Na calada da noite

Thepaintinglab

É começo de madrugada. Três homens e uma mulher andam despreocupadamente pelo Flamengo enquanto solicitam, cada um em seu celular, um táxi que os leve às suas respectivas casas. Eles seguem andando por uma rua deserta, tentam decifrar o nome de um prédio – “aquilo ali é um eme ou um agá?” – , acham bonito o contraste de um fusca amarelo-ovo parado na calçada oposta, pensam em fazer uma foto, desistem – “se fosse de dia ficaria muito melhor” – e têm toda aquela tranquilidade interrompida por um assobio que quebra o silêncio daquela rua, até então, só deles. Era o porteiro de um desses prédios que, preocupado, alerta: “cuidado aí com o celular! Acabou de acontecer um assalto aqui, nesta rua”.

Tensão, desespero, pânico. Os três homens e a mulher aceleram o passo. Carros parados na rua passam a ser vistos com desconfiança e cogita-se que uma emboscada está armada. O provável assaltante está só esperando, escondido atrás de um carro, o melhor momento pra dar o bote, levar todos aqueles celulares e acabar de vez com a alegria do grupo.

Os três homens e a mulher andam feito baratas tontas, mas apesar do desespero provocado pela iminência de um assalto, riem sem parar. “Ih, tem uns caras deitados ali, à esquerda! Bora pra direita! Bora pra direita!” e como uma coreografia de axé, os quatro vão cadenciados pra direita. “Ah, porra, são só mendigos dormindo!”. Atravessam a rua sem movimento e olhando para todos os lados, preocupados com uma abordagem repentina. Quem vê, não tem dúvida de que trata-se de um bando de criminosos, não de um grupo fugindo de assaltantes.

Obrigada, D.E.S.C.O.N.J.U.N.T.A.D.O, por esta contribuição maravilhosa.

A calma retoma, ainda que por um momento. “Vamos ali pra Senador Vergueiro porque tem mais movimento, vamo, vamo!” e em clima de um filme de suspense de quinta, vão todos rumo à civilização. “Tem mais gente, é mais seguro”, alguém diz. Um deles, ligeiramente tenso, mas disposto a restabelecer completamente a calma, diz: “qualquer coisa a gente corre pr’aquele salão ali e faz o cabelo”, diz fazendo referência ao salão de beleza que, misteriosamente, está aberto àquela hora. Tudo é muito suspeito, realmente.

Eles seguem rindo de nervoso e chegam, enfim, à Senador Vergueiro, como se o simples fato de estarem lá fosse capaz de intimidar qualquer ação criminosa. Param num ponto de ônibus próximo a um bar. Estão seguros. Todos tomam seus táxis e chegam em suas casas com seus celulares, sem ferimentos, sem trauma provocado pela abordagem de um assaltante e, talvez, com um pouquinho menos de dignidade. Vai-se o decoro, ficam os celulares. Não se pode ter tudo.