Ensaio sobre a pobreza
Uma noite — poucos minutos de prosa com um senhor de 88 anos para aprender sobre a vida.

4 de setembro, umas 21h30, um senhor de 88 anos levanta de sua cama.
Fui até o seu quarto para verificar se estava tudo bem.
Ele já se encontrava de pé, tentando dobrar as cobertas.
Por que está dobrando a coberta Vô? — perguntei, com curiosidade sincera.
— Já é de manhã não é ? - respondeu meu vô.
Não vô, tá tarde, ainda é umas nove horas!
Vi que ele baixou a cabeça, se sentindo um pouco envergonhado.
— Eu canso de falar pras pessoas, que não é loucura, é esquecimento! — justificou o senhor de 88 anos.
Eu sei Vô . — respondi com certeza, embora a resposta não tenha saído com tanta confiança.
Vamos aproveitar que o senhor levantou e vamos conversar? — convidei-o animado.
Ele sorriu!
Vô — iniciei — como era a vida na Bahia?
A resposta veio em menos de 2 segundos.
“A vida era boa, éramos pobres, mas sem precisão.”
Éramos pobres, mas sem precisão — Considerei de pronto a resposta, como a minha inteligência, que julgo ser bastante desenvolvida.
Mas eu demorei um certo tempo para perceber o peso de uma vida de experiência resumida em uma resposta simples e solene.
Reservada somente a aqueles que testemunhou a transformação da sociedade e os impactos da complexidade.
Depois da resposta dada, não veio nenhuma explicação do que fora dito. A sabedoria do senhor de 88 anos dizia que o rapaz de 26 entenderia sem esforço.
Entretanto, precisei refletir um resto de noite e um dia seguinte inteiro para descobrir que o resultado do estudo empírico do senhor 88 anos, havia provado que;
Nossa sociedade relaciona a pobreza de acordo com a posse e o seu valor comercial.
Nossa sociedade relaciona pobreza com o quanto se tem, comparado com o que o outro tem.
Para nós, somos pobres quando não temos aquilo que queremos, quando não temos condições financeiras de termos aquilo que desejamos. Ainda que não precisamos.
Então pode-se dizer que ser pobre é precisar de mais e demais?
Na Bahia em 1930, onde morava meu avô, as pessoas não eram ricas, mas não eram pobres, ao que tudo indica, nada lhes faltavam.
Naquela época, as pessoas ainda não eram obrigadas a se sentirem pobres. Não haviam sido afetadas pela nova concepção do que é pobreza.
Gostou? Clique nos aplausos — eles vão de 1 a 50 — e deixe seu comentário!
Confere meus outros devaneios aqui Roberto Flores
As vezes quero escrever, mas me falta inspiração, você pode me sugerir temas por aqui QUERO DEIXAR UMA SUGESTÃO
Meus últimos leitores ♥
