Meu nome é Vitória

Meio Norte

– Boa noite, meninas! Bem-vindas ao Primeiro Encontro Nacional de Vitórias.

– Boa noite!

– A ideia desse vi-to-ri-ooo-so encontro é celebrar a vida, ouvir a história de cada uma de vocês e saber o que motivou os seus pais a registrá-las assim, certo?

– Certo!

– Vamos lá, então. Quem quer ser a primeira?

– Eu posso começar.

– Legal. Conte-nos a sua história.

– Bem, é… Minha mãe sonhou a vida toda em ter uma filha chamada Lorraine. Aí ela engravidou e resolveu dar esse nome à filha. Eu, no caso. Mas ela teve muitas complicações no parto e quase me perdeu. Fiquei um tempão na UTI neonatal. Só que eu contrariei todas as previsões médicas e sobrevivi. Aí tudo mudou. De Lorraine, virei Vitória.

– Que bacana, Vitória! Que depoimento forte! Quem mais?

– Eu, eu!

– Opa! Diga aí.

– Eu nasci numa virada de ano. A bolsa rompeu antes da hora e papai correu com mamãe pra maternidade minutos antes da meia-noite de 1º de janeiro de 1982. Nasci no meio de uma estrada e com os fogos do ano novo já estourando. Policiais rodoviários fizeram o parto. Fui o primeiro bebê a nascer nos primeiros minutos daquele ano. Meus pais não tiveram dúvida: Vitória seria o meu nome.

– Olha só, que história incrível! Obrigada por compartilhar.

– Posso contar a minha?

– Por favor!

– Meu nome já tinha sido escolhido pelos meus pais. Eu me chamaria Jamile, apenas. Só que no dia em que nasci, uma falsa enfermeira me raptou da maternidade. Passei uma semana desaparecida, foi uma comoção geral. Quando descobriram o paradeiro da mulher, meus pais me recuperaram e acrescentaram “Vitória” ao meu nome.

– Jamile Vitória ou Vitória Jamile?

– Vytória Jamyle com ípsilon no “vi” e no “mi”.

– Legal, legal.

– A minha história é parecida com a dela. Também fui levada por uma estranha.

– É mesmo?

– Aham. Minha mãe tinha saído comigo, ainda recém-nascida, e com meu irmão, que tinha ido se vacinar. Uma mulher se ofereceu pra ajudar porque viu que ela estava atrapalhada com as duas crianças, me pegou no colo, aproveitou uma distração da minha mãe e sumiu.

– Caramba… E aí?

– Aí que as câmeras de segurança do posto de saúde fizeram imagens da mulher. Não demorou muito pra ela ser denunciada. Apareci no RJTV e tudo, tenho o VHS até hoje. Eu me chamaria Ludmilla, mas, depois disso, minha mãe achou mais adequado mudar pra Vitória.

– Que história…

– Eu fui achada numa caçamba de lixo.

– Olha só, mais uma história incrível. E aí?

– Um catador de lixo ouviu um miado, aí quando foi ver, descobriu que era uma criança. Até fui capa do jornal da minha cidade. Como fui guerreira de sobreviver naquelas condições, recebi provisoriamente o nome de Vitória. Aí a família que me adotou manteve o nome porque deixava a minha história mais bonita.

– Belo gesto… E você aí?

– Quem? Eu?

– Sim, você. Por que você se chama Vitória?

– Ah, é… eu me chamo Vitória porque meus pais gostavam do nome.

– E o que mais?

– Não tem mais, não. Eles gostavam mesmo do nome, só isso.

– Olha só, que curioso… Bom, vamos continuar com… com você. Pode ser?

– Claro. Tinha uma novela na extinta Tupi chamada “Vitória Bonelli”.

– Eu lembro dessa novela! É da minha época. Quem fazia era a Berta…Berta…

– Zemmel.

– Isso! Berta Zemmel. Desculpe, continue.

– Mamãe amava a personagem, amava a novela, a atriz… Ela tentava há anos engravidar, mas sem sucesso. Quando finalmente se descobriu grávida, e de uma menina, não pensou duas vezes. Me chamo Vitória Bonelli Tavares da Silva.

– Bonelli também?

– Também. Mamãe não quis abrir mão do sobrenome. Diz que tenho nome composto.

– Sei… Mocinhas de novela, um clássico!

– Eu gostaria de contar a minha também.

– Por favor, querida.

– O meu nome veio da história de amor dos meus pais. Eles amam espetáculos teatrais. Amam tanto que se conheceram numa sessão de “Vítor ou Vitória”, na Broadway.

– Que chique! E aí?

– Eles começaram um romance ali mesmo. Quando voltaram para o Brasil, se casaram em poucos meses. Minha mãe engravidou tempos depois e...

– Você nasceu e eles te registraram como Vitória.

– Não. Como Vítor.

– Vítor?

– Sim. Sou Vitória desde 1999.