O preço da aventura

O Globo

Um grupo jovem e animado estava sentado atrás de mim, no BRT. Eu estava no último assento, mas o tal grupo, corajoso que só, preferiu ir lá no fundão, onde não tem mais lugar, mas sobra um espaço bom, equivalente a uma mala de Parati, modelo antigo, daquelas em que a gente ia nas viagens em família, quando era criança, quando não sobrava espaço no banco traseiro do carro.

Somos uma geração que sobreviveu a viagens a bordo de uma mala de Parati. Eu fui algumas vezes na do meu tio Ademir. Eu, que sempre tive espírito aventureiro, que amava subir em árvores, que não respeitava os degraus de uma escada, o que me leva a crer que eu era uma praticante de le parkour antes de virar moda, vi naquelas pessoas um pouco daquela Renata aventureira de antigamente e que, hoje, dá vez a uma Renata travada e com joelhos castigados. Coisas da idade. A geração cadeirinha jamais conhecerá essa alegria. Jamais saberá o que é viver perigosamente.

O tal espaço do ônibus é desconfortável e muito, muito quente porque fica em cima do motor. Fui uma vez para nunca mais. Na ocasião, pus meu casaco, um livro e minha bolsa para diminuir o calor, mas não teve jeito; levantei com a bunda mais quente do que Bangu num meio-dia de janeiro. Só quem não tem paciência para esperar na fila pelo próximo ônibus ou se nega a ir em pé criando varizes é que se arrisca indo ali.

O grupo animado foi assim mesmo. Pouco antes de chegarmos à parada final, em Madureira, o único menino do grupo reclamou de dormência nas pernas por ter feito a viagem inteira numa só posição e espremido no meio das amigas. A câimbra, é claro, foi inevitável. Sei lá por que razão uma das meninas ameaçou tocar em sua perna. Instintivamente ele reagiu, aos berros: “em nome de Jesus, não toque aí!”, que eu acredito ter sido ouvido em todo o coletivo. Unido numa só gargalhada, todo o ônibus se entreolhou, se identificou e, claro, também se compadeceu com aquele sofrimento.

Tocar deliberadamente em pernas acometidas por câimbras e sem o aval de seu dono deveria ser enquadrado como crime hediondo e inafiançável. Ah, peralá! Meu corpo, minhas regras e minhas punições também, ora essa!

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