“Ser feliz é pra quem tem coragem!”

Eu não tenho sequer a milionésima parte de conhecimento necessário para justificar minha “altivez”, “pose” ou qualquer outra coisa que sugira um pedantismo profissional como parte do meu show. Tampouco a mesma proporção de dinheiro para bancar o meu absoluto desapego à empresas, QI, e qualquer vínculo de devoção subordinada. Minha figura também não comporta a petulância do meu discernimento — vejam só — acerca do ambiente inundado em soberba que é o do Jornalismo. Ainda assim, a quem (des)interessar possa, eu não compro a dissolução semântica da arrogância como adjetivo que me qualifique — a despeito de sua possível divulgação.

Nunca me dispus a servo de qualquer hierarquia em que eu fosse um bibelô. Nunca ofereci capachismo institucional. Nunca me propus ao lambuzamento em verniz diplomático para palanques de politicagem, sempre carentes da solenidade do probo. E continuarei refutando a tudo num possível futuro do presente do Indicativo.

Por aqui, caminho em circuitos muito estreitos e não me atrevo a derrubar portas, mas sempre fiz questão de fechar quantas fossem preciso. Tenho insistido mais do que gostaria: eu só fico onde caibo. Não tenho o menor interesse nem predisposição para me adaptar, feito músculo flácido, às circunstâncias, aos dogmas ou acordos tácitos de que não participei da construção.

Mais uma vez o Cântico Negro de José Régio ecoa em mim. “Porque sim” não é resposta, “porque não” idem. “`Porque eu quero” não me convence. E, lamento, mas este protuberante nariz de 22 anos precisa ser convencido a cada passo. Em cada passo.

Como entendeu Fernanda Young há tempos, “a dádiva do livre-arbítrio em última instância me destituiu de qualquer responsabilidade”. Portanto, sigo no exercício de reproduzir em verbo crítico o que ouço e enxergo. Tenha o conteúdo delicadeza ou não. Porque o dia em que eu abrir mão disso, esta profissão — por hora naife — que escolhi, briguei e tenho aprendido a custos pessoais de intensidade e consequências que nem me ocupo em calcular, perderá todo o nobre valor que acredito ter.

Por feitio (inclusive astrológico), sou anacronicamente fiel, engajado e operário. Sem que exista qualquer reciprocidade. Coisa desses reles que obstinam o altruísmo como religião; cafona a ponto de não esperar por quem pensará em mim — até por que, isto faço eu, muito bem, obrigado. Mas não tente me corromper. Não tente me aliciar. Não seja inocente sobre um sujeito estudadinho e dedicado. Eu tranco a porta.

(E a menos que você seja um cachorro, não espere que eu tenha medo tão facilmente.)

Quem sabe eu descubra uma vocação para me tornar hippie? Nada mais esteticamente louvável! Sempre trabalhando com possibilidades extremas…

“Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!”
(Cântico Negro, José Régio)
  • A frase do título é de Dona Canô, mãe de Caetano e Bethânia.
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