Somente um pedido
Não me conceda um pedido.
Eu saberia exatamente o que enunciar.
Sem pensar duas vezes, eu pediria a imortalização daquele nosso segundo.
É um segundo, apenas, mas necessito que se perpetue.
Preciso que aquele aconchego seja perene, sem que nada ouse irromper o fluxo de nossas respirações espontaneamente sincronizadas.
Preciso ouvir o silêncio daquele recorte me contando sobre a delicadeza com que os cabelos se derramam sobre o meu busto quando ela recosta a cabeça no meu ombro.
Preciso me nutrir do perfume que sutilmente povoa o ar ao menor movimento que seu corpo faz.
Preciso obedecer ao desejo de estar, de apenas estar, sem as exigências do ser ou do ter, sem a impertinência dos porquês.
Preciso ser fiel à naturalidade com que a pele dela esbarra na minha e permanece.
Preciso respeitar a convocação dos instintos, que me mandam ficar porque são conhecedores do querer.
Não me conceda um pedido. Eu sei exatamente o que enunciar.
Mas, por favor, me conceda um pedido e sem pestanejar eu eternizarei aquele instante.
É que ali eu viveria por toda a eternidade sem nada mais desejar.