místico conduza meus olhos ressignificando o meu derredor, como uma droga, uma anódino, e um combustível.

A música foi a primeira das artes a ter surgido no mundo!

Pelo menos no meu mundo.

E, portando, aqui ela reina!