CIORAN — Cansaço por Excesso de Lucidez

CIORAN é um pensador excêntrico. Pessimista e irônico, nunca deixa claro se está dizendo a verdade, ou se está simplesmente escarnecendo com o leitor.

O seu pessimismo excessivo nos leva a dar boas risadas, mas não sem uma dose de culpa. Rimos pelo seu exagero, mas nos constrangemos por nos deixar convencer. Cioran blasfema a vida o tempo todo, mas sempre damos-lhe a razão. Ele sabe como dizer as coisas.

Apesar de tudo, ele é sincero. Sim, visceralmente sincero. Ao ler seus livros, somos agarrados pelo pescoço, enquanto ele nos diz algumas verdades. Ele sabe como destruir as ilusões.

Cioran é um pensador reacionário. Não que ele queira preservar a moral e os bons costumes, a família, a religião cristã ou os valores. Ele simplesmente não acredita na revolução. É reacionário por puro ceticismo, ou melhor, por desesperança. Cioran não acredita em um mundo melhor. Sabe que isto não é possível, e que as revoluções sempre recairão em projetos totalitários.

O povo, pretexto de todas as ideologias, está condenado a servir de massa de manobra. Todos que falam em seu nome, não passam de vigaristas. O povo não tem salvação, está eternamente condenado à manipulação e à subserviência.

A vida em sociedade não passa de um artifício para os homens melhor atormentar a vida uns dos outros.

A democracia, bela em teoria, para Cioran é a decadência da alma, onde nossos instintos são suprimidos, enquanto a vida se resolve em ordem, calmaria e languidez.

Nada lhe escapa.

Para ilustrar, deixo-lhe um trecho de um de de seus livros:

uma revolução que teve êxito, que se estabeleceu, transformada no oposto de uma fermentação e de um nascimento, deixa de ser uma revolução, porque imita e tem de imitar as características, o aparato e até o funcionamento da ordem que derrubou. Quanto mais se consagra a isso (e não tem como fazer de outro modo), mais destruirá seus princípios e seu prestígio. Doravante conservadora a seu modo, lutará não para defender o passado, mas o presente. Nada a ajudará mais nisso do que seguir os caminhos e os métodos que o regime que aboliu usava para se manter. Da mesma forma, para assegurar a durabilidade das conquistas de que se orgulha, ela se afastará das visões exaltadas e dos sonhos de onde até então extraíra os elementos de seu dinamismo. Só é revolucionário o estado pré-revolucionário, aquele em que os espíritos se consagraram ao duplo culto do futuro e da destruição. Enquanto uma revolução é apenas uma possibilidade, ela transcende os dados e as constantes da história, ultrapassa por assim dizer o seu espaço. Mas, a partir do momento em que se instaura, retorna e se conforma a ele e, prolongando o passado, segue a sua rotina. Isso lhe será ainda mais fácil se utilizar os meios da reação que, anteriormente, condenara. Não há anarquista que não esconda, no mais fundo das suas revoltas, um reacionário que espera a sua hora, a hora da tomada do poder, em que a metamorfose do caos em… autoridade apresenta problemas que nenhuma utopia ousa resolver ou sequer encarar sem cair no lirismo ou no ridículo. (CIORAN, Exercícios de Admiração. Editora Rocco)