Cíntia


Acordei. A minha vista ainda estava embaçada e tudo que conseguia ver era a borda do meu travesseiro pelo meu olho direito. O esquerdo estava virado para baixo -eu só conseguia dormir de bruços- e não conseguia abrí-lo. Durante os poucos milésimos de segundos que minha consciência estava “ligando” e o olho estava focando em algo, ele foca em Cíntia. Só então eu consegui perceber o ambiente ao meu redor. Os lençóis cremes nos quais eu ainda estava enrolado, assim como todo o resto do quarto, era banhado pela luz amarela da alvorada. A luz penetrava o quarto pela janela enorme que eu mesmo havia planejado durante a construção da casa, eu sempre adorei a iluminação natural. Reparei em tudo isso sem minha mente — nem olhos — saírem de Cíntia. Ela usava a camisa social branca que eu havia usado no jantar de ontem à noite — ela dizia que adorava o cheiro que eu deixava em minhas roupas — e seu fio dental vermelho — eu adoro vermelho . Ela estava levemente arqueada sobre a janela, o suficiente para que o final de seu glúteos aparecesse. Toda essa percepção de como ela estava durou apenas alguns centésimos de segundo, porque ela tinha me ouvido fazer o mínimo movimento na cama para me ajeitar um pouco. E aí que percebi como ela estava ainda mais linda de frente, a camisa estava desabotoada, mas apenas mostrava o centro de seu tórax e barriga, não mostrava nada mais que isso. Seu cabelo loiro cintilava dourado à luz do alvorecer e cobria metade de seu rosto. Seu olho azul tinha destaque meio àquele mar amarelo que toda manhã meu quarto se tornava. O sorriso que ela deu afinou seu lábios suficientemente grossos e deu mostra às pérolas que tinha cultivado em sua boca e as chamava de dentes. Ela deu dois passos e beijou-me a boca. Senti o sabor das manhãs, como a música mencionava. Eram em manhãs, tardes, noites, momentos com Cíntia que meu medo patético de morrer sumia. Cíntia espantava o medo como se fosse uma cruz e o medo, a própria figura do diabo. Cíntia era ao mesmo tempo, o que me fazia ter medo de morrer. Perder ela, eu e ela não significar nos nada mais para o mundo, remexia minhas entranhas e me fazia ter pequenos ataques de pânico. Minhas células pareciam suplicar por ela assim como suplicam por glicose e nutrientes e metabolismo movimento oxigênio. Assim como suplicavam por vida. Cíntia conseguia tudo isso apenas sendo Cíntia. Sendo a vida e a morte. Era uma bonita manhã.