Nua.

Eu jurei para mim mesma que não escreveria, mas cá estou, abrindo os 78 cadeados, um por um, tirando cada armadura que coloquei com a intenção de me proteger. Despindo minha alma para mim e para você.

Eu costumava me sentir como uma loba — correndo livre pela floresta, como a filha do vento — indomável. Como a água da chuva — cristalina. Eu era destemida, despejava todo e qualquer sentimento no papel, por mais doloroso que ele fosse, escrever era meu refúgio, a minha calmaria, mas por outro lado, tornava real toda a dor que eu sentia.

E eu não queria mais sofrer, eu não queria mais sentir tanto, eu vivia do 8 ao 80, estava feliz ou em prantos. Eu me sufoquei, com remédios, e drogas, e festas, e noites sem dormir. Eu me sufoquei de tamanha forma que nem percebi que aos poucos eu deixava de sentir, tornei-me oca e envolta nos meus próprios medos e segredos.

Hoje, estou mais calma, mais feliz, mas ainda assim, tempestuosa. Onde foi que eu me perdi? Eu senti falta de toda a intensidade que constituía as moléculas do meu corpo, intensidade essa que em minhas crises ainda é capaz de me levar ao chão.

Ultrapassei o limite, cruzei a linha, abri os cadeados. Eu não quero mais temer o que sou, quem eu sou e o que sinto. Hoje, eu tenho força o suficiente para controlar minha vida e minhas emoções, elas não mais me controlam. Assumo o risco e sigo em frente, não mais temerei a minha vulnerabilidade, mas jamais, sob hipótese alguma, eu permitirei que alguém me fira. Pois a chave que abre as minhas boas emoções, também abre a minha fúria.