Autoconhecimento e Espiritualidade

Rise Ventures
Nov 2, 2017 · 11 min read

Por que o Sr. Muhammad Yunus, professor de economia, escritor, e fundador do Grameen Bank, foi premiado em 2006 por seu exemplo com um prêmio Nobel da paz, e não com um prêmio Nobel da economia? Afinal, ele está ajudando a resolver um problema econômico como pioneiro do setor de microcrédito no mundo. Recebeu a láurea da paz provavelmente porque ela (paz) é uma condição que só podemos atingir se o fizermos de maneira compartilhada e integrada — seres humanos, com outros animais, meio ambiente, e universo. Enquanto tivermos uma disparidade tão grande de oportunidades no mundo, a paz ficará cada vez mais distante. Quanto mais nos distanciarmos da natureza, maior será nosso vácuo interno e nossa falta de integração.

Nessa linha, é válido ressaltar que acreditamos no atingimento da paz de maneira direcional, ou seja, estamos todos aqui nesse plano aprendendo e evoluindo. A paz é como um ‘alvo’ a ser buscado a cada dia; como uma escala em que oscilamos, mas que na média crescemos. O Nobel da Paz, originalmente, distingue o laureado com ‘maior ação pela fraternidade entre as nações, pela abolição ou redução dos esforços de guerra e pela manutenção de paz’. Do significado original, derivou-se também a atribuição da honra às pessoas ou organizações que estejam envolvidas em um processo de resolução de problemas reais da humanidade. Sem resolver esses problemas não é possível aumentar a paz, que provavelmente tem uma correlação bastante forte com bem-estar, felicidade, harmonia, senso de pertencimento, e capacidade de amar e ser amado(a).

Nesse artigo não abordaremos discussões acerca do modelo jurídico e de negócios de Yunus, que não distribui dividendos e reinveste 100% do lucro na própria causa do negócio. Nosso foco estará nos elementos que precedem a própria criação dos negócios do capitalismo consciente. Sejam eles com ou sem distribuição de dividendos. Partindo do pressuposto que somos protagonistas na solução dos problemas reais da humanidade — sendo que muitos deles nós mesmos criamos, ou são reflexos de nós mesmos -, entendemos que o autoconhecimento é a base de tudo. Ele é o caminho do desenvolvimento da espiritualidade, e que essa é a pedra filosofal da consciência e ação para transformação positiva. Essa transformação passa primeiro por solucionar nossos problemas pessoais, e depois os problemas do nosso meio. O princípio de tudo é o autoconhecimento.

Nesse direção, quanto mais nos conhecermos individualmente, mais evoluídos seremos como espécie, menos problemas criaremos e mais amor e transformação positiva ofereceremos. Simples no papel, e difícil no exercício da vida. Consideramos o tema desse artigo bastante estrutural para construção de um mundo integrado em todos seus diversos aspectos. Arriscamos a dizer que esse é o pilar mais importante nessa direção. Não há como falar de investimento de impacto, negócios sociais, ou capitalismo consciente sem abordar o tema. Por meio do autoconhecimento, desenvolvemos nossa espiritualidade enquanto espécie, e essa consciência se refletirá e permeará nossos valores, princípios, sistemas e processos — sejam individuais, coletivos, públicos ou privados.

E o que é espiritualidade? Existem diversas linhas de raciocínio, filosofias, religiões e ‘sabedorias’ que abordam esse assunto. Muitas delas se categorizam como ‘donas da verdade universal’, mas todas elas tendem a convergir bastante na essência de seus conteúdos. Com histórias, metáforas e alegorias distintas, a espiritualidade ao longo dos séculos foi sendo institucionalizada em diversos tipos de organizações humanas, imperfeitas como nós. Um ângulo comum da prática da espiritualidade em todas essas linhas filosóficas ou religiosas é a busca do entendimento de três questões centrais da vida: De onde viemos antes do nascimento? Qual nosso papel aqui nesse plano? Para onde vamos após a morte desse corpo físico? A falta de uma resposta objetiva, única e alinhada, ou de uma verdade absoluta e agnóstica não subjetiva, é um grande gerador de ansiedade para as pessoas, pois consciente ou inconscientemente buscamos essas respostas.

Existem muitas pistas para essas respostas dentro de nós mesmos. Elas não são externas e não estão do lado de ‘fora’, no meio. Assim, para desenvolver a espiritualidade, precisamos olhar para dentro e buscar nos conhecer. E esse processo é infinito. Não acreditamos em um ponto em que o ser humano desse plano dirá a si mesmo “agora me conheço, e ponto final” ou “Já sei e estou certo das respostas centrais da vida”. O autoconhecimento é uma busca infinita, um exercício diário de olhar para dentro e entender os próprios sentimentos, pensamentos, motivações e ações — separando o que é verdadeiramente de si, o que é do outro, e o que é do contexto. E com isso, a cada dia, expandir nossa consciência sobre nós mesmos, sobre o universo e a vida. Entender que o que sabemos e sentimos é infinitamente menor do que o que não sabemos e não sentimos. Se fosse uma equação matemática, o resultado seria uma limite tendendo a zero.

Sentir que o que vivemos e percebemos não passa de um grão de areia em todos os mares do universo. Sentir a infinitude do multiverso (provada cientificamente, inclusive). Reconhecer a própria arrogância como uma espécie que atribui somente à ciência a responsabilidade de encontrar todas as respostas; a lei da gravidade já existia bem antes de Newton nascer. Ou achar que tudo o que vemos ou sabemos é tudo que existe, ainda que não saibamos ou sintamos ao certo o que foi ou o que será. Como podemos ser os únicos animais na natureza, até onde sabemos, com essa racionalidade e capacidade cognitiva, e não termos todas as respostas? Como podemos não saber sobre essas questões centrais, como seres no ‘topo da cadeia alimentar’? Como podemos não controlar absolutamente tudo ao nosso redor? O desconhecido traz uma imensa dor inconsciente, uma espécie de vazio existencial.

Seguindo nessa mesma linha, de modo a maximizar nosso prazer e minimizar nossa dor e miséria, o ser humano cria milhões de convenções e sistemas para poder lidar com o desconhecido (ou vazio) de forma menos dolorosa. Para lidar com a instabilidade e a impotência de forma menos abrupta, criamos a ilusão do controle. E assim nos perdemos e distanciamos da nossa verdade, seja ela qual for. Buscamos inconscientemente condicionar e sermos condicionados às crenças e aos sistemas a todo o momento. Somos seres absolutamente convencionados a um modo de pensar e viver desde que damos o primeiro respiro ao nascimento; do leito da maternidade, até o caminho de flores de nosso velório. É importante tomarmos consciência disso para iniciar um trabalho de desprendimento. Uma das tarefas mais difíceis é ser humano autêntico.

Para ilustrar esses condicionamentos que sofremos, criamos 2 perfis em formato de estereótipo, em uma brincadeira alegórica, que acabaram de ter seus epitáfios escritos em seus rituais de morte:

Perfil (1): O Privilegiado: “Aqui jaz Fulano, que nasceu em família de classe média-alta, estudou em escolas tradicionais, tirou boas notas para conquistar sua mesada, cresceu vendo seus pais viverem uma vida dicotômica (relacionamento agressivo na ‘cozinha’ e carinhoso no ‘salão’). Virou médico-administrador-economista-advogado — ou qualquer uma das outras 5 ou 10 profissões mais bem aceitas pela sociedade e por nossos pais -, casou, teve um lindo casal de filhos. Vestiu seu filho de azul e sua filha de rosa, que cresceram heterossexuais felizes e politicamente corretos, e desenvolveram suas carreiras de forma brilhante em organizações grandes e estáveis — o que antigamente eram os concursos públicos e hoje estão virando as startups que vão de zero a 100 milhões (escolha a moeda desejada) em 5 anos. Virou avô(ó) com menos de 60 anos de idade, e ensinou seus filhos(as) e netos(as) os mesmos caminhos, jeitos e trejeitos, regados com uma agressão não intencional e inconsciente transvestida de amor e sabedoria”.

Perfil (2): O Excluído: “Aqui jaz Cicrano, que nasceu em uma comunidade com falta de água, rede de esgoto ao céu aberto, em uma casa de 32 m2 de 1 cômodo, em que moram juntos a mãe, os três irmãos, a tia e a avó viva. Perdeu o pai cedo e cresceu sentindo a falta de sua mãe que retornava do trabalho 20:45h, para dormir no máximo 21:30h, pois saia diariamente 4:15am de casa para pegar 3 transportes públicos e chegar às 7:00am novamente ao trabalho. Pedia dinheiro na rua ao invés de ir para escola, por necessidade, e ‘respirava’ a violência e negação ao seu redor. Teve sua criatividade e potencial que poderiam ser direcionados a algo construtivo limados pela falta de oportunidade, e como forma de ‘defesa’, aprendeu as leis da comunidade muito cedo, aos 14 anos. Entendeu que podia ser ‘alguém de respeito’ seguindo uma carreira brilhante na escola do tráfico, que morava ao lado, com uma arma na mão e duas no bolso. Teve 3 filhos acidentais com 2 mulheres diferentes antes dos 30 anos de idade, que cresceram em um contexto muito parecido, regado de agressão explícita sem nenhum disfarce. Foi para cadeia e lá adoeceu ainda mais sua alma”.

Nos perfis acima, tanto Fulano quanto Cicrano viveram vidas plenas de condicionamentos e uma mistura completa de si, com seus pais, com meio e o contexto. Fizeram o melhor que puderam, definitivamente, dentro de sua capacidade e autoconhecimento, dadas as oportunidades que tiveram. E deixaram para o mundo seus reflexos interiores. Claro que existem infinitos perfis que podemos traçar, todos muito limitados e longe de explicarem a real condição humana, para ilustrar o condicionamento imposto às crianças hoje em dia — do privilegiado ao excluído, do camponês ao tribal, do religioso ao moralista, do ético ao impostor, do rico ao pobre, do evoluído ao involuído. Todos nós temos um pouquinho de cada elemento polarizado dentro de nós. Onde, aqui nesse mundo, estão tratando bem (de verdade) as crianças? Com muito amor e respeito? O comportamento humano de desenvolver crenças enraigadas, ao primeiro olhar, nos ‘ajuda’ a lidar com o desconhecido — afinal, temos que ‘saber’ das coisas e ‘controlá-las’. Uma vez que aprofundamos um pouco mais a análise, vemos que ele causa o efeito oposto ao desejado. Causa uma espécie de anestesia nos sentidos e na percepção mais apurada sobre nós mesmos — que nasce no campo do sentir primeiro, e não do pensar. O pensamento desenvolve as crenças e vice-versa, e a mente se entorpece com esses diálogos internos e eternos. O sentir simplesmente ‘é’. Como a ave que voa, ou o amor dos cachorros. Não são passíveis de controle. Vem e vão em fluxo ao bel-prazer da vida.

Todos passamos pelas mesmas dores de forma distintas; somos todos agressores e vítimas junto às nossas famílias e meio. Para acessarmos, cada dia um pouco mais, a verdade sobre nós mesmos, e por consequência aumentar nosso espaço interior e paz, precisamos desenvolver a capacidade de auto-cura. Essa jornada é infinita e chave para acessar as respostas das perguntas centrais — o subjetivo conhecimento da verdade absoluta da vida, seja ele qual for para você. O princípio para adentrar essa jornada de auto-cura se chama auto-responsabilidade. Olhar primeiro e majoritariamente para dentro, sempre. Entender as questões e traumas difíceis que não podemos aceitar em nós mesmos, e trabalhar a consciência, aceitação e perdão. Por mais duro que seja. Por traumas entendamos tudo que nos traz uma memória associada a um sentimento negativo. Geralmente parte importante desses traumas são oriundos da relação com os pais na infância. Devemos trabalhar bem isso para poder honrar nossa mãe e nosso pai — nossa vida se deve a eles.

Geralmente o que negamos ou temos dificuldade no externo, começa dentro de nós. Junto com a cognição, veio a ousadia humana em tentar pensar ou sentir como o outro pensa ou se sente. E o julgamento. Precisamos reconhecer que somos animais absolutamente projetivos e que todas as questões que colocamos para fora são internas. Todas as questões externas que nos incomodam são características nossas que ou (i) não aceitamos em nós mesmos, ou (ii) nem sabemos que existem em nós mesmos ainda pois estão inconscientes. Uma outra consequência natural do autoconhecimento é a melhor aceitação da morte. Ela é tão natural quanto o nascimento. A morte é parte da vida, e portanto é a vida. Negamos a morte inconscientemente pela mesma dor do desconhecido, pela falta da resposta do que virá e a insegurança que isso nos gera. Ao negar a morte, negamos um aspecto natural e intrínseco nosso, e ao negar isso promovemos ‘morte’ fora de nós mesmos. Tudo que negamos em nós, projetamos para fora e causamos para fora. O exercício infinito evolutivo começa aqui com a auto-responsabilidade, acolhendo tudo que negamos.

O mundo, ao menos esse plano, pode ser lido também como um reflexo perfeito da projeção de todos os seres ao mesmo tempo. Um grande espelho. Assim, nossa contribuição é unicamente cuidar de si, e todo restante será uma consequência. “Ser a mudança que queremos ver no mundo” (Gandhi) é a grande missão. Quem se ama, ama. Quem se cuida, cuida. Quem se estima, estima. Que se respeita, respeita. Que se ‘bem quer’, ‘bem quer’. Quem se aceita, aceita. Todos que falam abertamente (inclusive a Rise Ventures): “Quero mudar o mundo para um lugar melhor”, querem dizer: “Quero mudar a mim mesmo para ser um humano melhor”. O acolhimento de nossas sombras é absolutamente necessário e o primeiro passo para desenvolver a capacidade de amar (a nós mesmos, e depois aos demais). Essa energia de sombra se transmuta e vamos nos tornando seres mais íntegros e curados. Trabalho para uma vida ou mais. “…Ninguém corre o risco de ficar perfeito” já dizia uma grande mestra nossa. Precisamos de muito protagonismo e pouca vitimização. Não existem culpados nesse processo. Muita auto-responsabilidade é requista. Partamos do princípio que todo problema é nosso. Depois, com mais consciência e responsabilidade, separemos o nós, do outro e do contexto, e teremos condições de ajudar de fato (a nós mesmos, e depois aos outros).

Por isso o autoconhecimento é uma necessidade, em primeiro lugar. Justamente para que, na medida da possibilidade e capacidade individual de cada um, olhemos para dentro e nos transformemos em pessoas mais próximas de nós mesmas (ou menos distantes), mais genuínas (ou menos condicionadas), mais empáticos (ou menos egoístas), e mais felizes (ou menos miseráveis). E o ‘mundo melhor’ será uma simples consequência disso. Precisamos atuar na causa, e não no efeito. Não mudaremos o outro. Na melhor das hipóteses, influenciaremos positivamente quem já está bem pré-disposto a seguir uma jornada de evolução com base em nosso exemplo. Menos palavras, e mais ação. E essa é uma linda jornada — a do ‘ser-sozinho’, mas estar acompanhado. E muito bem, obrigado.

Existem diversas ferramentas para ajudar no exercício do autoconhecimento — desde as terapias convencionais diversas (psicanalítica, lacaniana, reichiana, etc), passando pelas terapias alternativas e complementares como a yoga, a meditação, as constelações familiares, as plantas de poder, até as medicinas orientais focadas em cura pela prevenção, as ervas medicinais, a alimentação e o desenvolvimento de hábitos que fortaleçam o equilíbrio emocional e o estilo de vida saudável. Assumindo a escolha de um bom profissional nessa orientação, em qualquer que seja a linha terapêutica, não existem terapias melhores ou piores; existem as mais ou menos adequadas para cada um em cada estágio de evolução individual. Acreditamos que as terapias deveriam ser obrigatórias nas escolas, desde que somos crianças, para ajudar nesse processo de cura individual e aumento de consciência da vida desde cedo.

Por fim, só por meio dessa jornada interna e individual poderemos nos tornar melhores pessoas, e liderar movimentos que façam sentido para nós mesmos e para o mundo. A polarização e confusão que o mundo se encontra é um reflexo da nossa própria polarização e confusão. Antes de apontarmos problemas no mundo e desejarmos mudá-lo, precisamos ter consciência e aceitação de nossa própria sombra e luz para nos transformarmos. O melhor investimento de impacto começa em si mesmo — essa é a base. Daí nossas relações com todos e tudo evoluem (a nossa relação conosco, com os outros, com o meio, com as ideias e sentimentos). A primeira consequência natural será o impacto positivo em casa com sua família. A segunda será com seus amigos e no seu ambiente de trabalho, internamente. E depois o mundo sentirá essa mudança positiva por meio de seus projetos. Claro que essas frentes, na prática, são todas trabalhadas em paralelo. Trazendo esse raciocínio para o campo profissional e nossa atividade na Rise Ventures, acreditamos que os negócios que promovem inclusão de pessoas de baixa renda aos produtos e serviços essenciais, e/ou respeitam o meio ambiente, planeta, e toda forma de vida são, definitivamente, catalisadores de uma condição de paz em nós mesmos e no mundo.

Mas comecemos do começo: Qual é minha luz e minha sombra? Qual é sua luz e sua sombra? Sejamos integralmente bem-vindos(as).

© Rise Ventures (Pedro Vilela)

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