Quantos “likes” Van Gogh ganharia?

Verificando a relação entre reconhecimento e qualidade.

Arles, 1888. Um pintor trabalha solitariamente em seu ateliê com toda energia. Frequentemente sai para pintar ao ar livre os arredores da cidade. Apesar de toda sua dedicação, ainda não vendeu nenhum dos seus quadros com grossas camadas de tinta. Poucos são os “amigos” pintores que lhe dão atenção, geralmente ignoram suas cartas de palavras tão enérgicas como as cores de suas telas mais recentes.

Hoje, muitos conhecem a história de Vincent Willem van Gogh, reconhecida como uma das mais trágicas da história da arte. Não é por menos: a vida do holandês envolveu conflitos familiares espinhosos, um caminho profissional tortuoso, doenças graves no corpo e, principalmente, na mente. Nunca conseguiu a sonhada independência financeira, sobrevivia com dinheiro enviado por seu irmão mais novo. A vida amorosa e sexual ocorreu quase que exclusivamente com prostitutas. A morte não demorou: faleceu aos 37 anos, devido à um disparo acidental no abdome (não, não foi suicídio*).

Enriqueceu somente no túmulo. Sua cunhada viúva fez com que suas obras e sua biografia se espalhassem pelo mundo, colocando seu nome ao lado dos maiores mestres da pintura. Seus quadros estão entre os mais caros já vendidos. Se tornou um dos percursores do expressionismo, movimento artístico que nem viu nascer. Vincent, sem dúvida, estava à frente do seu tempo.

Não é curioso que, por mais inovador e revolucionário que foi seu trabalho, tenha sido ignorado pelo mercado, ridicularizado pelos colegas pintores e visto como a ovelha negra de sua família?

Todos os dias, diversos artistas dos mais variados gêneros (fotógrafos, dançarinos, músicos, etc) postam trabalhos em suas redes sociais e aguardam ansiosamente o número de curtidas subir. O raciocínio é simples: se recebi muitas curtidas, estou no caminho certo e sou bom, já se recebi poucas, tem algo de errado na concepção do meu trabalho ou ele é simplesmente ruim. Viram reféns de números, chegando até mesmo a apagar postagens que ficam abaixo da média, um claro sinal de rejeição à suas criações. Na minha curta jornada de vida, ouvi mais de uma vez tristes relatos que confirmam esse padrão de pensamento.

Veja bem, acho fantástico que as pessoas compartilhem suas produções pela rede, visto que é algo que pode gerar inspiração, críticas, sugestões, troca de experiências e crescimento ao artista e ao público. Porém, é importante salientar que reconhecimento não diz nada sobre a “qualidade” do que você produz, até mesmo devido ao conceito de “qualidade” depender de tantas variáveis que chega a ser intangível.

(Van Gogh: Os comedores de batata, 1885 — óleo sobre tela) Obra que foi duramente criticada por Anthon Van Rappard, colega pintor de Vincent.

Então como saber se você está de fato no caminho certo do seu desenvolvimento? Bem, meu caro, não é através de joinhas ou corações que você vai descobrir isso. Mesmo que tenha recebido centenas de likes na sua mais recente foto, ela pode simplesmente cair no esquecimento na semana que vem. E talvez aquele trabalho que não tenha sido valorizado pela grande massa por ser muito “esquisito” chame a atenção de alguém ou sirva de base para o desenvolvimento de uma nova pesquisa estética. Enfim, não tenho dúvidas de que “análise de curtidas” é um dos meios mais ineficientes de categorizar a relevância ou qualidade de qualquer coisa.

Por isso, quando executo alguma coisa, tento sempre manter em minha mente um trecho do I Ching, livro milenar que é base do pensamento e filosofia chinesa:

“ Se não pensamos na colheita enquanto aramos, nem no uso do campo quando o preparamos, então será favorável empreender algo — Todo trabalho deve ser realizado por seu intrínseco valor, de acordo com o momento e as circunstâncias, e não com vistas ao resultado.”

Quando Vincent concluiu “A Noite Estrelada”, internado no sanatório em Saint-Rémy, enviou o seu trabalho à seu irmão Theo, que era um importante negociante de arte. Ele não achou a representação abstrata da natureza boa, disse que preferia a pintura anterior “Noite Estrelada Sobre o Ródano”, que tinha recebido elogios não só de Theo, mas também de outros que chegaram a vê-la. Vincent concordou com a crítica recebida e classificou o quadro mais recente como um fracasso.

Consegue adivinhar qual versão se tornou ícone de uma das maiores obras primas da história?

Van Gogh: Noite Estrelada Sobre o Ródano, 1888 — óleo sobre tela
Van Gogh: A Noite Estrelada, 1889 — óleo sobre tela

*Sobre o ferimento fatal de Vincent: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/afinal-van-gogh-nao-se-suicidou-foi-vitima-de-uma-bala-perdida-1516907