Intimidade forçada

The Heat Lightning

Acabo de extrapolar todos os limites da intimidade forçada com desconhecidos dentro do BRT. O ônibus chegou na estação, a porta se abriu, revelou o paredão humano aparentemente difícil de ultrapassar, mas eu fui lá e provei que o impossível não há. Sob protestos de “que isso, menina, não dá mais, não!”, mostrei que um sonho que se sonha só não é só um sonho que se sonha só. Aí eu, na minha solidão, fiz do meu sonho uma realidade.

Entrei. Entrei, mas travei a porta, que finalizou o serviço me jogando de vez pra dentro do carro. Foi aí, então, que o inesperado aconteceu. No que a porta me lançou, eu fui diretinho ao encontro de um senhorzinho de cabeça branca e dei-lhe o famoso beijinho de esquimó, aquele da esfregadela de nariz no da pessoa amada. O meu foi no desse senhorzinho da cabeça branca e meio bonachão do BRT. Fiquei tão constrangida, que passei boa parte da viagem de cabeça baixa. Quando, enfim, tomei coragem de erguê-la novamente, lá estava o homem olhando pra mim. Só não sei ainda se estarrecido com tudo o que nos aconteceu ou ligeiramente apaixonado.