Waru — A casa nos constrói

Renato Inacio
Jul 6 · 13 min read

Story by Renato Inácio for Enspiral Story Dojo #1

Ele tinha acabado de cair no sono. Eu estava olhando para ele pelos últimos 40 minutos ou algo assim. Do lado de fora, tenho certeza que parecia um momento de conexão entre pai e filho recém-nascido. Pais de primeira viagem costumam ter esse hábito de olhar meio hipnotizados para seus bebês.

Mas a verdade é que eu não estava mais olhando para ele. Minha visão estava fora de foco, minha atenção para dentro. Três dias depois que meu primogênito — Micael — veio a este mundo estranho, eu me dei um quebra-cabeça insolúvel: “O que ensinar a essa criatura?”

Esta questão trouxe as coisas em perspectiva de uma maneira inquietante.
Eu sabia como pedir pizza, como pagar impostos ou como dirigir um carro. Acima de tudo, morando na megalópole de São Paulo, fui aperfeiçoado e moldado como profissional. No entanto, nada disso parecia fundamental, intrínseco à vida. O que seria então? Me perguntei enquanto vagava pelas ruas iluminadas da cidade.

Uma respiração concreta

A vida é relativamente suave para um diretor de arte na “New York Brasileira” — ou assim eu pensava enquanto comia sushi de salmão defumado acompanhado de chope belga. As pessoas acham que Paris ou Sydney são grandes cidades, mas apenas se nunca experimentaram algo como minha cidade natal. Mesmo a New York original é ofuscada pelos nossos 12 milhões de habitantes (e contando). Qualquer coisa que qualquer outra cidade grande tem a oferecer, nós a temos com bacon extra no topo.

Talvez a coisa mais importante que uma cidade grande tem a lhe oferecer seja o acesso ao conhecimento, particularmente o acesso a pessoas com conhecimento. Não importa quão específica seja sua área de interesse: talvez você seja um grande fã de reality shows de panificação. Bem, há uma chance real de um especialista nisso visitar sua cidade um dia ou outro.

Então eu olhei longe e amplamente para as pessoas que pareciam carregar um pedaço do meu novo quebra-cabeças — quais são os fundamentos de uma boa vida. Uma dessas pessoas foi a Joanna Macy, uma anciã, uma incrível ativista ambiental americana e estudiosa de budismo. Me inscrevi para uma imersão chamada “Nossa vida como Gaia”.

Algo em mim havia mudado.

Comecei deixar de tentar encontrar respostas precisas para as questões importantes e, em vez disso, procurava sistemas que operam em torno dessas questões — senti que meus questionamentos eram de alguma forma novidades. Se precisamos de comida para viver, então de onde ela vem, o que ela faz dentro do meu corpo e para onde ela vai? Eu me interessei por permacultura, bioconstrução e pensamento sistêmico, e passei todas as minhas horas livres tentando aprender a aplicá-las eu mesmo.

Não foi de modo algum um processo rápido: anos se passaram, e tivemos outro menino — o Lucas, e ainda assim a bola continuava rodopiando em torno do aro, levando seu doce tempo para cair na cesta. No entanto, o caminho levou a uma conclusão inevitável (e estranhamente atraente) — a vida urbana de São Paulo, assim como era a de nossos pais, não estava nos favorecendo a ensinar as coisas realmente importantes para nossos filhos.

Alguns meses depois de mais uma imersão em permacultura, minha esposa Maga e eu finalmente criamos coragem suficiente para fazer nossa grande jogada de pôquer: apostamos tudo. Vendemos nosso apartamento, nossa TV, nossas cadeiras, nossas malditas maçanetas… — tudo para alimentar o sonho de comprar um pedaço de terra nos arredores verdes e frescos de nossa cidade.

Sabe aquela expressão “Quando cheguei, isso aqui era tudo mato” — Bem, no nosso caso, isso foi literal. Nossa amada nova casa ainda não passava de um monte de mato e mais arbustos do que você acreditaria. Na verdade, era tão selvagem — tipo Idade da Pedra mesmo — que alugamos uma pequena casa na área urbana. Um arranjo provisório para que pudéssemos começar a preparar nossa nova casa.

Enquanto eu passava grande parte do tempo tentando levantar dinheiro para nossa vida diária e pagar os muitos serviços especializados que uma nova casa precisa, Maga estava fazendo malabarismo entre cuidar de nossos meninos, descobrir onde obter materiais de construção incomuns e ensinando yoga. Felizmente, uma Maga sempre pode contar com seus encantamentos.

Então, a verdadeira jornada começou … do sonho ao desenho, do desenho à construção. Com nossas próprias mãos.

‘We’re not in Kansas anymore’

Tudo bem, nós usamos bastante nossas próprias mãos, mas claro, nem tudo era trabalho manual — e isso era um problema.

Duas almas urbanas, agora vivendo numa minúscula cidade, era um baita desafio: se você precisasse de algo, nem sempre estaria disponível. Isso pode parecer bastante normal para muitos de vocês, mas para mim era extraterrestre. O que você quer dizer quando diz que nenhuma loja na cidade tem peças sobressalentes?

É incrível quantas coisas eu dava por certo — lembro que depois de nosso segundo mês eu teria vendido minha alma por uma simples máquina de lavar roupa. O sinal do telefone tornou-se um luxo, a eletricidade nem sempre era garantida, a internet era instável (e honestamente ainda é). Lembro-me, anos depois, de passear por São Paulo apenas olhando o asfalto na rua e pensando “obrigado por estar aqui”, e também imaginando todos os trabalhos invisíveis que essa coisa abençoada ali representava.

Alguns dias os deuses do campo estavam tão descontentes com a gente que dirigíamos pra algum lugar e quando íamos voltar pra casa, a estrada de terra tinha sido destruída por uma tempestade tropical. As vezes o que havia sobrado da estrada era aniquilada por alguma festiva manada de jeeps offroad.

Quando isso acontecia, o que nos restava era dormir no chão da casa de alguém. Não posso agradecer-lhes o suficiente por tanta gentileza, mas ainda assim sentia que a situação era de certa forma meio humilhante e frustrante. Por que deixei pra trás meu confortável apartamento e meu aplicativo de entrega de comida para colocar meus filhos para dormir no sofá de alguém?

Durante momentos como esse, eu olhava para os meus filhos e esperava ser castigado — acho que a Maga e eu sempre estávamos muito antenados com a crises financeiras e de infraestrutura acontecendo quase diariamente e nos preocupávamos se nossos pequenos estariam bem. Em vez disso, eu os encontrava dormindo profundamente. Para eles, dormir no sofá de alguém era apenas parte da vida — eles se adaptavam muito mais rápido do que nós. Olhando para eles, relaxava os ombros e as preocupações. Parecia estar vivendo dentro de um daqueles filmes da Pixar em que as crianças entendiam algumas camadas do roteiro e os adultos entendiam outras. De alguma forma, estava funcionando: todo esse ‘chamado pra aventura’ já estava ensinando muitas das lições realmente importantes.

O problema era com os adultos.

Eu estava fazendo lidando com todas as minhas tarefas o melhor que podia, então ainda podia manter meu antigo trabalho de diretor de arte remotamente. Foi complicado e causava dor de cabeça, às vezes, mas dava pra levar. A Maga enfrentou um período ainda mais difícil: enquanto vivíamos em São Paulo ela dava aulas yoga em academias, para alunos particulares e ganhava uma grana boa — na verdade, ela ganhava mais do que eu e tinha uma dinâmica diária bem gratificante. Agora, de repente, ela estava ganhando quase nada. Pela primeira vez desde que tinha saído da casa dos pais, ela se via financeira dependente.

Você pode pensar que está pronto para encarar isso, pode planejar passo a passo na sua cabeça, mas não está. Você nunca estará. Talvez se você soubesse o quão difícil seria, sua coragem não seria suficiente.

Alguns dias eram bons, outros ela vagava pela casa sentindo-se sozinha, mesmo quando eu e as crianças estávamos por perto. Rolavam discussões entre nós e de novo vinha aquela sensação de que diabos estou fazendo aqui. Eventualmente, ela encontrou um emprego como professora de educação física em uma escola local — era um trabalho duro: tinha que lidar com metodologias de educação bastante arcaicas e o dinheiro uma mera sombra de seu antigo rendimento de São Paulo.

No entanto, foi um recomeço e acima de tudo, foi a deixa perfeita para ela se conectar com a comunidade local.

Era o começo de uma primavera emocional — e as recompensas logo se seguiriam.

Distintos membros do público

Imagine: uma noite agradavelmente quente no meio de um lugar selvagem, em torno de nós uma cacofonia de grilos e rãs. Estamos todos nos preparando para ir dormir enquanto os vaga-lumes fazem belos padrões em todos os lugares — precisamos nos lembrar deles porque hoje à noite minha família e eu estamos dormindo dentro de uma barraca de camping.

Ao nosso redor, paredes inacabadas na casa recém habitada. Há mais tijolos hoje do que ontem. Estamos todos sorrindo, conversando sobre janelas e tamanho da cozinha: nosso novo local é tão personalizável que parece um lego colossal.

É incrível como a liberdade pode paralisar você às vezes. O início da construção foi um pouco atrasado, exatamente porque poderíamos fazer qualquer coisa! Quão grande você faz sua casa quando as únicas limitações são sua imaginação e vigor? Como você organiza os quartos? Nós realmente precisamos de quartos? Por quê?

Tudo aconteceu um dia quando eu e a Maga estávamos rabiscando casas possíveis. Meus primeiros 14 desenhos pareciam versões do mesmo modelo antigo com vários tamanhos de salas de estar e banheiros. Como artista, eu sabia que aquilo ia dar em nada, então peguei outra folha em branco e comecei com algo diferente: um círculo. Clicou.

Perspectiva e contexto sempre foram grandes impulsionadores. Condições geográficas e climáticas funcionaram como restrições para orientar decisões ousadas. Leste, Oeste. Norte, Sul. As direções dos ventos fortes, os caminhos do sol do solstício ao equinócio. Eu me sentia vivo e o papel sabia disso.

3 meses depois, nossa nova casa parecia uma grande tenda de circo, uma ilusão impulsionada por nossa quase ausência de paredes internas. Diferentes espaços separados apenas por grossas peças coloridas de tecido. Eu tenho que dizer, realmente parece um ótimo lugar para brincar: então meus filhos brincaram. Eles correram e subiram nas janelas que construíram — até mesmo uma janela redonda por sugestão deles! Por que não?

Novos amigos, moradores locais, realmente se esforçaram para nos ajudar desde empilhar tijolos até instalar o sistema elétrico, ficaram encantados. Desde o início, nosso novo local foi um ponto de encontro poderoso: seguiram-se aulas de didgeridoo, eventos de comida local, oficinas de técnicas de construção ecológica. Encontros sobre educação aconteciam frequentemente. Recebemos pessoas de várias partes do mundo e até — para minha total satisfação — alguns mestres Jedi da Permacultura.

Foi um sonho.

Exceto quando não foi.

Eu vi os caras à distância

Não foi a primeira vez que isso aconteceu, mas logo saquei que dessa vez seria diferente. Enquanto me preparava, cobrindo o corpo com a mais grossas das minhas roupas, mesmo sob o sol abrasador do Brasil, os caras desapareceram. Isso significava que estava prestes a começar.

O fogo começou timidamente, como sempre acontece — um brilho alaranjado colorindo o verde da área de reflorestamento. O vento e o dia seco agiram e rapidamente as chamas estavam rugindo. Por muito tempo eu me senti tão irado que me recusei a acreditar que havia razão para alguém incendiar uma área de recuperação florestal, eu prefiro pensar que as pessoas que fizeram isso eram apenas más. Acontece, claro, que às vezes esses incêndios tem motivações que vão permanecer insondáveis.

Eu estava sem perder tempo, fazendo a última preparação: um banho de água fria encharcando as roupas grossas. Isso serviu para atenuar o calor, mas também para aguçar meus sentidos.

Sempre me pareceu que a pior parte de lidar com os incêndios era ser forçado a destruir o que estava crescendo: uma grande parte do trabalho de combate a incêndio era manter as chamas longe do combustível, o que significava remover vegetação da sua possível rota. Eu sabia que o fogo era mais forte do que eu, então eu sacrificaria uma parte da área de reflorestamento como um tributo a essa entidade enfurecida — e faria o possível para criar algum tipo de barreira onde o fogo não pudesse se espalhar mais adiante.

Eu tive sorte nas duas primeiras vezes. Desta vez, quando cheguei mais perto da ação — todo o meu corpo suando muito — eu pensei que aquilo era grande demais. Será que eu teria que correr de volta para casa, salvar alguns pertences preciosos e fugir? O fogo se espalhava tão violentamente que cheguei a imaginar a casa dos meus sonhos virando cinzas.

De alguma forma eu continuei e chegaram mais pessoas para ajudar — não acho que meu cérebro estava funcionando em seu estado normal naquele dia. Enquanto eu lutava desesperadamente contra as chamas (e até lutei por minha própria segurança uma dúzia de vezes), fiquei pensando que era tudo em vão. Era grande demais, rápido demais, destrutivo demais. Por que essas pessoas atearam fogo a este belo lugar? Fogo grande. Rápido. Destrutivo.

No final do dia, muito tinha se perdido mas a casa estava segura. Meus músculos doendo, eu pensei comigo que levaria mais de um ano para reconstruir e plantar tudo o que perdemos, e quem sabe quando eu vou ver os caras ao longe de novo? Eu não chorei naquele dia depois do incêndio, mas tinha uma expressão sombria e desolada por trás da cara pintada de fuligem.

A Maga —esgotada de tanto ir e vir dando apoio durante o auge do enfrentamento ao fogo, se aproximou de mim notando meu péssimo humor. Ela esperou pacientemente até eu estar pronto para me comunicar, isso levou um tempo. Perguntei: por que eu ainda me importo? Por que eu me arrisquei nesse incêndio, se o fogo uma hora voltaria a ser despertado pelo próximo piromaníaco?

Naquele dia ela me disse algo que nunca vou esquecer:

Você não saiu para apagar um incêndio hoje. Você saiu para mostrar aos nossos filhos como encontrar forças e lutar pelo que você se importa.

O que vem depois de casa

Mas o próximo incêndio ainda não chegou e tudo foi reconstruído e até expandido. Se o fogo vier novamente, nós vamos lidar com isso — desta vez com mais experiência e mais ferramentas. Se alguma coisa acontecer, nós vamos lidar com isso.

Enquanto eu escrevia esse conto, olhei para cima e lá estava meu filho — o mesmo filho que eu vi em um berço há uma vida, apenas um pouco maior agora. Eu percebi que sabia tudo sobre ele.

As ideias que influenciaram nossa família a passar por essa jornada foram tão poderosas que se infiltraram em outras áreas. Nossos relacionamentos reforçaram as vigas que nós mesmos instalamos, nossas conversas são cíclicas e seus subprodutos são usados ​​em músicas. Vivemos em nossa tenda de circo e realmente conhecemos todos os detalhes — e em nós mesmos.

Ainda mais: criando esse ambiente, de alguma forma criamos um convite poderoso, um ímã social. Nossa casa está frequentemente cheia de movimento, de conhecimento, de pessoas que gostam de estar aqui.

Pareceu-nos que, de alguma forma, havíamos ido além da definição de lar — precisávamos de uma palavra nova para representar nosso estado de sintonia. Assim nos deparamos com Waru: um termo originalmente do povo aborígene australiano que significa “um modo de vida que melhora a vida de outros”. Pode soar poético, mas para mim, Waru tem um realismo muito inspirado na bioconstrução, como se a própria palavra fosse a argila com a qual poderíamos construir uma casa.

Lembro-me de um dia ouvir a conversa dos meus filhos — eles decidiram que iriam criar galinhas. Entre eles, com idades entre 10 e 13 anos, eles escolheram um lugar e um tamanho para o galinheiro, e eles se certificaram de dedicar alguma energia extra para que as galinhas não sentissem frio durante os dias de inverno. Só depois que o plano foi definido, eles vieram até mim para pedir algumas dicas e materiais. De repente eu era apenas um ajudante e não poderia estar mais orgulhoso. Estava testemunhando um novo ciclo começando.

Finalmente, tive uma resposta para algumas das perguntas difíceis que me fiz no início: o que é realmente fundamental para a vida? O que devo ensinar meus filhos para melhorar suas vidas?

Melhor ainda, eu não tive uma resposta: eu tive um processo. Tudo o que eu estava pensando que eu deveria ensinar meu filho recém-nascido todos esses anos atrás provou ser uma via de mão dupla. Eu aprendi tanto quanto eu ensinei. Cada nova ideia teve um imprevisto efeito cascata. A quantidade de ajuda que tivemos foi enorme.

Esta não é uma lição que você aprende em livros: você precisa vivê-la todos os dias. Nossa água da chuva capturada se torna nossa próxima sopa. Nosso ‘lixo’ fornece os nutrientes de que as bananeiras precisam. Nossas conversas se transformam em convites para a comunidade e, eventualmente, encontros, aulas, livros.

Todo sistema é pensado — do isolamento elétrico aos gatilhos emocionais. Estamos em contato constante.

Nós dependemos uns dos outros e não queremos de outra maneira.

Sim, essa é a minha casa. Mas também é mais que isso. É Waru.


* Esta história é parte de uma nova série chamada Enspiral Story Dojo, um lugar para histórias sobre prática e transformação em uma vida com um trabalho mais significativo. * Originalmente publicado na plataforma Steemit.

Este conto foi sobre (e co-escrito por) Renato Inácio, um entusiasta de design e permacultura que vive em Piracaia no interior de São Paulo, Brasil.
Com contribuições de Margareth ‘Maga’, e dos Waru Boys (Micael e Lucas).

Estrutura narrativa, estilo de escrita e versão original em inglês por
Joriam Philipe, catalisador da Enspiral. *

* Se você está curioso sobre a Enspiral e seus participantes, pode ler mais aqui ou apoiar a iniciativa. *

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