Prato limpo

Quando eu era criança, a minha mãe ficava no meu pé porque eu comia muito pouco e era muito magra. “Tá na mesa!” era a senha que acionava o meu desespero. Todos terminavam de comer e eu ainda ficava lá por, pelo menos, mais uma hora e meia.

Minhas refeições sempre terminavam do mesmo jeito: comida fria no prato, minha mãe gritando, eu chorando e pedindo pelo amor de Deus para me livrar daquela tortura. Não que a comida dela fosse ruim. Eu é que não curtia comer comida mesmo. Gostava só de Danoninho – que valia mais que um bifinho – , Nescau e biscoitos. Muitos biscoitos. Vivi anos à base de Sustagen e Biotônico Fontoura, mas nada adiantou. Era mal falada na família e tudo.

Os anos passaram e o que antes era tortura virou prazer. Pra felicidade dela, almoço e janto praticamente todos os dias. Continuo adorando Danoninho, Nescau e biscoitos. Muitos biscoitos. A diferença é que não tenho mais 8 anos e sei exatamente o estrago que cada colherada de Danoninho faz no meu corpo.

Recentemente, ao me ver vestindo a roupa para ir trabalhar, a torturadora de criancinhas virou e disse: “tá bem gordinha, hein, Renata? Acho bom você dar uma maneirada…”. Sabe o que é isso? É a vida, esta senhora sacana, dando uma bela gargalhada na minha cara.