Indignação nossa de cada dia

O Globo

O ônibus surge no horizonte beirando o ponto. Eu e um senhor fazemos sinal para ele parar, mas ao invés de o motorista continuar na pista do canto (o ponto estava bem próximo) para que pudéssemos embarcar, ele vai lá para o meio, se mete na confusão de carros e só volta a encostar lá na casa do cacete, muito longe do ponto, nos obrigando a correr.

Vejo o senhor na calçada com uma quase indignação no olhar e com os braços abertos para o motorista de quem diz “pô, qual é a tua, cara?”. Na corridinha até o ônibus, cúmplice, digo para ele: “filho da mãe, né?” porque entendo que ficamos igualmente putos. Espero uma resposta no mesmo nível de indignação, mas ele me ignora.

Ao entrar no ônibus, eles fazem aqueles mil cumprimentos de mãos e o motorista diz: “coé, irmão? Tava sumido!” e ouve do outro um comentário qualquer em meio a risadas. Eles são parceiros, chapas, brothers! Aí eu, a passageira reclamona, vou cabisbaixa para o final do ônibus, puta da vida, solitária com a minha indignação.