Essa eu vi de perto.

Meu prédio fica no alto de um morro, e a minha janela fica virada exatamente na direção da descida da rua. Então eu consigo ver a estrada descendo até se encontrar com a avenida, lá embaixo, muitos metros à frente.

Durante uma olhadela esporádica pela janela nesses momentos em que você tenta sobreviver ao tédio, do mesmo jeito que faz com geladeira quando abre a porta e fica olhando para o nada, fui surpreendido por um ato genialidade.

Uma dupla de mestres de uma inteligência fora do convencional passou pela minha visão. Estavam, os dois, bufando e xingando enquanto carregavam um carrinho de rolimã para o meio da rua. Eles poderiam muito bem arrastá-lo, já que era um carrinho. Mas essa foi só a primeira das suas escolhas erradas.

É claro que havia o mais velho e o mais novinho. Um devia ter seus 12 anos. O outro, mais ou menos 9. Nessas horas, 3 anos de diferença transformam o primeiro em um grande ancião e o segundo em seu jovem aprendiz, disposto a encarar qualquer provação para se mostrar digno de estar na presença seu mestre. Todo mundo sabe que é assim que funciona: o mais velho tem as ideias de merda e manda o novinho ir na frente pra se ferrar.

Enquanto eu ensaiava como iria contar essa história, o carrinho já estava na linha de largada. Sim, eles riscaram no chão uma linha de largada. Diga-se de passagem que eles estavam na pole position, já que havia duas marcas no chão. A segunda era para um carro que não existia. Isso só pra ter o gostinho de sair na frente. Criativo, né?

A essa altura do campeonato, minha área VIP já contava com Dorito’s e cerveja liberados, tudo por conta da casa. A minha, claro! Mas uma aula da vida assim merece.

O gênio mais novo, que vamos chamar de GN, e o gênio mais velho, que vamos chamar de GV, estavam a postos. O GV apontava pra baixo. O GN balançava a cabeça negativamente e esfregava o nariz com a manga da camisa — sempre existe o doentinho da turma. Como eu não conseguia escutá-los aqui de cima, resolvi inventar o diálogo na minha cabeça. Afinal, o que mais eu poderia fazer? Limpar a casa, organizar e-mails ou procurar trabalho? Não!

O diálogo era mais ou menos assim:

Cara! Vai dar tudo certo, confia em mim. — Dizia o GV. Tá maluco?! O piloto é você! Eu que não vou descer a ribanceira! — Respondia o GN. Nãão! Você é o piloto de testes e eu o oficial. Ainda não temos certeza da estabilidade da nossa máquina. Por isso o estagiário de piloto vai na frente, pra garantir a integridade do seu superior. — Tentava argumentar o grão mestre. Estagiário é o joelho da tua mãe, seu pau-de-vira-tripa, eu vou te enfiar a mão cheia de ranho na tua cara.

Tá certo. Talvez não tenha sido bem assim. Mas, no final, os dois futuros engenheiros da Nasa entraram no carrinho juntos. Só tinha espaço pra um. O GV sentou primeiro e o GN, limpando o nariz mais uma vez, ia se encaixando no espaço que lhe restava, meio se segurando, meio caindo pra trás. E o carrinho de madeira, que eu jurava não ter estrutura para passar da terceira casa, começou a se mexer aos poucos.

O motor de arranque era as duas mãos do GN, que parecia usá-las para, de certa forma, remar em pleno asfalto. Esqueci de comentar que era asfalto. E isso deixa tudo um pouco ainda mais emocionante. O primeiro obstáculo era desviar de um grande buraco. GV girou o volante feito de calota de Chevette para a direita, o veículo obedeceu e prontamente levou os dois para o mesmo sentido. Rápido demais, entretanto. Antes que pudesse desvirar o volante, o carrinho havia batido no meio-fio da rua. Com o impacto, GN foi jogado para cima de GV. Acabou se assentando com a barriga sobre a sábia cabecinha do seu professor, as mãos segurando o volante e as pernas pro alto.

Como resultado, o carrinho agora estava descendo de ré. E devo dizer que rapidamente. Muito rapidamente. Realmente eu não esperava tanta velocidade.

A minha cerveja já tinha acabado antes da decida começar. Mas de jeito nenhum que eu ia correr pra geladeira e perder esse show. Eu queria aproveitar todos os detalhes.

Eles já estavam chegando ao final da ribanceira e ao encontro da minha maior dúvida: como fazer para atravessar a avenida. Eu não saberia como fazer, sinceramente. Nossa dupla deveria, claro. Mas eu já não sabia o que esperar deles.

Enfim, pela primeira vez, fizeram a decisão certa. Não que tenha sido a menos dolorida. Ao menos escolheram a que salvaria suas vidas. Já falei que na descida eles atravessavam uma avenida, né? Duas vias de cada lado. Quatro chances de encontrar caminhões, carros, motos e a morte.

Ao tentar colocar o carrinho de volta nostrilhos, ou, pelo menos, virá-lo para frente, GV tirou seu pé direito de cima do carrinho e o apertou com força contra o chão, colocando toda sua esperança na sola da velha e boa Havaianas Azul do Brasil. Essa nunca desapontou as crianças em suas aventuras na rua, e nesse dia não foi diferente. A frente do carrinho começou a virar e apontou novamente para baixo. Antes que os dois conseguissem comemorar, o carrinho continuou a sua rotação. Voltou a ficar pra cima e pra baixo, girando, girando e girando. GN quase não estava conseguindo se segurar apenas com as mãos no volante e com a barriga na cabeça de GV.

Algumas pessoas constroem castelos com as pedras que encontram no caminho. Outras, já acham sua salvação ali. Nessa brincadeira de carrossel que a aventura tinha se transformado, quem primeiro encontrou a pedra foi a roda do carrinho. Depois as rodas encontraram o ar e, os meninos, o chão.

Falei que a melhor escolha foi ter colocado o pé no chão porque, assim, eles não passaram pela avenida. Eles falharam antes, mas venceram a morte. E isso não significa que saíram 100%.

Quem mais sofreu foi o próprio carrinho. Devo, mais uma vez, dizer que subestimei a inteligência de meus vizinhos de rua. Pelo jeito que ele se desmontou logo no primeiro impacto, o rolimã deve ter sido construído com a mesma tecnologia dos carros da Nascar. Sabe quando eles se desmontam em um segundo, virando mil pedacinhos de plástico, deixando apenas o cockpit e o piloto intactos? Esse fez o mesmo. A diferença é que ele não tinha cockpit.

Já dos dois eu não vi parte nenhuma voando. O que é uma boa notícia. Mas posso dizer que eles conheceram cada pedacinho daquele asfalto. E o asfalto também conheceu cada pedacinho deles. Em um estalo de imaginação, vi a rua se transformando em um ralador gigante, e, nossos aventureiros, em duas cenouras bem macias.

Os dois se levantaram. E eu me levantei também. Eles se olharam e eu observava tudo, nervoso. Nunca tive nenhuma relação com os dois, mal os conhecia. Mas ver duas crianças sofrendo um acidente deixa qualquer um abalado. Então, tão sincronizados quanto os integrantes de um coral, eles gritaram, correram e se abraçaram. Eu, daqui de cima, fiz o mesmo. Levantei os braços, berrei entusiasmado me sentindo o chefe de uma equipe de Fórmula 1, que comemora a vitória como se fosse ele mesmo a passar pela linha de chegada. Alguns Dorito’s voaram e tomaram conta do quarto junto com a minha empolgação.

Minha vontade era de patrocinar esses dois. Eu queria construir um novo carrinho com eles, incentivá-los a fazer tudo novamente. “Vamos de novo!” Essa frase eu tenho certeza que saiu da boca de um dos dois.

Tão vagarosamente quanto eles subiam o morro, os meus níveis hormonais voltavam ao padrão. Coloquei as mãos na cintura, olhei para o chão sujo de triângulos alaranjados, soltei um “Ufa” e comecei a me recompor.

Depois de pensar melhor, percebi já que tinha batido a minha meta de entretenimento diário. Isso tudo tinha sido muita aventura pra um dia só. Hoje, escrevendo isso aqui, até que bateu uma empolgação. Não ao ponto de procurar os meninos e ajudá-los com sua nova engenhoca. O que eu posso dizer é que vou acompanhar o desenvolvimento desses garotos na vida. Não por admiração, mas só pra garantir que eu nunca vá usar algum carro, ônibus ou qualquer outra coisa que tenha sido planejada por eles.

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