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A vida da mulher preta é, em geral, marcada pela relação de amor e ódio com o cabelo, sobretudo na infância e na adolescência. Fui uma criança de bobes (sim, aqueles rolinhos), o que me deixava com ares de senhorinha na casa dos oitenta, só que no alto dos meus 8 anos. Fui adepta de uma prática comum na vida infantil de décadas atrás: o autocorte capilar muito antes de isso virar modinha em um mundo pandêmico. Cortar o próprio cabelo é um passo ousado para alguém como eu, que sempre fui inábil na primitiva arte de picar papel. O que dizer de alguém assim ter coragem de se arriscar numa manobra tão radical? Destemida, lá fui eu munida de minha tesoura escolar e com minha certeza pueril de que o resultado seria bom. Não tinha como dar errado, pelo menos não na minha cabeça. Pena que o resultado na minha cabeça, agora literalmente falando, foi desastroso. A adolescência chegou e com ela a certeza de que eu nunca me acertaria com meu cabelo. Vivíamos uma relação de aparências e nos evitávamos o tempo todo. O mundo me dizia que o crespo era feio e eu acreditava. Diminuir o volume virou uma meta. O jeito foi relaxar (sim, arrumei um jeito canalha de botar isso no texto só pelo jogo de palavras). Adotei o relaxamento capilar. Eu me tornei refém do creme sem enxágue, o meu mal necessário, por assim dizer. Falo só por mim, claro, mas suspeito que a vida sentimental da mulher preta se misture um pouco com sua relação capilar. Em seus dates, a mulher preta do creme sem enxágue, esta que vos fala, gingava mais que capoeirista pra evitar que o cara tocasse em seu cabelo ainda úmido por dentro. A mulher preta entende que se sentar no banco da janela do ônibus significa que vai desembarcar com um lado ainda úmido e outro armado. Mas quando a mulher preta se sente segura, ela entende que há beleza de todo jeito, seja crespo, alisado, relaxado ou raspado. Cabe a ela se encontrar. Fui da negação à adoração. A Renata de 10 anos, essa aí da foto, tinha uma relação estremecida com o cabelo. A de 39 anos decidiu renovar votos com ele. …


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Houve um tempo da minha vida em que eu vivia à base de Neosaldina. Volta e meia eu batia ponto numa farmácia e comprava aquela cartelinha com 4 comprimidos. Era o suficiente pras minhas eventuais dores de cabeça. Um dia, num lugar onde eu trabalhava, um colega me perguntou se eu tinha um remedinho pra dor de cabeça e eu, prontamente, saquei a Neosaldina e entreguei a ele que, muito grato, tacou na boca, deu um gole d’água, me agradeceu e tomou rumo. Noutro dia, a mesma coisa. Falei “claro”, generosa, dei a cartela na mão dele e o processo se repetiu. Noutro dia também. E no terceiro, no quarto, no vigésimo quinto e alguns meses depois. Um dia, me dei conta de que alguma coisa não ia bem. A dor de cabeça dele? Também, mas tô falando das minhas idas à farmácia, que passaram a ser mais recorrentes. No lugar da cartelinha com quatro, passei a comprar a com dez comprimidos. Foi aí que eu me dei conta de que não tava comprando pra mim, mas, sim, pro colega. Relevei. O que é uma cartelinha a mais ou a menos no orçamento, né? Eu não ia ficar mais ou menos pobre por isso. Continuei comprando por um tempo, mas comecei a me achar meio otária de entrar numa fila da Drogasmil pra comprar o remédio pra atender à cefaleia do colega. Não se nega remédio a um colega na aflição, mas ele nem tava sentindo mais dor de cabeça. Tava pedindo porque o remédio tava ali à mão como quem pede pro garçom, num buffet, pra baixar a bandeja pra pegar mais rissole. Rissole nunca é demais. Neosaldina, pelo visto, também não. O tal colega tomava a Neosaldina com a tranquilidade de quem pede um copo d’água depois de bater perna no calçadão de Campo Grande numa tarde de janeiro. Água não se nega. Neosaldina se nega, sim, senhor. Desde então, não troquei mais uma palavra com Neosa. …


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Fui pro campo de batalha: o supermercado. Munida de máscara e de luvas descartáveis, lá fui eu pra selva de ‘preços baixos’ não tão baixos assim.

Com um andar já batizado de Melvin Udall, desviei de todas as minas (e minos, desculpe) humanas que encontrei pelo caminho e fiz a maior compra que um cidadão é capaz de fazer sozinho. …


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Fui ao lançamento de um livro lá em Botafogo, cogitei voltar pra casa de Uber, mas os R$74 da corrida me fizeram concluir que conhecer novos rostos a bordo de um vagão é uma experiência sem igual. Fui pro trem.

Trem com todos os assentos ocupados e algumas pessoas em pé. Estava eu lá distraída até que, do nada, uma correria começa. Senhoras, crianças, um monte de gente se atropelando, correndo pro fundo do trem meio sem entender por quê. Corri também porque não sou besta de pagar pra ver. As primeiras notícias davam conta de que “jogaram uma bolsa dentro do vagão, maluco!” Uma moça passou mal e deixou o Código Penal pra trás. O vendedor da batata chegou com uma atualização: “o carregador estourou dentro da bolsa da mulher! Isso é coisa do inimigo” e completou: “olha pra cá agora, abençoados! Presta atenção em mim e finge que eu sou um filme”. Resumo da ópera: era um carregador de celular caseiro. Isso mesmo. Outro vendedor veio lá da frente trazendo o artefato dentro de uma sacola plástica azul de feira e todo trabalhado na fita isolante. Quer dizer, o pobre quer empreender, mas empreende errado. E o Código Penal da moça? Foi achado pelo vendedor da batata. Todo mundo aplaudiu. Esperto, aproveitou os ânimos acalmados e os holofotes todos virados pra ele e disse o que todo vendedor de batata diria nesse momento: “pessoal, agora vamos de batatinha?” …


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Entro no ônibus com uma sacola das Lojas Americanas na mão. Como não tem lugar pra eu me sentar, fico em pé na direção de um cara. Na sacola há duas latas de Pringles que balançam ao sabor do vento e do meu desequilíbrio. O ônibus dá um solavanco, meu pé dá uma falseada e a sacola vai na direção do rosto do cara tal qual um pêndulo doido que voa sem destino. Não bate nele, mas é por pouco. Tensão. O cara olha pra mim. Eu peço perdão com o olhar. A viagem segue. O ônibus dá outro solavanco, meu pé dá outra falseada e a sacola, ameaçadora, vai mais uma vez na direção do rosto do cara tal qual etc e tal. Quase. Tudo de novo. Pra evitar o terceiro susto, ele se oferece para segurar a sacola. Entrego. Vaga um lugar no fundo do ônibus, eu o agradeço pela defesa pessoal disfarçada de gentileza, pego a sacola, o ônibus dá mais um solavanco e eu acerto, enfim, as latas de Pringles na cabeça do cara. Por trás. Golpe covarde. …


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Entrei no ônibus, fui para o fundão e uma moça de uns quarenta e tantos anos, sentada próximo à porta, prontamente se levantou e me ofereceu o seu lugar. Pensei: “ela deve descer daqui a um, dois pontos, né?” Mas não. Ela continua no ônibus e em pé. Não sou deficiente. Creio não ter a aparência de uma passageira com direito ao assento preferencial por idade. Sei lá, eu acho que… eu acho que ela acredita ter cedido o lugar para uma gestante. O vestido soltinho que tô usando agora deve ter culpa no cartório. Não tenho coragem de correr o risco de deixá-la constrangida ao desfazer o que eu acredito ser um mal-entendido. Além do mais, já passou muito tempo. Ela segue em pé e eu sigo aqui, canalha, sentadíssima a caminho do pré-natal. Cabô pra mim.


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Entrei no ônibus praticamente vazio e me dirigi a um dos bancos altos lá de trás. Nos assentos, duas notas de R$2. Olhei pros lados, chequei se tinha alguém dando falta, alguém tateando os bolsos da calça atrás dos R$4 da viagem seguinte, mas não. Não tinha. Ônibus praticamente vazio, já disse. Calmamente peguei os R$4. Desconfiada, dei uma olhadela pra câmera de segurança tal qual uma criminosa temendo um flagrante. Abri a bolsa e, sem fazer alarde, guardei. Sorri satisfeita, sorri vitoriosa, sorri o sorriso dos sortudos que têm a felicidade de achar dinheiro grande na rua. Mas sorri por causa de R$4. Tô inconformada com a minha alegria desmedida, sem propósito, no entanto, sigo sorrindo.


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O Dia

Toda a minha admiração, toda a minha reverência aos bravos vendedores das loja de rua de Madureira. Eles trabalham em pé o tempo todo, usam um uniforme inadequado pro verão carioca, comem mal e fora de hora e têm de abordar os clientes que entram e saem a todo momento. É preciso garantir uma comissão mais gorda no fim do mês, especialmente nos fins de anos difíceis que temos tido.

É um trabalho ininterrupto, insano, sem hora pra ir embora às vésperas do Natal e que provavelmente não paga bem. Tudo isso sob um calor de mais de 40º.

Falei que essas lojas não têm ventilação alguma? É angustiante ficar dentro delas. São cubículos estreitos (fui redundante, eu sei, mas tive que enfatizar) e insuportavelmente quentes. Numa dessas, tinha uma mulher com a cara tão rosa, coitada, mas tão rosa, que acho que eu não me espantaria se ela me dissesse que faz um extra como Peppa Pig em festas infantis. …


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Marlene, uma senhora de uns 75 anos, chegou ao salão de beleza acompanhada de Samara, sua netinha de 7. Ela chegou mancando, com a menina marcando o passo e conduzindo a avó com paciência e gentileza raras em crianças dessa idade. Marlene se recuperava de uma cirurgia. Reclamava de dor, dos remédios sem efeito algum, do médico, fazia um sem-fim de reclamações típicas de um pós-operatório.

Limitada na minha ideia rasa de prováveis problemas da terceira idade, achei que Marlene tinha sofrido uma fratura ou coisa do tipo. Mas, não. Marlene tinha feito uma cirurgia de períneo. Pra resolver um problema de bexiga baixa, incontinência urinária, essas coisas? Não, não. Ela estava prestes a conhecer pessoalmente um português viúvo com quem conversa pela câmera há seis meses. Marlene é do balacobaco e queria ficar nova de novo pra ocasião. Marlene é tão prafrentex, que disse: “não gosto de homem, não. Não confio. …


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Helinho, um dos compositores do samba-enredo da São Clemente no próximo Carnaval, é também motorista de Uber. Em 2019, a escola vai falar do negócio em que se transformou o Carnaval carioca, uma metalinguagem, por assim dizer. Helinho me deixou muito desapontada quando disse que é um ex-portelense. E pior: deixou de ser portelense pra se tornar clementiano. Francamente, não faz sentido deixar de torcer pela Portela (pela Portela!) pra torcer pela São Clemente. Todo meu respeito à coirmã da zona sul, mas é como trocar, sei lá, o Corinthians pelo XV de Piracicaba. Diz ele que ainda gosta muito da Portela, da águia, do Paulinho da Viola, da Tia Surica, mas seu coração, hoje, bate mais forte pela amarelo e preto. Sei. Diz ele que isso não tem relação alguma com o fato de ser um dos compositores da escola de Botafogo. …

About

Renata Andrade

Autoproclamada fina flor de Madureira e adjacências. Roteirista do Zorra e da Escolinha. Tb tô no Podcast Humor Globo. Autora do livro “A Passageira ao Lado”.

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