3, 2, 1… ação!

BBC

Em agosto de 2006, eu era estagiária da RioFilme. Naquela época, o José Wilker era o diretor-presidente da distribuidora e eu ficava nervosa só de ouvir, vez ou outra, o seu vozeirão ecoando pelos longos corredores do casarão que abriga a empresa.

Em 2006, se eu não me engano, um pouco antes do boom do Orkut por aqui (durante, talvez?), eu dava vazão à minha necessidade de contar histórias enviando e-mails para os amigos mais chegados. Coitados... Naquele agosto, eu vivi uma experiência inusitada e não pensei duas vezes: achei oportuno compartilhar com eles. Recentemente, esbarrei por acaso nesse e-mail, resolvi resgatar a história e trazê-la para cá.

Eu gostava muito do estágio. Tinha colegas ótimos, ia a pré-estreias e aprendi muitas coisas bacanas naquele período, mas como já estava na reta final da faculdade e como se tratava de uma empresa da Prefeitura do Rio, o que descartava qualquer possibilidade de renovação ou plano de crescer lá dentro, o jeito era correr atrás de outra coisa antes que o contrato vencesse.

Mandei o e-mail horas depois de ter ido à Mostra PUC, a tradicional feira de estágios que acontece todos os anos no campus da universidade. Eu tinha pouco mais de uma hora para passar por todos os stands e correr para Laranjeiras, onde fica a RioFilme. A ida à feira, contudo, acabou sendo improdutiva porque fiz lá tudo o que eu poderia ter feito de casa mesmo. Sou de uma época em que imprimir currículos para deixar nas empresas ainda era um hábito. Naquele dia, porém, voltei com o bolinho praticamente intacto. Deixei o total de um currículo impresso em apenas uma empresa e saí dali com a certeza de que conseguiria nada com aquilo. Tinha ido à toa.

Basicamente passei em cada stand para me inscrever, via Internet, nos programas de trainee daquelas grandes empresas. Eu me dei conta de que tinha saído mais cedo de casa e me deslocado até lá em vão. Saí da PUC frustrada, mas abastecida de folders, bonés, canetas, balinhas, bloquinhos, chaveiros e squeezes de plástico. Não consegui uma oportunidade como trainee, meu objetivo maior, mas tinha material suficiente para abrir uma microempresa do ramo de souvenir, papelaria e miudezas em geral. Eu era um armarinho ambulante, praticamente.

Eu entrava às 14h no estágio e tinha pouco tempo para chegar no meu horário. Corri para a Avenida Padre Leonel Franca, que estava toda engarrafada, e procurei por um ônibus que me levasse até Laranjeiras em menos de uma hora. Um homem me garantiu que o 583 passava. Fiz sinal para o primeiro que apareceu, mas o motorista negou a informação. Na mesma hora bateu o desespero porque o medo de chegar atrasada era grande e estava cada vez mais perto de se tornar realidade. Fui, então, à caça de um ônibus que realmente me deixasse em Laranjeiras. Perguntei daqui, perguntei dali e nada. Ninguém sabia. Eu só sabia correr de um lado para o outro torcendo para ser agraciada por um lampejo de criatividade ou para ser milagrosamente teletransportada para a minha mesa na RioFilme sem levantar suspeitas de onde eu tinha ido.

O trânsito não colaborava. Tudo continuava parado como antes, menos os minutos, que pareciam avançar mais rápido que o normal. Eu estava ali, sem saber o que fazer, com cara de desespero, correndo sem rumo, trocando as pernas tal qual um bêbado num fim de noite e segurando as coloridíssimas sacolas de programas de trainee e de intercâmbio, que me davam um quê de alegoria do Paulo Barros. Eu não podia me ver, mas sabia que era uma distração espalhafatosa para as pessoas que estavam ali, entediadas, presas no interminável engarrafamento da saída do túnel. E não é que fui mesmo?

De repente, ouvi uns caras rindo de mim e falando aquelas gracinhas bobas que ninguém quer ouvir numa hora dessas e que só servem para irritar ainda mais. “Calma! Você vai chegar a tempo!”; “Cooooorre!”, diziam eles, às gargalhadas. Olhei furiosa para os engraçadinhos e, para minha surpresa, descobri que eu era motivo de chacota de ninguém mais, ninguém menos do que Acerola e Laranjinha, as estrelas do Vidigal. Douglas Silva e Darlan Cunha, dois adolescentes que, na época, acredito, filmavam “Cidade dos Homens”, estavam dentro de um carro, um no banco do carona, outro no de trás e riam com vontade do meu drama sob um inclemente sol de verão em pleno agosto.

Olhei para eles e me traí: deixei escapar um sorrisinho. Sabe lá Deus como eu encontrei forças para rir. Eles riram mais ainda. O trânsito não fluía de jeito algum e à medida que eu corria toda atrapalhada e com as sacolas sacudindo numa coreografia perfeita, eles debochavam mais ainda. Um pouco mais adiante, na rua do valão que dá no Leblon, quase fui atropelada e eu ainda conseguia ouvir as gargalhadas deles ao fundo.

Corri mais um pouco e consegui, enfim, tomar um ônibus até o estágio, dei um jeito de reduzir as sacolas a apenas uma e às 14 horas em ponto eu estava sentadinha na minha mesa. Estava suada, é verdade, mas estava onde deveria estar e isso era o que importava. Fiquei na empresa até o fim do estágio e, como eu já esperava, nunca fui chamada para uma entrevista sequer dos programas de trainee que eu tinha me inscrito. Tenho certeza de que aquele dia serviu apenas para eu sair à rua e ser zoada pelo Acerola e pelo Laranjinha. Um carma de outras vidas, certamente.

RioFilme, José Wilker, Acerola, Laranjinha, “Cidade dos Homens” e uma potencial protagonista de uma comédia pastelona. As pistas estavam todas ali, na minha cara. Era só juntar os elementos, fazer um longa bem comercial e chamar uma estrela em ascensão para dar vida àquela personagem. Já pensou? De estagiária atrapalhada a diretora/roteirista de uma autobiográfica produção nacional… que tal? É, dei mole. Agora é tarde demais.