Cordialidade e a preguiça de pensar
É uma tristeza ver pessoas que eu considero inteligentes se deixarem levar por uma racionalização rasteira dos fatos apenas para manter o seu viés de confirmação. Sergio Buarque de Holanda certa vez disse que o brasileiro é um homem cordial. Ele não estava falando sobre polidez ou bons modos, mas sobre a relação da palavra cordial/coração. Temos pouca disposição para usar o cérebro. Quando usamos, fazemo-lo mal, já que não estamos muito acostumados. Nós brasileiros, acima de qualquer coisa, raciocinamos com o fígado. Tirando as figuras de linguagem anatômicas, em resumo, quero dizer que somos emocionais. Isso, em tese, não é ruim. É uma característica até apreciada por estrangeiros. Cantores internacionais gostam do público brasileiro justamente pelo frenesi que apresentam perante seu ídolo. Nossos músicos são elogiados ao redor do mundo pela criatividade e sensibilidade. Mas isso tudo é um baita obstáculo quando o assunto requer deixar de lado preferências ou ideologias e ser racionalmente objetivo. Isso inclui, óbvio, a política.
Na recente tragédia do incêndio do Museu Nacional, não demorou muito para os engajados partirem para as acusações. Se um lado brada e culpa a PEC dos gastos, o outro lado aponta que o descaso vem de muito tempo atrás. Os dois lados têm razão em partes. Não que eu ache que a PEC dos gastos tenha alguma coisa a ver (na verdade não tem nenhuma), mas a acusação de que esse governo é um retrocesso e extremamente negligente na área cultural, é uma crítica muito acertada. Porém esse governo só faz exatamente o que os anteriores já faziam: nada ou muito pouco. Contudo ninguém gosta de admitir. E os poucos que admitem já vem com a famosa frase “eu concordo que todo mundo tem sua parcela de culpa, MAS…”. Sempre tem um “mas” pra justificar sua opinião e criticar o lado adversário. A hipocrisia reina. Se por um lado parte da direita é hipócrita por achar que História é só um criadouro de socialistas e defendem o fim do Ministério da Cultura, parte da esquerda também é por governar o país por mais de uma década e deixar nossos patrimônios desmoronarem a olhos vistos e arrastarem a educação para o porão do fundo do poço.
Mas assim seguimos o nosso caminho glorioso rumo à beira da ravina. Uma população atrasada, inculta, avessa à ciência, que enche a boca para dizer que tal cidadão “nunca precisou estudar pra ter o que tem”. Continuamos preferindo defender o próprio lado e, vejam só, criticar quem tenta ser objetivo e imparcial, pejorativamente chamado de “isentão”. Nessa disputa cordial sobra ignorância, incoerência, certa dose de má fé e o que resta são cinzas e entulhos.