Se possível, não me chamem de doutor (ou cara, cadê meu doutorado?)

“Longa vida aos que conseguem se desapegar do ego e ver a graça da coisa” — Parece que foi Martha Medeiros quem disse isso, e deve ter doído bastante tanto pra ela que escreveu como pra quem eventualmente leu.

Existem poucas coisas que me incomodam nessa vida: azeitona colocada no meio de pastel, brigadeiro ser considerado uma sobremesa socialmente aceitável, não saberem diferenciar “mas” e “mais” e ser chamado de doutor por ser advogado.

Azeitona estraga o gosto de tudo que toca e brigadeiro é só um monte de gororoba misturada junto por pessoas horríveis, provavelmente dos mesmos criadores do pudim de pão. Escrever “mais” no lugar de “mas” me dá um baita dum desgosto, apesar de me esforçar pra entender a situação de cada pessoa.

Agora, sobre ser chamado de doutor: por favor, não me chamem de doutor.

Um pouco de contexto: eu me formei em Direito, passei na OAB e hoje trabalho como advogado. Sei que muitas pessoas usam a palavra “doutor” como sinal de respeito e até mesmo admiração, e também sei que muitas pessoas precisam desse tapinha nas costas pro ego ficar mais inflado e ficam até bravas se não forem chamadas dessa forma. Justamente por isso, por favor não me chamem de doutor.

Me chamem de “você”, de “Renato”, até mesmo de “senhor” ou simplesmente de “advogado”, mas não precisa me chamar de doutor. E agora vou tentar explicar os motivos disso:

Antes de tudo, eu não gosto de pensar que sou advogado, mas prefiro pensar que estou advogado, por mais que não diga isso por aí. É estranho pensar que uma faculdade mudou minha condição como pessoa, ao mesmo tempo que sei que é algo que é permanente na minha vida. Pensar em mim como advogado parece limitador no grande espectro da vida e parece me colocar acima dos outros, coisa que jamais quero que ocorra. Parece que me coloca em uma bolha distante da realidade, da vida cotidiana.

Se quero viver num mundo mais igual, não posso ficar confortável com um título que sirva para me diferenciar dos outros. Se estou conversando com alguém, olhando nos olhos de alguém, eu sou tão pessoa quanto esse outrem — não existe nada que nos diferencie, e não quero que uma nomenclatura faça isso.

Mesmo assim, deixando de lado minhas considerações pessoais e visões utópicas de mundo, vamos partir do pressuposto que sou advogado. Me dediquei durante uma faculdade inteira, entreguei o famigerado TCC e passei em um exame como o da Ordem dos Advogados do Brasil para poder exercer a profissão e, com isso, poder ser chamado de advogado. E aí, ao invés de me chamarem de advogado, me chamam de doutor. Não faz o menor sentido, né?

Não fiz doutorado e dessa forma não tenho o título de doutor, mas mesmo assim a sociedade me chama assim por um tipo de imposição social existente. Dizem que é culpa de um decreto de 1827, ano do nascimento do primeiro presidente do Brasil, ano da morte de Beethoven e mais de 60 anos antes da abolição da escravatura no nosso país. Outros dizem que é uma forma de respeito, uma forma de apreço. Eu, por minha vez, digo que é nada mais que um baita retrocesso e uma celebração ao atraso.

Não sei se fui claro, mas percebem a ironia? É usado um decreto mais antigo que a invenção do papel higiênico para inflar o ego dos praticantes da lei, os quais deveriam prezar pela atualização contínua, por acompanhar o ritmo da vida fora do plano das ideias e sempre se lembrar que a vida corre além do papel e dos decretos; e essa é a vida que merece atenção dos advogados.

Eu vejo esse retrocesso da seguinte forma: essa denominação serve como um sistema de castas implícito — usamos o termo “doutor” para nos afastarmos do povo e nos aproximarmos de algo maior e mais imponente, do qual não fazemos ideia do que seja. É como se quiséssemos chegar em um degrau acima, no qual somente podem pisar aqueles que fizeram uma faculdade específica, mas sem perceber que essa escada leva à lugar nenhum.

A casta não é imposta, mas existe mesmo assim. Não é uma casta religiosa surgida do desmembramento do deus Brahma; é uma casta nascida com a entrega de um canudo com um papel. E é uma casta celebrada toda vez que se ouve a palavra doutor dirigida à meros advogados.

O diploma hoje cria nossos dalits e a aprovação na OAB reforça essa criação, o que vai totalmente contra os valores morais do direito - mas quem se importa com isso se nosso ego ficar inflado, não é mesmo?

Além de todo esse pensamento arcaico, um outro ponto que me incomoda é a desvalorização da profissão.

Ao acordar de manhã eu tenho a noção de que vou para o escritório exercer minha profissão de advogado. Todo dia, portanto, chego à conclusão que eu trabalho como advogado. Não sou doutor, não sou mestre, não sou digníssimo, não sou patrono e muito menos um paladino da justiça. Sou somente um advogado e não devo ser visto como mais e nem como menos do que isso.

Qual a dificuldade de se dirigir às coisas como elas realmente são? Qual a dificuldade de se valorizar o que se tem à mão? Qual o problema em prestigiar o seu hoje para, eventualmente, prestigiar ainda mais o seu amanhã?

Apenas um ponto sobre o qual já me chamaram a atenção: muitas pessoas usam a expressão para demonstrar respeito, apreço e até mesmo gratidão pelos serviços prestados. Nessas situações, penso que a solução simples é dizer que não há necessidade de ser chamado de doutor e pedir para que usem o você ou seja lá o pronome de tratamento de sua preferência. Pessoalmente, prefiro a proximidade de uma conversa usando “você” do que a pompa e a indiferença de uma com a expressão “doutor”. Acho que o Direito e todas as pessoas que com ele se relacionam merecem esse respeito.

Enfim, o que eu penso sobre o assunto pode ser resumido à essa reflexão: a gente tem mania de atropelar as coisas e não percebe que, às vezes, nesse acidente nós somos a vítima e não o condutor.

Trabalho como advogado e aprecio meu momento atual. Tento apreciar quem eu sou, e gostaria que a sociedade fizesse o mesmo, sem tirar nem pôr — tanto sobre mim como sobre cada um de si.

A minha profissão tem nome e deve ser conhecida como tal: advogado. E meu ego que me desculpe, mas respeito muito a profissão para me dirigir à ela com outro nome.