O Batman da repartição

Dei uma passada rápida no banco para sacar um dinheiro no caixa eletrônico, mas, na hora de sair, acabei presa numa fila. Um homem tentava, sem sucesso, entrar. Ele já tinha colocado vários objetos no compartimento da porta giratória: um celular, um relógio, um molho de chaves, algumas moedas e outras coisas que não consegui identificar, mas que poderiam, porventura, impedir a sua entrada. Nada disso foi suficiente.

A fila atrás de mim cresceu mais um pouco e a de fora já fazia curva. Outro segurança se aproximou e perguntou se não tinha mais nada de metal dentro da mochila. O homem disse que não, mas acabou achando outro celular num dos 500 minibolsos da mochila, que de tão camuflados, mais parecem aquelas portas secretas de filmes da “Sessão da Tarde” e do “Cinema em Casa”.

A gerente da agência se apresentou. Educada, também perguntou se ele realmente não tinha mais nada de metal nos bolsos da calça e da mochila. “Um guarda-chuva? Um desodorante aerossol, talvez?”. Nada. A mulher, então, perguntou se ele se incomodaria de abri-la para que ela pudesse ver o que tinha lá dentro e assim, liberar a sua entrada. O homem disse que não era obrigado a fazer aquilo e completou: “eles (os seguranças) é que apertam um botãozinho pra travar a nossa entrada! Eu sei que eles fazem isso!”.

Burburinho na fila. Uma mulher na minha frente disse, já bem contrariada: “eu só sei que tenho que estar no ‘Bifão’ às duas em ponto!”. ‘Bifão’, como o nome sugere, é um açougue aqui de Madureira que cresceu e virou um mercadinho. A mulher de trás, na esperança de que alguém concordasse com ela (se fosse aplaudida, seria a glória), disse: “quem não deve, não teme, né?”. Só que o homem continuou lá, trêmulo, mas decidido a não tirar mais nada de dentro da mochila.

O segurança foi até a outra porta e liberou a nossa saída. A moça do ‘Bifão’ não se atrasou para o trabalho. A da frase de efeito, desaplaudida, caminhou cabisbaixa para o outro lado da calçada. A fila de fora continuou crescendo. Quem passava por ali parou para entender o que estava acontecendo. Eu até fiquei curiosa para saber o desfecho dessa história, mas fui embora porque tudo tem limite.

Espero que o nosso Batman (aquela mochila com 500 minibolsos é equivalente ao cinto de utilidades) seja um homem de bem, tenha vencido a porta giratória e conseguido entrar no banco para fazer o que pretendia. Como eu tenho a imaginação de uma criança de 7 anos, já viajei aqui: se a empresa onde trabalha está sem internet e ele, desesperado, correu no banco para honrar o pagamento dos funcionários, esse homem é um super-herói mesmo.