Rise Ventures
Apr 28, 2017 · 6 min read

Sabemos que o sistema capitalista nasceu do espírito protestante, cuja crença da salvação espiritual era o caminho de trabalho e acúmulo de riqueza, como Max Weber elegantemente discorreu em sua obra clássica, ‘A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo’ (1904/05). O capital, motor propulsor dessa engrenagem, é gerado por uma economia empresarial que visa a sobrevivência e o lucro. Até aí tudo bem. As civilizações evoluíram bastante com esse modelo, deixando para trás o sistema feudal e das relações servo-contratuais. A pergunta central que propomos com o artigo desse mês é: Qual o real propósito das organizações privadas de hoje, e para onde isso está nos levando?

Antes, cabe um disclaimer bastante verdadeiro da Rise que esse texto é um ‘chamado romântico’. Ele é uma visão mais caricata do mundo que sonhamos. Esse artigo tem como objetivo passar uma mensagem do tipo de futuro que queremos ter e acreditamos — como direção, não pleno atingimento. Sabemos que a imperfeição já ‘vem de fábrica’ com o ser humano, e que as organizações são meros reflexos de nós mesmos. Seres imperfeitos. Não estamos aqui para julgar nem ofender ninguém; esse não é nunca será nosso papel. Estamos aqui para auxiliar empresas que acreditamos que possuem propósitos ‘verdadeiramente-verdadeiros’. Para gerar a consciência, muitas vezes trabalhar a comunicação das ideias e conceitos no extremo pode ser um bom artifício. Pode ajudar na inteligibilidade do conteúdo, na didática e na digestão posterior. E esse é nosso intuito. Gerar debates que promovam consciência. Posto isso, vamos ao assunto de uma vez.

Há diversos temas essenciais em nossa sociedade que não permitem a obtenção de lucratividade. Um exemplo claro é o aquecimento global — que hoje é um dos maiores problemas a serem resolvidos, e que demanda uma consciência de massa em escala global. Como uma empresa pode cobrar, sem ter um produto ou serviço demandado, para conscientizar o mundo sobre o uso consciente de fontes de energia, ou sobre as necessárias mudanças de hábitos alimentares para reduzir o efeito estufa? Como lucrar para prover essa consciência? Difícil. Esses temas devem ser encabeçados pelos setores públicos e governos, pelas organizações não-governamentais, e pelos formadores de opinião ativistas. Outro exemplo: Saúde para população de baixa renda em geografias remotas onde não há possibilidade de retorno sobre investimento e/ou onde não há possibilidade de break-even operacional para uma organização privada. Voltaremos aos mesmos agentes públicos e sem fins lucrativos para atuar e resolver os problemas de saúde nessas áreas; qualquer outro formato de organização não sobreviveria. Entre diversas outras demandas e assuntos.

Do outro lado, existe uma infinidade de temas que permitem sim a obtenção de retorno sobre o capital investido por meio da geração de lucro e distribuição de dividendos. Atuando nesse universo, do ponto de vista de propósito, há as empresas (i) não conscientes ‘assumidas’, (ii) as não conscientes que parecem conscientes, e (iii) e as verdadeiramente conscientes. Note que colocamos essa ideia do ponto de vista de ‘propósito’, uma vez que todas as categorias mencionadas geram empregos e pagam impostos. Aqui a questão é quais são as organizações que vão além da empregabilidade e geração de renda, mas produzem algo verdadeiramente bem-vindo ao mundo. As não-conscientes ‘assumidas’ são aquelas que possuem produtos e serviços que causam algum tipo de dano à vida e/ou ao meio — drogas, cigarros, armas, recursos naturais explorados sem consciência, empresas que matam e/ou exploram animais e outras formas de vida de maneira irracional, organizações cujos processos produtivos são altos geradores de poluição e lixo e degradam o meio ambiente sem medidas corretivas associadas, entre muitas outras. A lista vai bastante longe, infelizmente. Essas organizações, aproveitando-se da baixa consciência da humanidade nos dias de hoje — que se reflete em uma demanda com baixa responsabilidade -, e da permissividade das leis e/ou baixa fiscalização, em alguns casos, têm como primeira e geralmente única prioridade a maximização do lucro; obviamente o que elas se propõem a entregar não faz bem as pessoas e ao meio, e suas missões são prejudiciais à evolução que tanto precisamos.

Já as organizações ‘não conscientes que parecem conscientes’ são as empresas que possuem produtos e serviços mais supérfluos ou ligeiramente danosos, e que criam ‘falsas-necessidades’ no mercado e nos consumidores a todo o tempo. Como exemplo podemos citar negócios de alimentação e bebidas de baixa qualidade para saúde. Empresa de salgadinho frito com corantes e conservantes adicionados que criam campanhas contra obesidade e chamam isso de responsabilidade social. Empresas de bebidas carbonatadas e açúcar refinado ou sucos que contém 10% de fruta com um pseudo-branding que suporta embalagens cool. Nesse linha, há também os negócios que possuem propósitos legítimos, mas que em nome da maximização do lucro sacrificam tanto a qualidade da entrega, que suas missões se tornam ‘capengas’ e prejudicadas. Um exemplo aqui é a indústria da educação universitária massificada de média e baixa renda, cujas faculdades não têm critérios legítimos de seleção dos alunos (qualquer um pode entrar e sair), e que reduzem custo com o que definitivamente não deveriam — métodos pedagógicos, salários e treinamentos dos professores, inovação. Em suma, reduzem investimentos em qualidade. Por um lado, geram acesso ao serviço, e por outro um diploma muitas vezes vazio carregado por um desempregado endividado. Tem seu mérito em dar um diploma e um emprego low-end, muitas vezes, temos que ponderar. De um lado um beijo, de outro um tapa. Reflete nosso estado de consciência, de fato, e nosso projeto de ‘ser-humano’.

A terceira e última classificação que fizemos são as empresas conscientes que, além do necessário lucro, têm o objetivo de gerar algum impacto social e/ou ambiental positivo de forma verdadeira. Verdadeira é a palavra-chave. Está na intenção, na missão e na ação. Esse movimento pode ser chamado de capitalismo consciente. Essas empresas visam gerar acesso de produtos e serviços essenciais às classes sociais menos favorecidas, por meio de modelos de negócio com menor preço e maior escala; ou gerar algum tipo de racionalização, gestão e conscientização necessária dos recursos naturais disponíveis minimizando impacto gerado com seus produtos e serviços. Educando o consumidor, muitas vezes. E muitas delas, inclusive, proveem bastante dinheiro aos seus acionistas. Exemplos são inúmeros em diversos países e setores — desde finanças inclusivas, passando por educação e saúde, até alimentação e vestuário sem agressão animal, ecoturismo e energia limpa. Além dessas, há as empresas que optam por parar de crescer em determinado momento por algum outro motivo qualitativo que não o lucro. O livro small giants, escrito por Bo Burlingham em 2005, mostra o caso de diversos empreendedores que seguiram essa linha por razões individuais — manutenção de uma cultura desejada, de uma qualidade de vida específica, de um produto/serviço feito com excelência, de um jeito particular ou outro que, invariavelmente, seria sacrificado ao pensar somente na maximização de renda líquida ou crescimento desenfreado. Esses empreendedores, que vão de estilistas a donos de restaurantes, passando por consultorias a fabricante de móveis, estão em diversas indústrias e no mundo todo.

O que proponho aqui não é ‘militância de esquerda’ ou a não-obtenção do retorno do capital, mas sim uma ponderação do que é realmente necessário e suficiente. Acreditamos bastante no poder do capital para gerar transformações positivas, e para isso é necessário o lucro. O que questionamos é a maximização da renda como premissa central e única de negócios sem propósito ou com pseudo-propósitos — desses, estamos fartos e cheios. Missão, visão e valores que irradiam incoerência entre discurso e prática. Produtos e serviços que, na média, tendem a ter menor utilidade e qualidade com o tempo, e que são oriundos de uma cultura de “criação de necessidades”.

Lucro não é o problema, pelo contrário — é parte da solução. Usemos a força do sistema, sim. Consciência é a chave. Esse tópico pode ser batido para muitos, mas infelizmente ainda não é para a maior parte da liderança pública e privada, que vive um ciclo evolutivo bem ‘aterrado’ na matéria e no ego. Pessoas bem formadas que saem de suas faculdades para buscar crescimento em alguma organização que não agrega valor real para o mundo; ou pior, desagrega. Juntemos experiência e recursos nesses lugares para aplicarmos nos construtivos. Ou transformarmos esses mesmos. Essas passagens são necessárias para nossa evolução — quase todos nós passamos por isso em algum momento e de alguma forma em nossas carreiras profissionais. Felizes aqueles que enxergam e executam possibilidades distintas e melhores. Dentro de uma empresa existente ou fora dela. Acionistas e gestores, atuais e futuros, esse é um chamado para a consciência! Construam negócios positivos e necessários. Transformem seus ambientes, não importa o setor e o tamanho. E façam dinheiro como meio e não fim em si mesmo. Tenham verdade em seus propósitos. Vossa coragem e luta valerá para o bolso e para alma. E o mundo definitivamente agradece.

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