Do décimo andar

René Mensonge
Jul 27, 2017 · 1 min read

vejo as janelas tão vazias quanto as pessoas que estão lá dentro

uma cidade viva de almas mortas

.

as placas e letreiros acham que me enganam

acham que podem mandar em mim

do it!

.

posso andar sem ser reconhecido. E sem encontrar nenhum sorriso

as luzes estão sem cor. O mar quebra suas ondas em silêncio,

e as pessoas transam sem gemer

.

um formigueiro com minúsculas criaturas que não sabem o que fazem

andam uma atrás das outras, atrás de um doce colorido

os vorazes competem com as alturas das coberturas

.

e daqui eu sou o único que vejo

e vejo tudo.

vejo a amante querer ser amada

e a mulher fingindo amor

vejo o cheque sendo preenchido. E o carro-forte voltando

e vejo o cachorro. Vejo o mendigo e vejo a puta

.

todos cinza. Sem graça. Criaturas medíocres

.

arregaço a cortina e berro para o vizinho

“você é corno!”. Ele ri de volta e me deseja um bom dia

.

acho que me tornei o louco do décimo andar.

o sol nasce e mesmo assim ninguém acorda

René Mensonge

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