Dança das cadeiras

Jornal Extra.

Se tem uma coisa que eu não entendo é gente que entra no ônibus e perde tempo escolhendo lugar. Tenho para mim que essa gente nunca brincou de dança das cadeiras na vida. Na brincadeira, não importa se você vai sentar na cadeira de cá ou na de lá. O que importa é estar sentado para continuar na disputa pelo brinde no final.

No ônibus, basta desconsiderar os preferenciais e sentar em qualquer um. Não tem mistério. Agora há pouco acabou de acontecer isso. Uma mulher entrou muito antes de mim e resolveu passear pelo ônibus. Foi para lá, veio de lá e nada de se decidir. Uma garotinha de uns 7 anos entrou pela porta de trás e, rapidamente, sentou-se no assento plus gold, que é o banco alto, na sombra e com visão privilegiada para a rua. É a cobertura na Vieira Souto dos transportes públicos. A indecisa rodou, rodou e resolveu sentar ao lado da garotinha, que prontamente pôs as mãozinhas no banco e, com surpreendente autoridade, disse: “esse é o lugar da minha mãe!”. A mulher, puta da vida, saiu dali e acabou sentando naquele poleirinho isolado lá da frente. Foi o que restou. Ela demorou tanto a se decidir que, em dois tempos, todos os outros lugares já tinham sido ocupados, restando apenas aquele ao lado do vão para cadeira de rodas, que requer muita habilidade de um passageiro destemido e disposto a desafiar as leis da física, e o poleirinho.

No que a mulher virou as costas e se afastou, a garotinha olhou para mim, que estava no assento plus gold do outro lado do corredor, e sorriu com carinha de sapeca. Eu sorri de volta. A mãe, que assistiu toda a cena da roleta, se aproximou e sorriu também. Só quem não deve ter achado graça alguma é a outra moça, a indecisa do poleirinho. Pensando bem, ela realmente tinha o direito de sentar ali, ao lado da garotinha. Na lei do transporte público, não tem essa de guardar lugar, não, mas é aquele papo, né? Foi à roça…