“Não existem habilidades inatas”

Episódio 1 da websérie com Charles Watson

Texto de Ariel Rossi Griffante e Fotos de Fabrício Barreto

Com curso recomendado pela Universidade das Artes de Londres, talvez Charles Watson seja o pensador contemporâneo que mais consegue atribuir significado prático à máxima popular segundo a qual criatividade é 10% inspiração e 90% transpiração. Para o ‘pesquisador na área de criatividade e desempenho otimizado’, como ele mesmo se define, os três comportamentos a seguir são centrais para o envolvimento com criatividade em qualquer ofício, formando caminho para a realização: A relação entre intensa curiosidade, envolvimento passional e conhecimento adquirido sobrepõem-se à ideia de talento (como habilidade inata) na produção criativa; Persistir até conhecer a fundo as regras de um sistema; Observar as semelhanças de processo como maiores do que as diferenças de linguagem. Formado em Arte e Literatura pela Bath, da Inglaterra, o escocês radicado no Brasil leciona desde 1982 na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. A prática e a pesquisa em ciências, negócios, literatura, música, arte contemporânea e filosofia, focando nas similaridades conceituais entre as diferentes áreas, resultaram no desenvolvimento do curso ‘O Processo Criativo’, recomendado pela Universidade das Artes de Londres, da qual é consultor, desde 2004. Em mais uma edição da iniciativa, em Porto Alegre, no primeiro semestre de 2015, o pesquisador conversou com a Revista Live, e discorreu sobre os principais conceitos que formulam sua abordagem. Confira:

Talento

O dicionário Aurélio define talento como “habilidades adquiridas”, o que eu acho mais sensato do que os dicionários Oxford e Cambrigde, que falam em “habilidade inata”. Não existem habilidades inatas. A habilidade de tocar piano não é inata — as redes neurais associadas com o movimento dos dedos numa aprendizagem de piano não existem quando você nasce. Elas começam a ser formadas a partir de, surpreendentemente, tocar piano. Quando você toca, cria novas redes neurais, produz quantidades de mielina, que é uma capa de isolamento em volta dos axônios, que faz com que, aos poucos, a atividade se torne mais possível. Você não nasce com isso, você nasce com, talvez, uma predisposição de gostar de música, mas a particularidade de tocar piano é desenvolvida. Na minha experiência os melhores alunos que tive
foram exatamente compensando certas dificuldades, e não deslizando sobre facilidades. Afinal de contas, quando uma coisa é fácil, você vai no piloto-automático. Então, facilidade associada à palavra talento não é um pré-requisito muito interessante.

Metas

Em geral eu falo em meta como meio. A meta é, até certo ponto, algo relativamente falso. Na melhor das hipóteses, uma meta é necessária para você juntar seus focos e sua energia, mas, uma vez no platô de energia que a meta proporciona, você quase sempre descobre coisas muito mais importantes do que sua meta original. Acho saudável sempre lembrar que sua meta é parcialmente importante. É uma das ambiguidades inerentes à discussão de processos criativos.

Ambiguidades

Picasso falava que a arte nada mais é que uma mentira que ajuda a gente a entender a natureza da realidade. Eu acho que tem um aspecto desse nível de ambiguidade muito comum nas conversas de criadores. Algumas empresas crescem meteoricamente a partir de algumas boas ideias, mas em seguida ficam inseguras, e olham para o passado para medir como foram bem-sucedidas. Mas quando foram bem-sucedidas, elas não estavam olhando para o passado, estavam olhando para o futuro. Mas logo a empresa começa a ficar com medo de perder o que não tinha antes, mas não foi assim que ela conseguiu eficácia. O interessante é que as pessoas que fazem a diferença
em empresas, escritores, artistas, em todo o lugar, têm coisas muito parecidas. Então há um momento onde a semelhança entre essas tendências parece transcender a diferença entre as linguagens. Frequentemente em empresas uma pessoa tachada como criativa é quem melhor executa ordens vistas de cima. Não que essas ordens não sejam importantes, mas, ao mesmo tempo, não são.

Internet

A gente está passando por transformações extremamente rápidas e contundentes em tecnologia nos últimos 20 anos. Eu temo apenas que não sabemos se isso pode ser uma benção ou pode produzir transformações negativas em processos cognitivos — tem neurocientistas que argumentam isso enfaticamente. Eu acho a Internet incrível, mas passei anos formulando problemas para os quais a Internet oferece incríveis soluções. Agora, se você não estiver com problemas formulados, ela é um labirinto onde uma coisa dá em outra, que dá em outra, que dá em outra,… e acabou o dia. É como se tivesse um enorme receptáculo de respostas para um problema que você não definiu. O mundo é complexo, sempre foi, e a Internet se torna mais útil para quem formulou um problema, como sempre foi ao longo da história das boas ideias.

Futuro

Empresas normalmente são estruturadas de uma maneira que contradiz a criatividade. Se alguém tem que apresentar um projeto dentro da empresa, vai ter que, provavelmente, fazer uma justificativa não apenas do projeto em si, mas de quais serão as consequências dentro da empresa. Mas o futuro não se desencadeia assim, não é uma extensão previsível do passado. O futuro nunca dá no que a gente espera. Normalmente está repleto de bifurcações, coisas inesperadas. E qualquer sistema que não leve isso em consideração está destinado a dificuldades.

Passado

A idade da pedra não acabou porque não tinha mais pedras, e nem do ponto de vista do paradigma da pedra seria possível antecipar a idade do bronze. Quase sempre o que tem de valor em nossas ideias e tecnologias, o aspecto do futuro, não é a continuidade da linearidade do passado. Isso é o que a gente chama de coerência retrospectiva. Você olha para o passado e parece que tudo deu na gente hoje. Mas isso é falso. O modelo de passado que nós criamos é uma expressão do nosso presente, porque filtramos do passado o que percebemos como pertinente. Então, até esse modelo de passado é falso.

Motivação

A semelhança entre as atitudes é mais importante que a diferença de peculiaridade entre as linguagens. Grande parte é: você quer mesmo isso? Se é o que você quer, por que seu comportamento não é de acordo? Porque, se você estiver muito interessado no que faz, vai tender a ser muito curioso sobre os arredores da sua atividade. E se não for, então, qual é a motivação? E se a motivação estiver fora, for uma outra coisa para o qual você faz o que faz, então talvez você não vá muito longe no que está fazendo.

Resiliência

É uma questão de atitude, do tipo de sacrifícios que um sistema pode fazer para garantir sua mobilidade. É o que a gente chama, em sistemas ecológicos, de robustez e resiliência. Robustez é quando um sistema se protege contra abalos, fortalece-se e fica resistente, mas, quando falha, normalmente é catastrófico. Enquanto um sistema resiliente embute a ideia de fracasso dentro da sua estrutura. Um abacateiro, por exemplo, quando dá um vento forte, racha e cai. Bambu não, ele tem outra filosofia, embute a certeza de anomalias no futuro. Então, uma das contradições na estrutura empresarial é essa. Tem empresas que estudam isso, enquanto outras, só o que deu certo no passado. Mas as circunstâncias mudaram! Isso é como um artista voltando a copiar trabalhos que ele vendeu bem. O futuro não é assim.

Evolução

Informação inútil é só informação para a qual, até agora, sabendo o que você sabe, não formulou um problema para o qual essa informação pode se tornar uma resposta. Na maioria das empresas isso não seria aceitável, porque seria gasto de energia em coisas que não podem ser previamente justificadas. Mas, para poder designar algo como inútil, você tem que saber de antemão todos os problemas, presentes e futuros, que podem vir a existir. E isso é impossível. Sistemas biológicos não apenas permitem informação inútil como dependem, para seu sucesso em lidar com o futuro, dessa informação. O próprio sistema evolutivo darwiniano funciona assim, na multiplicação de enormes leques de informação que não servem para nada, mas que podem vir a servir numa eventual mudança no meio ambiente. Todos seus investimentos quebram de vez, mas teve um que você fez, que não era justificável no passado, que ocupa esse nicho ecológico, evolutivo. Temos a previsão de um futuro infinito, mas, mesmo numa projeção de futuro estendido, a maioria da informação vai para o lixo. A questão é que esse fato não justifica a não produção, porque esse leque de informação foi necessário para poder ter uma resposta.

Criatividade

Todo eficácia criativa vem, em primeiro lugar, de uma forte ligação emotiva com o que você faz. Isso disponibiliza energia, afinal de contas, se você adora algo, vai querer estar fazendo mais isso. O mais que você disponibiliza para os nuances da sua área de atuação é que fazem a diferença. Nesse momento, as novas conexões criadas entre seus novos conhecimentos começam a acontecer. Tem o que alguns chamam de ‘momentos incendiários’, que são os que algo ‘pega fogo’ em você em relação a algum assunto. É absolutamente natural que você procure saber mais, você investiga, torna-se muito curioso sobre isso. Curiosidade cria mais disponibilidade. Tendo maior disponibilidade, você absorve mais informação. A quantidade de informação que você absorve durante um período prolongado se torna conhecimento tácito — algo que é internalizado de tal maneira que você não precisa mais pensar sobre isso. A partir desse ponto, em qualquer atividade que você faz redes neurais associadas estão se modificando, fazendo você se sentir natural dentro dessa área. Você está dentro do sistema. Potencial só se torna concreto a partir do exercício.

Paixão

Eu acabei de ler a biografia do Steve Jobs. Tem algum mistério por que esse cara lançou o que hoje é a empresa mais rentável do mundo? Ele não é um empresário. Nem os donos do Google, são engenheiros. São pessoas com paixão pelo que fazem entrando no contexto empresarial. E fazendo aparentes milagres pelos mesmos motivos: são pessoas intensamente envolvidas com ideias e com um profundo desejo de fazer algo. O livro enfatiza que Jobs vinha de um momento de tremendo otimismo sobre
mudança, enquanto estamos vivendo um dos momentos mais pessimistas de nossa história recente. Não quero ser muito cínico sobre isso, mas grande parte da vida de muita gente, para a qual são capazes de fazer um grande sacrifício, é para ter um novo IPad… Quão longe um jovem vai hoje para ter uma causa? Isso é extensão das suas condições visionárias?

Realização

“Sol na barriga com um milhão de raios” é uma expressão que Pablo Picasso usou para falar sobre Matisse (pintor francês considerado, junto com Picasso e Marcel Duchamp, um dos três artistas responsáveis pela evolução na pintura e na escultura no século XX). Em uma conversa sobre talento, respondendo a alguém que está perguntando se Matisse é um gênio, Picasso diz: “Matisse tem o sol na barriga, com um milhão de raios. Quando você está nessa condição, seu dia a dia é incrível”, o que é uma imagem muito forte. Sol na barriga é uma atitude que você tem perante a vida. O motivo pelo qual, nos meus cursos, muitas pessoas ficam comovidas é que elas sabem que não estão vivendo assim, e isso é trágico, elas sentem isso. Por isso sempre falo que não vou dizer nada de novo, mas algo que você esqueceu e precisa ser lembrado.

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Entrevista publicada na Revista Live, projeto autoral da consultoria Amaze | Marketing de Valor. Lançada em dezembro de 2012, a publicação tem como linha editorial a apresentação e discussão do novo Marketing, pautado pela produção de conteúdo como forma de criação de vínculos das marcas com seus públicos.