Brasil: Consciência, Paciência, Resiliência, Coragem e Protagonismo.

Rise Ventures
Oct 3, 2018 · 8 min read

Bolsonaro ou Haddad — nem o problema, e tampouco a solução do país.

Sobre o Problema:

O problema do Brasil é a ‘desordem’ toda de seu sistema sócio-político, seus regimentos e regulamentos, implícitos ou explícitos, formais ou informais, que é reflexo fidedigno de uma cultura com alto teor de vitimização e malandragem que foi formada ao longo dos últimos ~518 anos (segundo os livros) de existência desde que os portugueses aqui pisaram pela 1a vez.

O problema — e fato que temos que constatar e aceitar — iniciou-se na colonização de exploração que trocou espelho por pau brasil, trouxe africanos escravizados e formou senhores de açúcar, de café, de minério, entre outros senhores. Tudo para exportação. Sempre levando o melhor. De forma muito pouco planejada, estruturada, sem senso de cuidado de quem veio povoar e formar uma nova vida com a esperança do novo; mas sim com senso de ambição e estratégia de quem veio extrair e levar os recursos, com a esperança do lucro.

O caldo cultural disso formado — que com todos os predicados que possa haver, e há sim muitos -, tem um imenso senso de culpa, mentira, vitimização e malandragem inconsciente. E não somente nos grandes escândalos públicos, mas também nos sutis atos, nos pequenos gestos, tanto públicos quanto privados, da vasta maioria, para dizer o mínimo, dos cidadãos que nesse país habitam. Em casa, na rua, no trabalho ou na política. Incluo-me na conta, claro. Nunca poderia ser mais preciso em conteúdo ou forma do que o Sérgio Buarque de Holanda em seu clássico Raízes do Brasil que, entre outros temas, tangencia esse com maestria.

Costumo brincar que a malandragem nasceu do cruzamento do Pelourinho com a Baia de Guanabara, nossas primeiras capitais. No comportamento médio brasileiro, o público e privado são absolutamente simbióticos, e o ‘tirar vantagem’ e ‘ser esperto’ é lei de sobrevivência. Literalmente, para muitas PFs e PJs. Adoramos encontrar culpados — pois afinal, somos ‘vítimas exploradas em nosso mais profundo inconsciente coletivo’ -, e não somos nós os responsáveis pelas mudanças. Esperamos mudança dos colonizadores; ou de nossos políticos.

Como já bem previu Platão em sua obra República, no século IV antes de cristo, é a ‘pseudo-promessa’ de um crescimento justo num estado democrático, onde a consciência e educação (de fato) mínima não é suficiente, que gera a abertura de um campo imenso de idealização. Idealização de ‘super-heróis’ externos e salvadores da pátria. Abre campo para uma espécie de ditadura – seja de ‘direita’ ou de ‘esquerda’ -, pois todo ditador teve um quórum de idealizadores relevante em algum momento. Acerca dos ‘melhores ou menos piores’ políticos, como queiram chamar, abre-se espaço para uma polarização e violência nos debates. Quem será nosso próximo salvador? Seja ele para evitar os ‘petralhas corruptos e o comunismo’, ou para evitar o ‘demônio-ditador cheio de preconceitos’?

Tristeza, sim, nosso cenário político, reconheço. Demais; reconheço. Mas o problema vai muito além do PT ou do Bolsonaro. A corrupção está em cada um de nós. Em menor ou maior grau. Qual foi o último ‘jeitinho’ que você deu? O meu foi a compra de uma carta de motorista em uma auto-escola. A corrupção está em todos os partidos, não somente no PT. O número de multimilionários, cujos salários oficiais não representariam uma vírgula de seus patrimônios escondidos, não é pequeno. Em todos os partidos. O preconceito está em todos nós, em menor ou maior grau. A começar em casa no campo familiar. A limitação para amarmos e sermos amados de forma mais plena é uma questão humana, mais ou menos evidente, mais ou menos trabalhada, mais ou menos dialogada em cada núcleo. Evoluindo estamos, definitivamente. Em passos mais lentos do que todos gostaríamos, mas adiante, seguramente. Só pensar que pagávamos impostos há pouco mais de 200 anos comercializando escravos.

O problema está enraizado em um sistema onde funcionário público não pode ser demitido por performance. Geralmente é deslocado de uma secretaria para outra, de um gabinete para outro, até nossos impostos chegarem em suas aposentadorias e de suas famílias. Como exigir crescimento, melhorias sociais, econômicas e políticas de quem não pode ser punido por falta de performance e reconhecido por mérito do resultado? Como implementar um sistema de gestão eficiente com um quadro assim? Com esse anti-incentivo à evolução? Como se muda algo desse calibre, dado que os próprios envolvidos não tem incentivo para tanto? Claro que existem pessoas competentes na política, mas acabam sendo ou absolutamente reprimidas, ou absorvidas pela máquina, de uma forma geral. Tenho amigos(as) que se reprimiram e voltaram para vida privada, e comentam que “1 ou 2 a cada 10 pessoas” estão ali para trabalhar por melhorias e resultados mesmo. Tenho parentes próximos que viram as movimentações de pessoas sem competência e acomodadas de um lado para outro nos infinitos espaços e gabinetes. Claro que existem os órgãos/ministérios melhores ou piores geridos, mas com esse funcionalismo e patriarcalismo os melhores não podem ser e não serão suficientes.

O problema vai definitivamente muito além disso. Está ao longo de ~5.600 municípios brasileiros dos nossos 26 ou 27 estados, todos com prefeitura, vereadores, indicados e passageiros, que nossos impostos bancam. Nas várias instâncias, cargos de confiança, e ‘cabideiros’ — que chegam a 40% do gasto de nosso PIB (vs. 6% em educação). Desculpe-me, mas não deveriam existir prefeituras em, ao menos, 60% ou 70% dessas cidades. Centralizássemos a gestão, com mais autonomia, nas cidades satélites maiores, e transformássemos as demais em grandes ‘centros’ com representação. Ou qualquer nome que o valha, pode escolher. A famosa reforma política. Salvaria um belo dinheiro para educar nosso povo, por exemplo.

E falando nela…A famosa educação, o grande tema para solucionar nosso longo prazo, não é? Olho para o lado e vejo familiares e amigos(as) queridos(as), amados(as)!, que estudaram nas melhores escolas privadas com mensalidades indecentes, degladiando-se com opiniões polarizadas sobre quem é o ‘menos pior’ para gerir esse sistema político — que só uma implosão em conjunto com um milagre do mais alto nível traria uma solução no curto prazo (próximos muitos anos). Vejo uma idealização platônica extrema e sinto a energia de ‘competição pela razão’ por todo lado. Uma razão seca, sem sentimento e empatia. Combatemos radicalismos sendo radicais. Combatemos violência com violência. Com piadas de mau-gosto feitas por pessoas no tempo útil de trabalho. Só nos resta roubar os corruptos achando que é o caminho correto. Tive o privilégio de não entrar em nenhum embate agressivo político, e bastante feliz estou por isso.

Dos 0–18, estudamos para passar no vestibular. Dos 18–22 para seguir uma profissão, geralmente escolhida cedo demais. O vestibular é o grande gate/prova e meta de vida que divide esse milestone educacional. Que na verdade mede muito de muitos aspectos menos relevantes, e pouco de muitos aspectos muito relevantes. Pouco aprendemos sobre meditação e autoconhecimento. Sobre a importância do auto-amor e auto-acolhimento, pois só podemos dar ao mundo o que temos e damos para nós mesmos primeiro. Pouco aprendemos sobre o universo e as estrelas. Sobre a consciência. Sobre as culturas e civilizações tribais e milenares ao redor do mundo, e sistemas autossuficientes que funcionam tão melhores do que os nossos. Acerca da integração e respeito com natureza, e entre os seres e animais que a compõem. Sobre prevenção em detrimento da cura. Sobre preservação da vida. Sobre o impacto do nosso consumo em tudo que comemos, vestimos, praticamos, moramos, usamos, ou presenteamos. Sobre alimentação realmente saudável e o poder das plantas. Sobre origem e procedência de tudo. Pouco aprendemos sobre comportamento ético verdadeiro. Sobre o caráter cinza de ser humano — nem preto, nem branco. Sobre ter crítica construtiva. Sabemos o que é proparoxítona elevada ao cubo e pretéritos-mais-que-perfeitos, mas não sabemos interpretar corretamente um texto, peça ou filme. Ou uma situação emocional. Ou simplesmente ter capacidade de nos ‘separar’ mais do outro e do contexto, para sermos menos projetivos. Não aprendemos a ouvir para compreender, mas para responder, necessariamente. E isso estou falando da classe A/B mesmo. De mim e dos meus. Sem a necessidade de descer na pirâmide social — que só piora o estado de consciência, pois esses miram o A/B como referência de onde chegar. Referência do ‘sucesso’ do self-made man tão imbuído no sonho remoto.

Poderia dissertar a respeito de dezenas, talvez centenas, de problemas institucionais — trabalhista, tributária, previdenciária, de contexto empreendedor, entre outros — que são reflexos de problemas humanos de consciência da nossa civilização. Nosso sistema como um todo é reflexo disso. Bolsonaro ou Haddad? Pode escolher quem for, sentar, com uma paciência admirável, abrir um vinho ou fazer um café/chá, talvez ligar um netflix, e esperar a próxima eleição. Ou a próxima vida. Não existe e não existirá remédio rápido e de curto prazo.

Sobre a Solução:

A solução reside no tempo. E para isso, muita consciência, paciência, resiliência, coragem e protagonismo.

Não há solução simples de curto prazo. Espero (profundamente) estar errado, mas creio que eu não verei nessa vida um cenário muito melhor. Países que poderiam ser ‘exemplo’ de desenvolvimento, sem idealizações e reconhecendo os muitos problemas humanos que por lá residem também, como por exemplo os da Europa Nórdica, estão com ao menos 1000/1500 anos na nossa frente em termos de erros, acertos e evolução em todos os campos. Empiricamente chegaram em um modelo que funciona melhor.

O Brasil é um adolescente revoltado, com frescor e imbatível, frente ao ser adulto ‘nórdico’ mais amadurecido, experiente e ponderado, cansado e mais denso com tudo que viveu. Tempo é uma parte da equação. Paciência e resiliência para observar tudo e aceitar, no fundo do coração, que as coisas tem o seu tempo de amadurecimento, são mais do que requistas para não machucarmos uns aos outros no curto prazo com nossas agressões idealizadas e esperanças infundadas perante a esse cenário.

Coragem para que cada vez mais pessoas competentes e éticas adentrem a política em suas distintas esferas. Esse cenário problemático ‘mais-do-que-estrutural’ que pintei acima só começará a sentir uma mudança quando a maioria (em influência) de nossos líderes políticos sejam de absoluta competência e caráter. Quando esses dominarem o legislativo, o executivo, e o judiciário. Precisamos dominar a câmara, o senado e o judiciário em intenção e ação. Quanto tempo para que isso aconteça? Não vejo nem perto no horizonte. Muito tempo na equação aqui. E só assim podemos começar a mexer efetivamente na estrutura do que faz nosso país ser o que é, em seu lado negativo. Após esse grande marco, pouco importará o nome do sistema que será vigente — pois sei que ele será melhor e mais justo em suas bases, princípios e regulamentos, fruto de uma liderança mais evoluída de consciência. Temos hoje claramente um vazio de liderança política competente. E isso é esperado, dada a situação acima desabafada sobre a educação vigente e consciência atual das pessoas mais ‘educadas’. Aqui estou lado a lado com todos, com a benção e a dor da observação, e no exercício da melhoria de mim mesmo dentro desse contexto.

Votemos com nossa melhor consciência agora — é o que podemos fazer. Votemos com convicção, e não por estratégia de eliminação de fulano ou ciclano. Se todos deixarem de votar em quem realmente acreditam por não serem candidatos representativos, atualmente, esses nunca terão representatividade. E a maioria política sempre será representada por pessoas sem a competência e/ou caráter para liderar mudanças efetivas. Pois quem governou nos últimos tempos foi o ‘menos pior’, e não quem acreditamos de fato. Entendo e respeito quem pensa diferente também, e tudo bem. Fazemos nosso melhor, de qualquer forma.

Claro — coragem àqueles que têm vocação pública com ética e competência, e se puder ajudar em algo, estou por aqui de portas e coração abertos.

Quanto tempo uma mudança estrutural levará? Só a história responderá, olhando para trás. Minha garrafa de vinho terminou aqui. Mas as vinícolas de vinhos naturais ou biodinâmicos ainda não, graças ao querido Universo.

Sigamos, juntos, com amor.

Pedro Vilela (na pessoa física).

Co-Founder & CEO da Rise Ventures.

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