Empata selfie

Fico constrangida quando topo com alguém solitário fazendo selfie em locais públicos. Fico mais constrangida ainda quando a pessoa se intimida com a minha presença e tenta disfarçar.

Odeio ser empata selfie. Odeio ser corta onda, odeio interromper alguém que, secretamente, capricha nas caras e bocas para o próprio celular. Uma vez eu entrei no banheiro de um shopping e vi uma moça sorrindo para o espelho e com o celular em riste. No exato instante em que eu apareci, ela recolheu os braços e desmanchou o sorriso. Aí, então, ela tentou, no miudinho, fazer a foto, como se eu não pudesse ver, através do espelho, aquele braço curto e aquela mistura de meio sorriso com sorriso amarelo que, óbvio, resultaria numa selfie de quinta.

Não gosto de ser empata selfie, mas, curiosamente, gosto de ver as manobras que as pessoas fazem para não serem vistas. Elas bem que se empenham, mas acabam evidenciando tudo, jogando uma lente de aumento no que pretendiam, a todo custo, esconder. Pensando bem, nem odeio tanto assim ser empata selfie… É engraçado. Constrangedor, mas engraçado.

Saí do seu campo de visão e, já na porta… click, click, click, click! — ela aproveitou a paz daquele banheiro feminino estranhamente vazio, botou os dentões pra jogo, que eu sei, e fez as centenas de fotos que precisava para selecionar aquela única que viria a ser a selfie do dia.

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