Esse ano eu não morro.

Os labirintos da nossa cabeça são imensos. Vez por outra a gente se coloca a certeza de como agiria em uma situação de opressão, e até mesmo se o silencio significa silenciamento. As discussões sobre didatismo e outras formas de ação contra essas opressões estão muito presentes nas conversas diárias. Não sou muto afeita ao pacifismo, mas de vez em quando me reservo no direito de tentar ser didática, mesmo nas minhas dificuldades de expressar. Usar do didatismo pra mim funciona bem algumas vezes, e surgem discussões muito frutíferas. Outras vezes não, fazer o quê. Outras vezes não tento. Dia escroto, respostas menos do que respeitosas, falta de saco, viver resitindo.

Mas creio que esse texto nem seja sobre essa discussão. Ainda não escolhi nenhum lado e o que vou contar nas outras linhas não é imutável. Foi só o que minha cabeça matutou hoje. Amanhã posso acordar com mais raiva e com menos vontade de conversar, posso juntar todo esse ímpeto talvez escondido e mandar à merda o pacifismo, mesmo. Mas continuando…

Acho importante falar. Escrevo como uma pessoa que tem depressão. Ou seja, existem subjetividades em relação a isso que podem ter afetado por demais como eu reagi a certas situações hoje. Só quis ressaltar que, nos últimos dias, tenho sim dado chances para que meu emocional fique menos ferrado, e consequentemente, que eu consiga lidar com meus desafios cotidianos sem me acabar de chorar no ônibus ou desaguar tudo na volta pra casa. Por certas coisas eu prefiro não me acabar. Essa mísera sanidade que caminha longe e volta pros meus braços em dias alternados, outros não. É preciso cuidar disso.

Hoje eu fiquei quieta. Hoje eu resolvi ficar em silêncio e tentar não explodir, não chorar, me manter sã. E senti vitória. Mesmo que não seja. Hoje eu consegui voltar pra casa e lidar com as minhas obrigações, consegui sentar e fumar um cigarro pelada na volta. E me senti bem. Calada. Grata e bem.

E acho que o que me fez sentir uma certa vitória, além de conseguir manter um pouco da sanidade, foi uma certeza. Uma certeza tão grande dos motivos da minha luta, e mais ainda a certeza de saber que eu não estou sozinha. A certeza de saber que o tal vitimismo é desculpa esfarrapada de quem não faz idéia das pessoas brilhantes que lutam todo santo dia pela sobrevivencia de si e seus ideais. E nem aqui o romantizo o que chamamos de militância. Lutar por um ideal cansa, esfola a gente, de verdade. No real e nos virtuais da vida, ser minoria e militante fode nosso emocional, nosso físico.

Tudo que nós fazemos e das pessoas que conheço, vejo o quanto essa desculpa de vitimismo é só um disfarce pra falta de empatia e desonestidade mesmo. Revolta, muito. E confesso que não foi fácil não argumentar, discutir. E por mais que possa conviver com julgamentos meus e dos outros, me calar, talvez tão egoísta de minha parte, me deu mais ainda um sentimento de orgulho, de amor por essas pessoas incríveis que me rodeiam e que hoje podem nem saber, mas me deram tanta força. Pra não chorar, pra ganhar força em silêncio, que seja.

É por causa de Sueli Feliziani, Bia Oliveira, Gabriela Moura, Murilo Araújo, Kol, Carol Morais, Daniela Amdrade, Eric Pinheiro, Raquel Gomes, Fernanda Meireles, Djamilla Ribeiro e tantas outras pessoas que perderia páginas citando, que é menos escroto acordar de manhã. É menos escroto sair da cama, é menos escroto escolher a batalha do dia, é ruim de derrubar. Espero que nenhuma dessas pessoas que citei sintam que estou sendo desrespeitosa de alguma maneira, só queria imensamente agradecer por tudo, diretamente ou indiretamente, que vocês fazem por mim. Por me ajudar mesmo sem saber, a me explodir em força de não sei de onde. Hoje a minha força foi essa. Emanar internamente esse sentimento e me resguardar a cabeça. Ontem foi brigar, depois de amanhã pode ser gritar de raiva e mandar essa talvez passividade pra merda. Mas ter certeza de onde me encontro e do quanto acredito no que acredito.

Há pouco tempo vi um vídeo do Canal Muro Pequeno, do querido Murilo, sobre lugares seguros, e como a gente precisa de um espaço de pertencimento pra poder levar essa força que as vezes parece murchar dentro da gente pros nossos espaços cotidianos. Pro nosso trabalho, outras relações que a gente tem. Eu cito um pouco do vídeo:

“O que tem de perfeito nesse meu universo paralelo que eu consigo trazer pro meu cotidiano? Quais sentimentos aquele contexto me desperta e como eu posso encontrar esses mesmos sentimentos nos outros lugares que eu vivo, mesmo com todos os desafios que tenho que enfrentar?

(…)

É um trabalho que nem sempre é fácil, as vezes a conquista desses sentimentos bons dependem de um enfrentamento muito grande, um trabalho constante que exige muita energia, e que as vezes é muito difícil.

Mas aí quando for difícil, a gente corre de novo para aquele universo paralelo que é um pouco mais seguro, recarrega nossas energias e volta pra conquistar de novo nosso cotidiano.”

Hoje eu encontrei força, uma força meio culpada mas que me renovou no silêncio breve. Mas hoje, se eu pude me sentir menos perdida e ciente do que acredito, foi pelos exemplos e companheiros maravilhosos que tive. Hoje, eu pude ter paz e confiança. E amanhã começa tudo outra vez. “Ano passado eu morri, esse ano eu não morro”.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.