Em minhas gavetas

Sou uma acumuladora. Mantenho guardadas algumas coisas que, há muito tempo, não têm mais a mesma importância. Como sou apegada — e acumuladora — eu as preservo lá, em minhas gavetas.

De tempos em tempos, resolvo me desfazer de algumas delas. Algumas eu só mantenho guardadas porque sei que dali a seis meses, um ano, mais ou menos, já terei finalizado internamente o meu ritual do desapego, embora eu o faça sem muita consciência. Só me dei conta disso agora, escrevendo. Depois de um tempo sem tocar nelas, eu consigo me desfazer, sem muita pena. Acho que posso afirmar que sou uma acumuladora em processo de recuperação.

Tirei o sábado para me livrar de algumas dessas coisas. As gavetas e portas dos meus armários imploravam por isso. Consegui me desfazer de quatro generosas sacolas de lixo, mas sei lá por que não consegui fechar as mesmas portas e gavetas, apesar de elas estarem consideravelmente mais vazias. Acho que, de algum modo, minhas coisas sabiam se rearranjar ali dentro, tal qual um trem em horário de rush, e o que restou, revoltado com a minha insensibilidade, resolveu protestar em nome dos despejados. Acho que os sobreviventes resolveram ficar mais espaçosos, de propósito.

Sempre que paro para arrumar minhas gavetas e me desfazer do que não importa mais, eu rio um bocado. Sempre acho uma redação da quinta série, alguma anotação bocó, listas de coisas para fazer, muitos recortes de jornal, coisas que eu guardei para ler algum dia, bilhetes que mandei para mim mesma, mas que hoje me dizem nada e cartas, muitas cartas. Destas, eu nunca vou me desfazer. Nem passa pela minha cabeça fazer isso. Sempre que faço esse tipo de arrumação, leio algumas delas e rio muito. São cartas de amigos e de alguns colegas de colégio que eu já tentei, sem sucesso, achar no Facebook. E cartas de crianças? Tenho aos montes. Da Milena, minha sobrinha, então… até parei de contar. São registros de uma época em que ainda não tínhamos nos rendido ao mundo digital.

O espetacular desenho da foto lá de cima eu ganhei da minha prima Nathasha, hoje com 24 anos, e que foi uma criança muito doce e carinhosa. Lembro que ela adorava preparar cartinhas, desenhos, surpresinhas pra gente. Minha mãe lembrou que, certa vez, ganhou dela um grampo de cabelo, desses pretinhos que vêm em caixinhas com cinquenta. Ela tirou um, fez uma cartinha e deu de presente para a tia. Alguma dúvida de que se fosse eu a presenteada o grampo ainda estaria lá, em alguma gaveta?

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