Grata visita

Tem anos que não nos vemos.

Se bem que não sei. Entre nós, o tempo se repaginou. Agora ele nada mais é do que fragmentos de reminiscência.

Talvez tenhamos nos visto ontem. E é até provável que eu esteja furtando no ar o seu cheiro neste exato momento. Acho que é por isso que parte do meu coração se deixa escapar pelos olhos.

Desde que você precisou partir, as coisas não são mais as mesmas. Seu lugar no sofá da sala esfriou e a xícara marcada pela borra do pontual cafezinho que inaugurava as manhãs vive calada.

Durante o nosso adeus, eu me despedi de você e um pouco de mim.

Decidi navegar. Acontece que sem porto o barco não ancora, daí porque eu vivo em alto-mar.

Como em qualquer expedição, há dias de calmaria, outros de tempestade. Desconhecendo destino final, sigo a jornada como espectadora do ir e vir… tanto dos dias quanto das ondas.

Se me perguntam o que orienta o fluxo das velas, digo que somente o vento. E não minto. Mas trato de remar a conversa para outro rumo. Não quero ter de revelar o que me levou a lançar o barco ao mar. Sou foragida, afinal.

Fujo da falta que faz seu abraço. Não suportaria conviver com a certeza de que meu corpo frágil nunca mais aportará no aconchego dos seus braços sempre que o temor se aproximar.

Por sinal, andei sentindo muito medo. Na falta do seu amparo em meio ao mar revolto, busquei acolhida no silêncio. Agora vejo que não foi por acaso que sonhei com você essa noite, vó.

Subvertendo as regras dos planos existenciais, você materializou-se e durante um breve e deveras real encontro fez novamente do seu peito um porto seguro para essa velha marinheira.

Do que me recordo, sei que tentei viver ao máximo o calor do seu abraço. Pena que o toque molhando de parte do meu coração saindo pelos olhos, tanto lá dentro quanto aqui fora, me fez rapidamente acordar.