Reflexos filosóficos #2

Cheguei a assustadora conclusão de que todas as relações humanas são puramente egoístas. Isso não é algo necessariamente ruim, no sentido prático, porém não deixa de ser uma conclusão teórica interessante.

Você não gosta objetivamente de alguém. Gostar de alguém não é um fim em si mesmo. Você gosta de alguém pelas sensações que essa pessoa te provoca. Sendo assim, você gostará ou não de uma pessoa não por ela ser ela, mas sim pelo que ela te proporciona de bom ou ruim.

Além disso, inevitavelmente, você gostará — caso a pessoa tenha lhe feito algum bem — ou tenderá a perdoar — caso as atitudes dessa pessoa tenham lhe sido desgostosas — se a mesma for um parceiro sexual em potencial.

Tal característica advém de um fato evolutivo relativamente simples de se explicar. Nos nossos primórdios, éramos seres assexuados. Há bilhões de gerações atrás, não precisávamos nos relacionar com outros indivíduos (no sentido gregário), nem dependíamos de outro indivíduo para nos reproduzir. Diversos fatores e muitos anos fizeram com que a seleção natural favorecesse os indivíduos sexuados. A partir daí, surgiu-se a necessidade de se relacionar de forma não predatória com outro indivíduo. De forma independente ou não da reprodução, a seleção natural notou (cegamente) que os indivíduos que andavam em grupos, ou seja, que se ajudavam, se reproduziam mais. Sendo assim, esses indivíduos deviam expressar sua necessidades, conseguir chamar ajuda, mostrar gratidão, raiva, simpatia entre outros fatores e, portanto, surgiu-se a necessidade de compartilhar informações, de se desenvolver uma linguagem e um vínculo afetivo, para maior união do grupo, aumentando as chances de reprodução.

Portanto, a conclusão lógica é a de que nos relacionamos com os outros porque precisamos. Precisamos porque nossos antepassados que se relacionavam mais e melhor se reproduziam mais. Perdoamos e gostamos mais facilmente de parceiros sexuais em potencial porque dessa forma aumentamos nossas chances de copular e, consequentemente, ter mais descendentes.

Por isso, o amor é consequência da necessidade evolutiva de reprodução e não são [o amor e a necessidade de reprodução] de forma alguma excludentes. Não é porque a nossa necessidade primaria ao se relacionar com um parceiro sexual em potencial seja o sexo que não poderá haver amor e um relacionamento duradouro entre essas pessoas. Poderíamos pensar que um relacionamento duradouro, seguindo essa lógica, é insensato, pois diminuiria as chances de reprodução (você terá menos descendentes copulando com apenas uma fêmea ao invés de cinco), entretanto, se dedicando a apenas uma fêmea, as chances de que o descendente gerado dessa relação sobreviva é maior que as chances de sobrevivência dos descendentes cujo o pai se dedique às cinco fêmeas.

Toda ação puramente altruísta (que são extremamente raras em nossa sociedade), como ajudar alguém sabendo que jamais ganhará absolutamente nada em troca e sem que mais nenhum outro indivíduo saiba dessa ação, não passa de um distúrbio mental. Não passa de um erro, no sentido evolutivo. Indivíduos que fazem alguma ação altruísta e não aumentaram, como consequência, as probabilidades de se reproduzir, são penalizados. São indivíduos defeituosos, do ponto de vista evolutivo.

Altruísmo puro não tem valor para a evolução, na verdade, quase sempre gera prejuízos. Nossa natureza é tão deturpada e a única forma de escapar dessa tirania é pelo uso da razão. Se algum deus criou essa natureza, ele passa longe de ser bondoso. Um deus de puro amor não faria seres tão egoístas e mesquinhos quanto nós.