Testemunhas de Jeová e a desinformação

Relato da minha (curta) experiência com eles


Domingo de manhã. Estava na casa de um amigo preparando torradas pra acompanhar o leite. Escutamos alguém bater no portão. Ele foi atender e depois de um ou dois minutos fui ver quem era.

Olhei por entre as grades do portão e vejo dois homens: um de uns trinta e poucos anos e outro que já devia estar beirando os setenta. Quando vi a bíblia já desconfiei, mas nada contra, adoro conversar sobre religião.

Eu os cumprimentei e eles me cumprimentaram. Meu amigo estava quieto, meio tímido. Me entregaram um folheto onde estava escrito a pergunta: quem controla o mundo? Eles perguntaram ao meu amigo e ele respondeu:

— Acho que um pouco o diabo, um pouco os homens.

Os homens concordaram, Deus parou de “controlar” o mundo quando Adão e Eva falharam para com Ele. E por esses dois terem falhado, ele deixa toda a humanidade sofrer nas mãos do Diabo até o dia que Ele sair de sua aposentadoria e vir salvar os bons, no dia do juízo final. Pensei: que baboseira. Disse: não faz muito sentido. Ele foi desviando (meio inconscientemente) do assunto e deixei passar.

Em seguida perguntaram qual era a religião do meu amigo e ele respondeu que era católico. Perguntaram qual era a minha e disse que eu era ateu.

O mais velho ficou quieto e o mais novo, muito atencioso, deu uma risada e disse que nunca havia conversado com alguém como eu (como se eu fosse de outra espécie).

Continuamos a conversa e expliquei sobre a improbabilidade de existir um Deus, falei rapidamente sobre evolução e sobre como nosso planeta é pequeno e apenas um entre bilhões….

Algumas coisas me surpreenderam, primeiro que eles interpretavam de forma absolutamente literal a bíblia, inclusive toda a coisa de Adão e Eva, dilúvio etc (coisas que achei que já haviam sido superadas por qualquer um que pense), depois fiquei sabendo que eram contra a transfusão de sangue (coisa que me surpreendeu ainda mais) e pra finalizar o mais velho me disse que o Brasil não vai pra frente porque nossos governantes são controlados pelo tal do diabo.

Me explicaram o porquê de haver sofrimento no mundo, como a Terra é perfeita para a vida e que tudo isso não podia ser apenas por acaso etc.

Vi que por mais que explicasse (e o mais novo parecia realmente dedicado a entender minha não crença), não havia a menor possibilidade de eles absorverem alguma coisa do que falei.

Passei meu celular pra eles (queria continuar a conversar, não desisto tão fácil) e fui convidado para ir a reunião que teria no fim da tarde. Agradeci-lhes e disse que iria.

Meu amigo (que ficou quieto enquanto falávamos) concordou de ir e antes de jantar, lá fomos nós. Cheguei lá de calça jeans, tênis e uma camiseta verde-escura. Meu amigo foi igual, porém com uma camiseta laranja. Prendi minha bicicleta ao portão e entrei. Pra começar vi umas trinta pessoas, todas de terno e as mulheres de saia. Por onde eu passava era cumprimentado. Desde o começo, nos trataram muito bem. Encontrei o homem mais novo que tinha ido ao nosso portão e ele ficou muito feliz por termos comparecido, disse que éramos homens de palavra e percebi que ele tinha uma (ligeira) maior simpatia por mim que pelo meu amigo, apesar de eu ter discordado de tudo que ele havia falado até o momento. Gostei de apesar de pensar diferente, ser respeitado.

Sentamos, levantamos para cantar uma música de louvor a Jeová e sentamos novamente. Um homem subiu numa elevado e começou a falar. Disse que todos que estavam presentes lá não era por acaso, que Jeová havia nos escolhido. A pergunta que ele iria responder em seu discurso era: Deus se importa conosco?. Citou (para minha surpresa), vários dados sobre a Terra, sua distância do Sol, sua velocidade de translação, temperatura etc, com o objetivo de mostrar como Ele se importava, já que havia criado o planeta perfeito para nós. Em seguida o homem disse sobre como nós humanos somos perfeitos e como só poderíamos ter sido especialmente criados por algo. Percebia-se claramente que o homem que discursava era inteligente, falava com clareza e segurança, seu discurso era fluído e bem falado.

Já fiquei decepcionado, todas as evidências da evolução foram ignoradas e a ideia de que o planeta Terra é um entre bilhões (e que, portanto, não é tão surpreendente que ele tenha condições favoráveis para ter água liquida, por exemplo) foi completamente ignorada. O homem que foi ao meu portão estava encantado, fascinado por como Deus fez tudo tão bem feito.

Depois, ainda dentro do assunto de como o ser humano é perfeito, ele disse que Deus criou o homem para juntar-se a mulher e a mulher para juntar-se ao homem e disse que homossexualidade era pecado, conforme Levítico 18:22, todos obedientemente abriam no tal de Levítico, confirmando o que o homem disse.

Por essa eu não esperava e fiquei impressionado com a tamanha certeza e dogmatismo que o homem que discursava falava. Mesmo a ciência apontando que cada vez mais a homossexualidade é uma tendência genética, as pessoas continuam cegas. Acho que para alguns a religião acaba sendo um lugar onde se pode justificar e repousar o ódio.

O homem desceu do elevado e em seu lugar subiu outro. Discursou sobre Maomé e a abertura do Mar Vermelho (também interpretada de forma literal), mas ficou nisso.

Terminada a reunião, conversei mais um pouco com o homem que foi ao meu portão ele me deu uma bíblia (nova) e um livreto que fala sobre o que a bíblia ensina. Perguntou se eu gostei e eu disse que achei interessante. Eu e meu amigo nos despedimos, pegamos nossa bicicleta e fomos embora.


Cheguei em casa num tom melancólico. As reuniões eram apenas aulas de desinformação, preconceito e misticismo. Sempre respeitei as religiões alheias, nunca ofendi ninguém por religião. Mas, não tenho mais certeza se devo ficar neutro em relação a esse assunto. Os Testemunhas de Jeová foram atenciosos, educados e gentis. Pessoas que são verdadeiramente dedicadas e que não pouparam esforços em nos receber bem, são pessoas boas que são mal orientadas por um livro que consideram sagrado.

No meio das quase trinta pessoas haviam pelo menos três crianças, que desde cedo sofrem essa lavagem cerebral. Percebia-se que a maioria dos que estavam lá eram pessoas com mais de 4o anos, aparentemente de baixa renda. Pessoas que sem saber o absurdo do que lhes era falado, aceitavam e se sentiam felizes por estarem louvando a Jeová. Tive pena.