A blusa ou os fatos de ontem

Sexta-feira à noite.

As expectativas não fundamentadas de sempre. O entusiasmo de ter em mãos a tão aguardada liberdade semanal. Nada anormal.

Planejo os passos seguintes: não dar passo algum precedido de longos planejamentos. Permito-me estar ao Deus dará. Propostas com conteúdo surpresa ou o plano B. Só sei que festejar a própria companhia será sempre bem-vindo.

Com a mente serena, caminho em direção ao quarto e no meio do itinerário faço uma graça com o gato. Teço constatações despropositadas. Avalio, reavalio, nada apuro.

Absorta nos afazeres comuns de uma sexta à noite qualquer, ouso dizer em pensamento a mim mesma que me sinto sorrindo por dentro. O motivo: um “querer mais” com endereço e telefone.

Toda essa narrativa se deu de forma sequenciada. Mas nem sei assegurar se estou sendo fiel à ordem cronológica.

Entre a fluidez de uma ocupação e outra, um cantarolar e outro, uma interação e outra um objeto me interrompe. Aquela blusa branca com estampa de gato em lugar não definitivo guarda consigo silenciosa e sorrateiramente uma profusão de sensações vivenciadas.

Ao lado das figuras felinas permanentes, o elemento fragrantemente impresso que me desliga do entorno: aquele perfume. E ele se espalha inesperadamente ao menor movimento de remoção da blusa daquele dito lugar não definitivo. Paro. Lembranças nunca pareceram tão tangíveis. Estavam todas à mão numa literalidade exemplar.

Em estado contemplativo, me permito revisitar os fatos de ontem. Revivo. Ressinto… Constato: dizem que o amor é libertador, mas nessa noite as lembranças é que me alforriaram aquele sorriso de dentro.

Não sei ao certo quanto tempo durou esse estado de comunhão, eu só sei que poderia ter permanecido assim por toda a eternidade.

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